Cinema

O militarismo com a ajuda dos chacais

'O Dia do Chacal', filme clássico do cinema de suspense de espionagem mostra os métodos criminosos usados pela força do voluntarismo militar atuando sobre a política

07/05/2019 19:47

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
O protagonista, the Jackal, se tornou célebre pela imaginação do escritor britânico Frederic Forsyth, em 1971, quando foi lançado o seu célebre livro O Dia do Chacal e, dois anos depois, com o filme nele baseado, de autoria do saudoso mestre do cinema americano dos tempos de ouro, Fred Zinemann, produção franco/britânica.

Hoje no cardápio da Netflix, The Day of the Jackal é um clássico do gênero de espionagem e do suspense político e um dos cartazes mais acessados do streaming. Embora o roteiro esteja ancorado no personagem do Chacal, cognome de um provável e vago cidadão inglês que se chamaria Charles Calthrop, de identidade incerta, o seu pano de fundo - de modo sutil e inteligente se revelando apenas na introdução da trama – é o de como todos os limites podem ser ultrapassados quando o poder militar decide mudar o jogo das forças políticas ao se ver em situação desvantajosa, em determinado momento.

O Dia do Chacal rememora os atentados à vida do general de Gaulle. Situa o terceiro deles, em 1962, quando se dirigia de carro à sua mitológica casa de campo em Colombey-les-Deux-Eglises, e cria como hipótese aquela que poderia ter sido a quarta investida assassina contra o então presidente da França no cenário hipotético da Île de la Cité.

Os mandantes dos ataques na vida real e dos vilões, no filme de Zinemann, são de um grupo incrustado na sociedade francesa da época, muitos deles ex-paraquedistas, uma milícia paramilitar que antes, como força regular, atuara na guerra colonial do norte da África e então contra a independência da Argélia – a Organization de l’Armée Secrète, a célebre OAS.



Formada como agremiação em 1961, a OAS adotou essa sigla se referindo ao exército secreto da resistência francesa durante a ocupação pelos alemães. Inconformada com o armistício com os argelinos do Front Nationale de Libertation – a FLN – a OAS prolongou, com ações terroristas, a guerra decretada finda pelo presidente de Gaulle.

Franqueando todos os limites e perpetuando uma guerra suja, a organização, através da sua seção Metropolitana de Paris contrata um matador profissional para chegar aos seus desígnios políticos.

Eliminando de Gaulle derrubaria a política do seu governo direcionada à antiga colônia. Um refinado atirador de elite, elegante, imagem de perfeito modelo masculino, é contratado para assassiná-lo. O ator Edward Fox, como o sombrio e solitário jackal, está perfeito.

Um matador sobre quem nenhum serviço secreto tem informações nem é fichado em seus arquivos. Assassino especialista em matar os homens mais bem protegidos do mundo, é o autor, depois ficamos sabendo, do assassinato do ditador dominicano Rafael Trujillo.

Do outro lado, o herói, o emblemático ator frances Michael Lonsdale, fazendo o super detetive, o melhor do país, então aposentado. É ele o contratado pelo governo para vir a ser o contraponto dos militares. Depois de muitas noites insones consegue localizar a movimentação do Chacal.

Um aspecto curioso do filme é o cenário de uma Paris dos anos 60 aparentemente bem mais tranquila que a de hoje, a dos coletes amarelos (os gilets jaunes), dos moradores de rua e dos imigrantes orientais famintos que ainda são acolhidos na França.

Aparentemente.

Na realidade, foi o tempo de inúmeros atentados políticos em Paris, e de assaltos a bancos (vê-se na introdução do filme) porque a OAS precisava fazer fundos para as suas operações.

Uma das mais célebres ações de terror urbano da época (1965) foi o sequestro do líder de esquerda marroquino Mehdi Ben Barka, em plena luz do dia, na calçada defronte da célebre Brasserie Lipp, no Boulevard Saint Germain, ainda hoje um reduto de políticos parisienses.

Barka, tido como liderança e interlocutor dos europeus tão importante e carismático como Guevara, foi vítima de uma armadilha do serviço secreto israelense, o Mossad, preso, torturado e assassinado na França. Com a assessoria ou pelo menos com o conhecimento da polícia francesa? Até hoje se discute o assassinato de Mehdi Ben Barka pelos chacais de ocasião.

Já o caso da OAS, presente no filme, convém lembrar as suas ligações com a tortura como política e ação de estado e as relações com outros generais, como Paul Aussaresses,* grande amigo do general João Batista Figueiredo e quem montou, na América do Sul, os laboratórios para torturas da Operação Condor, no Cone Sul – foi um dos mestres dos torturadores brasileiros.

Essa história escrita por Forsyth, um campeão de venda de livros de suspense nas últimas décadas, é uma das suas dezessete novelas. Ela traz todas as dramáticas reminiscências de um ambiente de feroz perseguição, com a força bruta, dos assassinatos, expurgos, torturas, desaparecimentos (até hoje) de mulheres e homens, de coação e de cooptação dos que ficaram, e ficam ainda hoje em cima do muro.

Assim como The Odessa File, outra das mais conhecidas novelas de Forsyth, ela é best seller mundial e um dos quatro filmes inspirados em obras do autor cuja experiência foi não apenas de piloto da força aérea britânica, a RAF, mas também de repórter e apresentador da BBC. Dois livros seus se tornaram minisséries de televisão.

O Dia do Chacal é um filme a ser revisto não apenas como um bom filme de entretenimento, que se mantém novo, e com alguns acentos irônicos do humor inglês.

Mas é também uma viagem ao passado, ao voluntarismo militar de mais de meio século atrás – no Brasil e fora daqui – contra o qual estamos mais uma vez lutando e resistindo para que não se repita no país.

*Personagem principal do livro A tortura como arma de guerra de autoria das jornalistas Leneide Duarte-Plon e Clarisse Duarte de Meireles.





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