Cinema

O mundo-cão à espera de Adú

Filme espanhol 'Adú' é baseado na tragédia das migrações forçadas de populações da África subsaariana e em especial das suas crianças

06/07/2020 14:34

 

 
Adú é como se chama o garoto de seis anos originário de uma pequena aldeia de Camarões que tenta fugir da África rumo ao que pensa ser o Eldorado da União Europeia. Na sua companhia a irmã mais velha Alika, apenas uma adolescente. Ambos viram a mãe ser assassinada e eles também estão na mira dos matadores.

Gonzalo é um ambientalista que monitora caçadores de elefantes, os assassinos que vendem, por preços astronômicos, os chifres dos pacíficos animais mortos por eles aos bilionários e colecionadores respeitáveis que apreciam encher de inveja amigos também bilionários e também respeitáveis nas copiosas reuniões em castelos e mansões europeias.

Matteo é um policial das forças armadas espanholas acossado pela culpa de haver matado um congolês que tentava escalar as cercas da fronteira. Ele opera na cidade autônoma de Melilla, na fronteira entre Marrocos e Espanha (UE), local tristemente célebre pela violência e pela crueldade lá praticada diuturnamente há décadas, contra o que se convenciona chamar de ''imigrantes''. No final, o filme exorciza a culpa de Matteo de modo escandaloso.



Os fugitivos aterrorizados - muitos com status de refugiados políticos - procuram deixar a África em busca de comida, trabalho e sossego mínimo para viver e sobreviver no novo velho continente; como se isto fosse possível no mundo-cão de hoje.

O filme do jovem diretor espanhol Salvador Calvo narra as trajetórias desses três personagens em busca de paz da alma - exceto de Adú. Ele ainda não chegou à idade de entender que sua jornada rumo ao caos do mundo apenas está se iniciando.

Produção de um grupo de países europeus com destaque para a Espanha e a Netflix onde estreou há cerca de uma semana e é um dos filmes mais acessados, Adú é uma ficção chupada de fatos reais assim como diversos outros cartazes atuais. Wasp network: rede de espiões, no catálogo da mesma plataforma, é outros desses tantos filmes comerciais registrados pela crítica especializada como medianos, com mais estratégia e menos força bruta.

Calvo diz que o roteiro de Alejandro Hernández se baseou em histórias verídicas contadas a ele quando rodava Os últimos das Filipinas, outro longa metragem do diretor de três anos atrás.

Adú mescla política real e agudos problemas sociais do século 21 com tintas da imaginação. Um tipo de filme que vem garantindo boas bilheterias e qualidade cinematográfica quase sempre discutível. Mas são filmes importantes, levando ao ''grande público'', em especial aos mais jovens, as situações de impasse no mundo de hoje e relativamente pouco conhecidas pela população do Brasil enredada que se encontra, ela própria, no seu tortuoso atual labirinto sanitário, político e social.

O êxodo dos africanos do sub-Saara e dos milhares de indivíduos vindos do oriente médio conflagrado por obra e arte dos governos ocidentais e americanos é um dos mais trágicos eventos deste século.



"É uma fuga em massa,'' diz um personagem do filme se referindo aos professores, artistas, engenheiros, médicos, profissionais de diversas áreas que deixam países africanos assolados pelo terror e pela miséria resultante da apropriação de suas riquezas pelas grandes potências.

''As cercas estão sinalizando que além delas é território proibido para você,'' comenta outro personagem. As (três) cercas superpostas alertam que a Europa não é para o ''imigrante.''

A fórmula de narrar várias histórias que correm paralelas (como no brilhante Babel, de Iñarritu) e concluí-las juntas em uma única, no final, em Adú deixa a desejar. Mas o desfecho em aberto do destino do garoto é bem real nesse universo de sofrimento humano, imigração forçada e ambientalismo.

Por causa dos seus temas polêmicos, esse longa que pretende abordar questões cruciais, políticas e humanitárias, chegou a ser exibido nos cinemas espanhóis antes da Europa ser atingida pela covid-19.

No transverso, ele fala do tráfico de haxixe na fronteira de Melilla. Nas fugas dos africanos incrustados nos trens de aterrissagem dos aviões que decolam da África subsaariana - muitos deles, crianças. No comércio de pessoas nas fronteiras e no abuso sexual dos pequenos. Não foi a toa uma das maiores bilheterias do cinema no inverno espanhol passado.

No seu placar final, a informação: em 2018 foram 70 milhões de pessoas vindas da África que conseguiram chegar à Europa. Metade delas eram crianças. Quantas não morreram antes?





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