Cinema

O mundo boçal anunciado por Dick Cheney

A cinebiografia 'Vice', cotada para ganhar o Oscar, mostra como o vice-presidente de Bush filho anunciou a chegada do tempo da malandragem na política rasteira

15/02/2019 19:36

 

 

Há diversos ângulos através dos quais se pode assistir e discutir o filme do americano Adam Mckay, Vice ( produzido em 2018) super cotado para receber uma enxurrada de Oscars da Academia de Cinema de Hollywood, daqui a quinze dias. Considerando que a venerável agremiação tem sede em Los Angeles, na Califórnia e é um ninho tradicional de antigos democratas opositores radicais de Donald Trump e dos republicanos, é muito provável que Mckay leve para casa algumas estatuetas.

Mas o que mais impressiona, neste segundo sucesso de filme político/comercial de McKay, uma cinebiografia de Richard Bruce ‘’Dick’’ Cheney (o primeiro foi o excelente A grande aposta - The big short - de 2016* sobre as mutretas que adubaram, em Wall Street, a grande crise econômica de 2008) é a similitude com as transgressões, as raspadinhas, o deboche e as molecagens, nas altas esferas do poder, hoje escancaradas sem pejo e que deixam muitos atônitos na esfera Donald Trump e aqui, no Brasil na do capitão Jair Bolsonaro.

Dick Cheney foi o eminente anjo da anunciação prenunciando a Era da Boçalidade como, por infelicidade, conhecemos os tempos de agora. Por sua vez, ele foi o aprendiz de feiticeiro de Donald Rumsfeld, o Terrível (o ator Steve Carell, mais debochado que nunca) – a quem, por sinal, abandonou, segundo a narrativa de McKay, como um ‘’soldado caído na estrada’’.



A mesma fala copiada (?) por um dos protagonistas do trágico filme político em vias de produção nacional e que assistimos, esta semana, se desenrolar aqui, no país. Na nossa versão tropicalista, a fala foi enriquecida pelo ministro do gabinete presidencial de Brasília: ‘’soldado caído e baleado na nuca. ’’

Neste longa-metragem, o ator (magistralmente caracterizado) Christian Bale foi notável. Bale, aliás, foi companheiro do diretor em The big short assim como Brad Pitt também, como produtor desse e do filme de agora.

Bale diz que sua inspiração para interpretar Cheney, o personagem que melhor encarna a diferença entre Esperteza e Inteligência foi Satanás.

Richard Bruce Cheney era – e é - um boçal. Espertalhão. Chegou a vice-presidente e eminência parda do governo Bush filho vindo do Cinturão da Bíblia, do Wyoming (onde Trump tem o seu maior curral de votos) e relacionado amorosamente a uma mulher fria, ambiciosa, inteligente e cruel – interpretada pela brilhante Amy Adams.



O atual vice-presidente Mike Pence é mencionado de relance no filme de McKay, nessa época de Cheney na Casa Branca (2001/2009). É outro que veio do Cinturão da Bíblia, do estado de Indiana, onde foi governador. Desde então estava lá, fazendo parte de uma facção republicana, e a postos para abocanhar o governo pós-Obama.

Vice mostra o passo a passo na escalada rumo ao poder total de Cheney. A sua responsabilidade no assassinato de 600 mil pessoas na guerra do Iraque inventada com mentiras e chancelada com a manipulação vergonhosa da opinião pública - soldados americanos e civis iraquianos morreram nessa guerra particular; e isto já é História. Mostra como se tornou padrinho do nascimento do canal da Fox News. Mostra a assessoria jurídica permanente com que contava de modo a encontrar sempre as brechas nas leis americanas por onde podia atravessar para transgredi-las ao arrepio dos distraídos – versão inspiradora do pacote anticrime do atual ministro da Justiça do Brasil?

Cheney ignorou a Convenção de Genebra e autorizou a tortura nos interrogatórios.

O filme mostra como ele aceitou a vice-presidência de Bush filho com a condição de contar com amplos poderes dentro do governo caso a chapa fosse vitoriosa: desencavou o princípio do poder executivo único. E o seu processo de acompanhar muitos dos republicanos que se safaram quando o escândalo de Watergate arrebentou e aproveitaram para ascender dentro do partido. Foi um deles.

Corajosamente, Vice retrata Dick Cheney como um homem mau. De inteligência limitadíssima e pouco racional. Mas matreiro, malandro, malicioso. O filme insinua, em vários momentos, que era um indivíduo submetido pela sua mulher a qual, na impossibilidade de se afirmar profissionalmente (foi uma escritora mais ou menos conhecida) o influenciava e até o dirigia em momentos de importantes decisões – ela estava, com as mãos nos ombros do marido, até mesmo dentro da sala de guerra montada no dia do ataque às torres gêmeas!

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Adam McKay mostra como Dick Cheney se tornou secretário da Defesa da administração de Bush pai. CEO da gigante petrolífera Halliburton (com grandes interesses no Iraque) da qual saiu com um bônus milionário.

“O que é que nós defendemos?” Cheney pergunta a certa altura a Rumsfeld, que reage apenas com uma grande gargalhada e deixa o parceiro perplexo. A ausência de inteligência do vice (digamos assim) ajudou a criação de grupos terroristas - do Estado Islâmico principalmente.

O filme, em suma, parece perguntar ao espectador: lembra como chegamos até aqui, à Era da Boçalidade de Trump e de Bolsonaro? As manobras são similares.

No seu final, a fala, que é perigosa e desnecessária, de Dick Cheney já fora do governo em uma entrevista na TV: “Eu fiz tudo para que os americanos dormissem descansados à noite.’’ Só faltou acrescentar: EUA acima de tudo, Deus acima de todos.

O filme de Adam Mckay é imperdível mesmo que a sua linguagem pop não agrade a todos. Importante: ele está em cartaz também em Brasília.

*A grande aposta pode ser visto no youtube legendado em português

Assista ao trailer de Vice:



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