Cinema

O (muito) que restou de maio 1968

'Não quero ouvir assobios da minha juventude quando eu estiver velho', diz o personagem de Depois de Maio que mostra a contracultura infiltrada pela geração de 68 na vida atual e as discussões políticas das esquerdas em outro filme: Quartier Latin. Ambos para assistir em casa

22/05/2018 18:03

Cena do filme Après mai, de Olivier Assayas

Créditos da foto: Cena do filme Après mai, de Olivier Assayas

 

Por Léa Maria Aarão Reis
 
E depois do maio de 68 em Paris? E no mundo? A História anda devagar. Às vezes a humanidade cansa do seu ritmo pesado e tem um espasmo de revolta. Ocorreu na Comuna de Paris, nas longas guerras de libertação (como no Vietnã), nas revoluções que irrompem com violência, e na Rússia, em 1917. Na China de Mao e no ano de 1968 esse soluço pipocou em várias partes do planeta. Nestes momentos, a humanidade pretende transformar a realidade insatisfatória e apressar o passo da História em movimento por vezes inútil.
 
Na França, por exemplo. Depois do plebiscito convocado por De Gaulle – no qual ele perdeu a reforma do Senado - e a partir de junho de 69 quando morreu, depois de renunciar. Até aqui os franceses foram governados por seis presidentes de direita instalados no Elysée.
 
Alain Poher, com mandato tampão. Eleito em 20 de junho de 1969. Seguiu-se a ele Georges Pompidou, sucedido novamente pelo mesmo Alain Poher (segundo governo provisório) até 74, quando assume Valéry Giscard d'Estaing por sua vez seguido pelo primeiro socialista na presidência, Jacques Mitterrand que perde a eleição para Jacques Chirac o qual, por sua vez entrega o poder a Nicolas Sarkozy que deixa a presidência para François Hollande - o segundo socialista desde maio de 68. O poder presidencial vai para Emmanuel Macron.
 
No Brasil, nunca é demais relembrar que o nosso arremedo (fraude armada e às avessas) do ’’maio de 68’ ou seja, o ‘’junho de 2013’’ nos trouxe de bandeja o protofascismo, o golpe contra a Presidente Dilma, a derrocada do governo progressista do PT e, atualmente, o fascismo sem máscaras.
 
Mas na Paris dos primeiros anos dos 70, a cidade ainda era chamada na Europa de a ‘’capital da polícia’’. Mal ou bem a luta dos estudantes continuava. Blaise Pascal era citado pelos rapazes e moças dos liceus: “As agitações e os desastres são intermináveis; a vida é assim.’’
 
“Não queremos ser como os velhos que lembram a sua mocidade com suspiros, ’’ clamava um dos bordões da garotada que prosseguia discutindo a Revolução Cultural de Mao, os hábitos da pequena burguesia e produzindo, a duras penas, panfletos e jornais com ‘’informação livre para combater a mídia corporativa. ’’

Debatiam, interminavelmente, as cisões e divergências programáticas entre estudantes, operários, comunistas e os dirigentes da poderosa CGT - a Confederação Geral do Trabalho -, entre uma pichação e outra, entre uma e outra bomba detonada, e a presença nas aulas.

Este futuro imediato do maio de 68 é o tema do filme escrito e dirigido pelo francês Olivier Assayas, Depois de Maio (Après mai) *, realizado em 2012 e prêmio de Melhor Roteiro naquele ano, no Festival de Veneza.

O protagonista Gilles é um jovem estudante de liceu de classe média parisiense, filho de pais burgueses afluentes, que vive a ainda efervescente atmosfera cultural e política herdada de 68. A sua vida pessoal, representação de uma geração de adolescentes que se agarram ao rescaldo das barricadas, oscila entre os projetos pessoais, a vida amorosa e o início dos estudos de Belas Artes dentro da normalidade, as brigas com o pai e a participação na ação política direta e radical.

Assayas fez um trabalho comercial, um filme leve e flexível para o mercado e temperado com alguma tristeza, melancolia e perplexidade. O seu mérito, porém, é o de rastrear, acompanhando o estudante Gilles, o que ocorreu com muitos dos meninos e meninas no futuro imediato ao mítico maio de 68.

