Cinema

O muro que separa e o rio que agoniza

Documentários brasileiros colocam em questão a polarização política e o desastre ambiental que afeta o Rio Paraíba

07/06/2018 16:16

Caminho do Mar/Divulgação

Créditos da foto: Caminho do Mar/Divulgação

 
Entre os diversos documentários feitos a propósito da crise política brasileira, O Muro, já a partir do título, quer deslocar a questão das forças políticas em jogo para o muro em si, o ícone da polarização erguido em Brasília no dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados. Ajustando o foco no muro, o filme de Lula Buarque de Holanda assume um certo caráter conceitual, em que as paixões de um lado e de outro se equivaleriam. Seria, portanto, um filme imparcial – essa "virtude" que tantos cobram de documentários políticos como "O Processo".



Assim, pessoas favoráveis e contrárias ao afastamento da presidenta aparecem posando para a câmera, caladas e "fantasiadas" com seus adereços, em meio a manifestações. Enquanto isso, vozes desencarnadas em off declamam seus slogans e fazem a apologia de suas respectivas posições. Alguns comentários ultrapassam a superfície do óbvio ou do preconceito e soam mais analíticos ou supostamente ponderados, evidenciando tratar-se de gente culta e estudiosa do assunto. Estes serão apresentados e nomeados nos créditos finais, ao passo que os populares ficarão sem identificação. Uma divisão de classes culturais se coloca aí, separando os "de nome" dos anônimos.



O efeito é também de despersonalizar a discussão, fazendo com que tudo o que é dito permaneça numa nuvem indefinida de opiniões. Dessa maneira, O Muro adota um distanciamento cauteloso em relação ao clima reinante, como se almejasse uma mirada científica, neutra, desapaixonada. Mas eis que, em dado momento, como se não resistisse ao apelo da editorialização, Lula insere uma sequência de imóveis e propriedades postos à venda na época do golpe, como a confirmar os argumentos de quem acusava o governo Dilma de "afundar o país". Além de estar completamente deslocado da lógica narrativa do filme, esse trecho tampouco se coaduna com o debate em pauta, uma vez que o impeachment não dependia da crise econômica, mas de supostas irregularidades fiscais.



Depois de oscilar entre os dois lados do muro, o filme se põe a tratar dos que ficam em cima do dito cujo. As figuras do "isentão" e do "apartidário" entram na roda, aqui também na base de "uma opinião para cada lado", como se o roteiro fosse construído numa balança. Daí a impressão de um filme interessado em parecer, também ele, "isentão".    

O terço final de O Muro se converte numa espécie de ensaio sobre os dualismos da política a nível global. Entram em cena as barreiras montadas na campanha americana que elegeu Trump, o anti-exemplo histórico do Muro de Berlim e os dilemas que cercam o muro entre palestinos e israelenses na Cisjordânia. É quando surgem as melhores reflexões sobre as ambíguas funções dos muros, no Brasil como no mundo. Uma das vozes desencarnadas comenta o que ninguém pode negar: o muro de Brasília simplesmente concretizava o que sempre houve no país, adormecido, reprimido ou dissimulado no mito da conciliação e da cordialidade brasileiras. Um mito definitivamente soterrado sob muitos muros.

Suíte para um rio agonizante

Filmes-causa, sejam de pauta social, política ou ecológica, costumam submergir ao seu tema e, muitas vezes, resultam penosos como cinema. Nem sempre seus diretores logram encontrar no fundo dos assuntos o magma audiovisual que justifique a escolha da forma filme. Esses trabalhos podem, então, servir para provocar ou ilustrar debates, fornecer documentação potente e argumentos fortes, mas, mostrados para um público comum, despertam pouco interesse.

Quando um filme consegue fazer a alquimia tema-forma, aí junta-se informação e fruição num êxito mais amplo. É o caso de Caminho do Mar, em cartaz nos cinemas. O diretor e roteirista Bebeto Abrantes e a produtora Juliana de Carvalho (Bang Filmes) compuseram com desvelo um dossiê sobre o Rio Paraíba do Sul.



Usei o verbo compor porque o filme se estrutura como uma suíte, sutilmente dividida em movimentos que vão do allegro na nascente do rio – os olhos d'água na Serra da Bocaina, em São Paulo – ao adágio lamentoso na embocadura em Atafona, Rio de Janeiro. Entre um extremo e outro, através de mais de 1 mil quilômetros, a suíte vai ganhando tonalidades cada vez mais sombrias à medida que descreve a morte progressiva do curso d'água. O assoreamento, a poluição hídrica, o aprisionamento por usinas hidrelétricas, a perda de piscosidade e dezenas de desastres ambientais estão fazendo com que o Paraíba do Sul perca força, volume e vitalidade.

Os malefícios dessa conjuntura ameaçam a sobrevivência do próprio estado do Rio de Janeiro, cujo abastecimento de água depende em 90% daquele rio. A situação já ficou difícil para os pescadores artesanais, que recheiam boa parte do filme com suas falas bem temperadas. Caminho do Mar abre olhos e ouvidos para as gentes que vivem do rio: o extrator de areia apaixonado pelo seu manancial subaquático; o construtor de barcos que aprendeu tudo só de observar "e sem fazer perguntas"; o fundidor de gesso que fornece imagens para o culto de Nossa Senhora Aparecida, fruto do "milagre das águas".

Bebeto Abrantes é um pesquisador atento às ressonâncias de tudo com que trabalha. Vimos isso com relação aos protagonistas de 3 Antonios e um Jobim, a   João Cabral de Melo Neto em Recife/Sevilha e à música popular em As Batidas do Samba. Em sua viagem exploratória ao Paraíba do Sul ele coletou ecos da época áurea do café e da vida dos escravos africanos, que com frequência fugiam pelo rio. Na atualidade, destaca o Projeto Piabanha, que busca preservar algumas espécies de peixe em risco de extinção. E sobretudo denuncia pelas imagens a grande enfermidade ambiental que atinge o rio.



As filmagens com drone raramente foram tão bem usadas como instrumento de evidência documental. Em Volta Redonda, uma tomada antológica se ergue de um pequeno canal de desague para revelar a paisagem industrial apocalíptica de onde procede a água poluída jogada no rio. A fotografia de Andrès Boero Madrid tanto revela os trechos de beleza pouco conhecida do Paraíba do Sul quanto estampa com clareza a parafernália que o contamina e asfixia. Na captação de som (Pedro Saldanha), a riqueza acústica do rio é restituída com esmero. Coube à edição de Marcelo Rodrigues e ao desenho sonoro de Waldir Xavier criar módulos de ritmo adequados a cada movimento da suíte, sujeitando o assunto à estrutura musical que preside todo o filme. E a trilha sonora original de João Viana banha o rio de acordes fortes ou dolorosamente graves, que engajam a plateia não pela contemplação, mas pela dramaticidade.

Caminho do Mar vê o rio de dentro e mostra para a sociedade os riscos em que vivem as águas, a fauna e os seres humanos de uma vasta região. Tem uma missão de esclarecimento a cumprir junto a autoridades, ambientalistas e empresários. Descortina de forma cabal a importância histórica, econômica e humana do Paraíba do Sul, habitualmente relegado a uma relativo anonimato. Graças ao talento de Bebeto, Juliana e sua equipe, o documentário oferece ainda uma vistosa atração cinematográfica para qualquer pessoa.






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