Cinema

O jogo bruto do poder

Filme sobre o célebre caso da agente secreta americana Valerie Plame, exposta em público pelo governo Bush,  e os bastidores sórdidos da operação de invasão do Iraque  

15/07/2018 16:14

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Créditos da foto: Divulgação


Jogo de poder é um filme comercial do diretor Doug Liman, o mesmo autor de A identidade Borne. Não contasse com uma grande história, que ganha peso maior quando sabemos que se trata de trama verídica, seria mais uma entre tantas produções de linha, e contando com dois excelentes atores/estrelas do cinema americano, ambos com posições políticas contestatórias e bem fundamentadas - Naomi Watts e Sean Penn.
 
Fair Game – que estaria melhor com o título de unfair game - foi realizado em 2010, no rastro de dezenas de outros filmes de ação e suspense, a maioria deles de propaganda. Alguns,  mais ou menos filmes de denúncia, como este,  revelando ao grande público os bastidores sórdidos da guerra dos mais recentes governos dos Estados Unidos contra o terrorismo e, em particular, das lutas americanas no Afeganistão, no Iraque e, posteriormente, no Oriente Médio que respinga petróleo e por isto alvo principal da apropriação por parte dos EUA.
 
Até hoje a história do vazamento do nome da agente secreta da CIA Valerie Plame Wilson, casada com um embaixador aposentado, Joseph Wilson, é pontuada de pontos obscuros e mal explicados na vida real e também no filme.
 
Valerie era uma agente secreta da CIA que levava uma vida sem grandes sobressaltos, com a família, em Washington, convivendo, por conta da profissão de diplomata do marido e das suas amizades, com a alta classe média e com quadros importantes do governo Bush filho.
A revelação do seu nome ao público, exatamente há quinze anos, na edição do Washington Post de 14 de julho de 20003, em artigo de um jornalista conservador, Robert Novak, foi uma ação típica de vingança mesquinha.
Wilson fizera, pouco antes, uma viagem à África e descobrira que o governo do Níger não vendera urânio enriquecido ao Iraque como se propalava então, para preparar a opinião pública para a histórica invasão sob o pretexto de esse país possuir armas de destruição em massa.
Quando voltou da viagem, Wilson escreveu e publicou um artigo no New York Times com o título What I didn’t find in Africa contando toda a história. Destruía assim a versão de Bush.
Na época da revelação da identidade de Valerie pela mídia americana, em seguida replicada nos meios de comunicação de todo Ocidente, o escândalo sacudiu os amigos mais íntimos do casal, os meios sociais e políticos da capital, o mundo.

A reputação profissional de ambos foi arruinada.
Valerie hoje, aos 54 anos, uma mulher atraente, culta,  agente veterana competente e respeitada entre os ex-colegas, havia sido cooptada pela CIA ainda estudante universitária; o que era praxe e ainda ocorre com alunos de universidades americanas com perfil conveniente.
Foi, na época, uma personagem que vendeu toneladas de jornais que esmiuçaram a sua vida e garantiu, durante semanas, uma explosão de audiência e de publicidade aos canais de TV.
 
Depois, com o correr do tempo, como ocorre na era da mass media, de turbilhão diário de informações - a maioria delas manipulada -, a história de Plame foi esquecida.
A família Wilson, ameaçada de morte, foi obrigada a mudar de cidade e de vida. Joseph Wilson escreveu vários livros sobre o caso defendendo a reputação e sua credibilidade. O mais conhecido é o volume de suas memórias intitulado Politics of Truth - Políticas da verdade. Logo, o caso Plame, ou se quiserem, a novela Plame caiu no esquecimento para ser substituída por outros escândalos e outros casos quentes.
 
Detalhes da história como o filme a apresenta: em 2003, a agente Plame trabalhava para a CIA, no departamento contra proliferação de armas. Era especialista em armamento de destruição de massa.
Sua nova missão, naquele momento, era investigar as armas de propriedade do Iraque. Seu marido, o diplomata aposentado Joseph Wilson, conclui em um de seus estudos e viagens, ser impossível o urânio para Saddam Hussein ter saído do Níger para aquele país, como acusava o governo Bush sem o conhecimento da inteligência americana.
 
Quando a administração Bush declara guerra ao Iraque com esse pretexto final, Wilson decide publicar suas investigações denunciando a armação e a mentira. Como vingança e para desacreditá-lo, o governo vaza a identidade secreta da sua mulher, coloca a família em perigo de vida e segue em frente  na invasão do Iraque. O resto da trama mentirosa, todos conhecem. Seu custo foi o de milhões de assassinatos.
 
Naomi Watts e Sean Penn ancoram bem o filme, como protagonistas plenos da trama. Ele é pontuado de alguns clichês, tem ritmo de grande produção. Não se aprofunda na história particular do casal entrelaçada com suas atividades profissionais.
Hoje, o casal continua junto, mora na cidade de Santa Fé, capital do estado do Novo México e tem duas filhas. A família vive em relativa tranquilidade embora o ex-diplomata tenha perdido quase todos os clientes da sua empresa de consultoria de negócios.
Plame e Wilson se dedicaram a escrever sobre o episódio. Ganharam e ainda ganham muito dinheiro com seus livros.

O recado da história da família Plame-Wilson versus o governo Bush filho é este: o jogo do poder político determinado por poderosas forças econômicas aliado ao poder jurídico derruba os limites da decência. Sabem bem, os donos desse poder discricionário, que dificilmente serão nem punidos ou cobrados.
Em diversas ações jurídicas, em tribunais de vários níveis o casal tentou responsabilizar o governo americano - Bush e Obama – pelos danos causados à sua família ao abusar, como se manifestam nas suas petições, do nome de Valerie. Em nenhuma delas ganharam.
Mas há dois meses, Donald Trump indultou o ex-chefe de gabinete do então vice-presidente Dick Cheney, Lewis Lybby, responsável principal por vazar a identidade da agente secreta Plame no chamado Plamegate e condenado, na época, por mentir à Justiça.
"Não conheço o senhor Libby,’’, declarou Trump em comunicado, em abril último. “Mas ouço dizer, há anos, que ele foi tratado de forma injusta. Espero que este indulto total ajude a retificar uma parte muito triste da sua vida."
Libby teve sua pena de apenas dois anos e meio de prisão aliviada por Bush que a transformou em trabalhos para a comunidade. Discretamente, ele voltou a trabalhar na sua banca de advocacia. Hoje, é um cidadão sem mancha como atesta o que se pode chamar de flexibilidade da Justiça nos tempos de hoje.
Se há impunidade em assassinar em massa para se apropriar de óleo, por que o Brasil, espaço continental estratégico relevante, e com petróleo, água abundante, minérios, solo rico, com extensas terras hoje à venda em liquidação, por que seríamos nós poupados do jogo bruto?
 
Quinze anos depois da invasão do Iraque e do caso Plamegate estamos vendo que não fomos poupados. E que na terra de Tio Sam, assim como aqui, a Justiça pode ser de uma flexibilidade complacente.
 * O filme Jogo de Poder está à disposição no Netflix.





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