A (re) descoberta do Oriente, as viagens a Goa, as leituras adivinhatórias do I Ching, a prática da ioga na Índia. Os jovens europeus circulavam pelos campos de papoulas de Mazar-e-Shariff e de Kandahar (ainda em paz), no Afeganistão, de onde saía a matéria prima da heroína e do ópio.

Depois de maio de 68, para milhões de jovens de Paris, da Itália e da Alemanha o destino foi Paradise e Superparadise, as praias nudistas de Mikonos. O Nepal, o budismo tibetano, os mercados e os hotéis de Cabul e as primeiras experiências com o ácido e com a psicoterapia de Jung para além da psicanálise de Freud.  

A contracultura e um modo de viver mais livre e tolerante, estilo de vida crítico ao sistema (a palavra da moda, na época), porém em mutação contínua. Foram estas algumas das heranças da revolução permanente maoísta. Referências que determinaram a vida futura de milhões de jovens dessa geração. Dos que sobreviveram às drogas, à tortura (no Brasil), perseguições, processos e prisões no Leste europeu e na Alemanha (Baader Meinhofer), e a todas as formas de discriminação, e aprenderam a conviver com as desilusões que, no entanto, resultaram no feminismo, no sexo livre, no hipismo, no ambientalismo e nos movimentos de oposição decisiva ao racismo e à discriminação da homossexualidade.

‘’Tenho medo que a minha juventude fique me assobiando lá do passado, ’’ diz, muito a propósito, um personagem de Assayas nesse Depois de Maio onde ele insinua não se ter perdido tudo.

Outro filme, um embrião para documentário, é outro lado da contracultura que se foi entranhando na normalidade de 50 anos para cá e abre brechas, até hoje, na caretice burguesa, no reacionarismo e na rigidez conservadora.

Chama-se Quartier Latin** e vale a pena assistir. Trata-se de um conjunto de anotações de imagens de um fotógrafo de excepcional talento, William Klein, uma das celebridades dos anos 60.

Dois anos antes Klein dirigira um filme satírico do universo da moda, de grande sucesso internacional, Quem é você, Polly Magoo? Em 68 foi solicitado para fazer imagens da violência policial e das barricadas nas ruas do quartier latin, das ocupações da Sorbonne e do Teatro Odéon e das coletivas para a imprensa mundial dos líderes dos estudantes.

A participação de Daniel Cohn Bendit é uma delas. No final da sessão de perguntas e respostas, Danny, o Vermelho, como era chamado, diz, candidamente: ‘’Estou saindo agora deste local, mas não posso dizer por onde sairei nem para onde vou por questões de segurança... ‘’

As cenas e sequências eletrizantes vistas pelas lentes de Klein seriam usadas em documentário futuro que acabou não sendo realizado. Na sinopse, os produtores observam que ‘’ o filme é levado à população, estudantes, militantes, ativistas, pessoas que no dia a dia não têm quase contato umas com as outras e podem, de repente, se expressar. Trabalhadores, donas de casa, garçons, donos de loja, imigrantes, crianças, pensionistas, yuppies insatisfeitos, chefes arrependidos, jovens homens e mulheres raivosos e de todos os tipos e tendências políticas cujas discussões inflamadas se espalharam por toda a cidade. Boas intenções, rumores, revelações, sonhos selvagens e discursos, análises incisivas e rebuscadas, reviravoltas dramáticas, intrigas, confissões, crises de consciência, psicodramas. Falas e mais falas delirantes. ’’

Mas também questões políticas objetivas levantadas por  intelectuais mais velhos, mais maduros, lideranças do operariado e do PCF, o Partido Comunista Francês. Vistas hoje elas são objetos de reflexão útil para, através das análises contínuas como essas, da auto crítica das esquerdas e das suas alternativas, continuar a luta contra o sistema, hoje personificado na voragem do ultra liberalismo impiedoso do capital globalizado.
 
*Depois de Maio está disponível no canal do youtube em quase toda a sua totalidade: 1 hora e meia.
*Quartier Latin  se encontra no Now/Programas de TV/Especial Maio 68.



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