Cinema

O martírio de Victor Jara no Chile de Pinochet

Suas canções foram a trilha sonora do seu país nos anos 70, e agora o músico e compositor de 'El derecho de vivir em paz' é relembrado no Chile de Sebastián Piñera e volta a ser a trilha musical do documentário 'Massacre no estádio'

29/10/2019 15:56

 

 
Não há indicação cinematográfica mais adequada, esta semana, do que recomendar assistir (ou rever) o filme da Série Documental, da Netflix, intitulado Massacre no estádio, de 64 minutos. Há 46 anos o emblemático compositor e cantor chileno Victor Jara era assassinado no Estádio Nacional de Santiago. No último fim de semana, mais uma imagem emocionante de homenagem a ele foi divulgada*, com a jovem soprano Ayleen Jovita Romero rompendo, de modo pungente, o silêncio do toque de recolher imposto pelo presidente Sebastián Piñera, e emocionando os vizinhos que a acompanharam, espontaneamente, cantando e tocando em seus instrumentos El derecho de vivir en paz, uma das mais belas e conhecidas canções de Jara.

Confluindo para a poderosa presença daquele que é um dos ícones artísticos e políticos mais fortes do continente, símbolo da luta contra as ditaduras sul-americanas e trilha sonora do seu país nos anos 70 – lembrado como amálgama de Martin Luther King com Bob Dylan -, registre-se que o estádio de sinistra lembrança da ditadura Pinochet, no ano passado, recebeu um novo nome que procura reabilitá-lo; hoje ele se chama Estádio Victor Jara.

‘’É um dos maiores assassinatos do século 20 não solucionados. É muito importante sabermos os detalhes do que aconteceu. Jara lutou contra a injustiça e pagou o preço mais alto ”, relembrou Bono Vox , o líder do U2, durante show em Santiago, há dois anos.

Junto com cerca de cinco a seis mil homens e mulheres sequestrados e levados à força pelas forças armadas chilenas para o estádio do horror, Jara foi torturado durante quatro dias, e espancado e metralhado com mais de 90 balas por oficiais do exército de Pinochet antes de morrer. Suas mãos foram praticamente decepadas, mas ainda assim ele conseguiu rabiscar uns poucos versos de sua última composição numa pequena agenda de um companheiro de martírio que estava ao seu lado – este episódio é registrado no filme pelo homem.

La Cancion inacabada foi o titulo que sua viúva, Joan, deu à pequena letra da música do marido, um talentoso rapaz de origem rural muito pobre, de sorriso cativante, aura magnética, amado pelos chilenos e amigo próximo de Salvador Allende.

 Jara foi preso logo após o bombardeio ao palácio de La Moneda, dentro da Universidade de Santiago. Trabalhava na Faculdade de Comunicação, mesmo local onde conhecera a mulher, de origem britânica. Duas horas antes do ataque ao Moneda saiu de casa para a universidade e não retornou nunca mais.

Joan Alyson Turner - seu nome de batismo, antes de adotar o sobrenome Jara - é o pilar do minucioso doc e muito bem produzido, de autoria do jovem Bent-Jorgen Perllmutt. Hoje, ela está com 92 anos. Dedicou toda sua vida à memória do compositor e a descobrir, com o auxílio de grupos que trabalham com Direitos Humanos, nos Estados Unidos e na Europa, quem o matou.

 “Uma canção de Victor Jara era mais perigosa do que 100 metralhadoras. Era um artista que tinha uma ligação espiritual bastante particular com o povo”, atesta um dos depoentes do emocionante documentário, outro que foi prisioneiro no estádio.

“Basta de músicas que não dizem nada. Que nos divertem por um momento e nos deixam vazios. Começamos a criar um novo tipo de canção”, discursava o compositor nos seus shows para camponeses e para a classe média.

E enfatizava: ‘’ É importante a aliança dos estudantes com os trabalhadores. ’’ A sua composição Oração para um trabalhador é uma das mais emblemáticas na sua obra.

O documentário se dá em três instantes. Na abertura, um clip de filme antigo de Jara tocando uma de suas músicas, Te recuerdo Amanda - Eu lembro de você, Amanda.

O primeiro tempo traz filmes históricos do Chile de Allende e registros de Nixon e Harry Kissinger (hoje ambos reencarnados em Trump e Mike Pompeo) conspirando para derrubar de qualquer modo o primeiro presidente socialista do continente eleito pelo voto. Jara surge jovem, cheio de vigor, alegre e expansivo, cantando, e na sua vida cotidiana com a mulher e a família.

Na segunda parte, o horror revisitado não apenas com documentos em imagens históricas, mas também com depoimentos de homens e mulheres que estiveram presos no Estádio Nacional, e com advogados e ex-recrutas do exército, na época, e hoje idosos, todos negando sua participação nos crimes cometidos.

E, por fim, a luta de Joan Jara e de seus advogados, nos EUA, para denunciarem o principal suspeito do assassinato do artista, o ex-oficial do exército Pedro Barrientos, que quando da redemocratização do Chile tratou de se refugiar em Daytona Beach, na Flórida, adquiriu nacionalidade norte-americana – é claro - e lá vive até hoje, livre e solto. Não retorna ao Chile onde o espera um processo e a prisão.

O documentário inclui entrevistas com advogados da família Jara e depoimentos de vários dos que foram detidos com ele no Estádio Nacional. Eles narram os últimos dias de vida do cantor e os dias que se seguiram à sua morte.

Barrientos fala sobre o crime e nega firmemente sua participação nele. É visto fazendo um teste de detector de mentiras enquanto narra sua experiência.

 

Todos os personagens, entrevistas e a trilha musical, composta pelo pianista Camilo Salinas, do grupo de música folclórica Inti Illimani, remetem à história militar do Chile dos anos 70.

Mas é impossível, revistando o documentário, dissociar os acontecimentos da época com os fatos da revolta que se desenrola hoje no país. Uma das letras de Jara lembradas no filme, ‘’... Vamos nos libertar da miséria...’’, continua mais que atual.

Em uma das últimas imagens, já bem idosa, Joan arremata: ‘’O Chile foi uma tragédia coletiva. Mas nunca alguém chegou a pedir perdão pelo que fez. ’’

Como lembrete, retornando à mesma luta que agora ganha novo rosto nas ruas chilenas: o Estádio Victor Jara acolherá, no próximo dia 23, os dois times de futebol mais estimados da América do Sul. O argentino River Plate e o brasileiro Flamengo. Nesse cenário de lembranças tão poderosas, eles vão disputar a final do campeonato batizado de Copa Libertadores da América.

*Vídeo no youtube:



Assista ao trailer:





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