Cinema

O novo filme da Trilogia do Silenciamento

Diretor de Soldados do Araguaia recupera a narrativa impressionante e corajosa de oito sobreviventes do grupo de 60 jovens da região ao longo do rio Araguaia, no sul do Pará, entre Marabá e Xambioá, em Tocantins

22/03/2018 08:11

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Créditos da foto: Divulgação

 
Soldados do Araguaia é o segundo doc da Trilogia do Silenciamento de Belisario Franca, autor também do premiado Menino 23: infâncias perdidas no Brasil, (2016), um dos grandes documentários brasileiros recentes segundo alguns críticos e Grande Premio do Cinema Brasileiro/Documentário de 2017, na Mostra de São Paulo do ano passado.

O filme com estreia neste fim de semana com certeza terá forte repercussão não só porque narra um acontecimento desconhecido por grande parte da população, sobretudo pelos mais jovens, como também pela situação de insegurança e incerteza política vivida hoje no Brasil que remete a todo o momento à ditadura de 1964. E à alta qualidade cinematográfica da produção.

Franca narra um episódio até aqui obscuro e convenientemente destinado ao silêncio e esquecimento. Ele recupera a narrativa impressionante e corajosa de oito sobreviventes do grupo de 60 jovens da região ao longo do rio Araguaia, no sul do Pará, entre Marabá e Xambioá, em Tocantins. Recrutados pelo exército à força e sem qualquer formação formal militar, alguns ainda eram estudantes de ginásio. A época: a ditadura civil-militar, entre 1970/1975.

Os rapazes deveriam acompanhar e guiar tropas vindas do Sul através da região amazônica, que conheciam palmo a palmo, com a finalidade de perseguir, caçar e matar opositores que lutavam contra o regime e dizimar a chamada guerrilha do Araguaia.
         
Pouco documentado, o episódio é quase clandestino até hoje. Um episódio de tortura, violência e maus tratos infligidos aos jovens recrutas, por militares brasileiros durante cinco anos sob o pretexto de torná-los aptos a matarem para servir o país contra a “ameaça comunista”.

Algumas exibições desse importante trabalho já foram realizadas. Sua pré estreia ocorreu na cidade de Marabá. Outras terão a parceria do Projeto Clínicas do Testemunho e também da UERJ, UFRJ e Unicamp e da OAB/ Rio de Janeiro através das Comissões da Reparação da Escravidão Negra no Brasil e Direitos Humanos. 

A estratégia de lançamento visa também sua difusão junto a ONGS, comunidades, ativistas, formadores de opinião, movimentos sociais, universidades, entre outros grupos, paralelamente ao atual lançamento comercial do filme. Mais do que um documentário ele constitui uma necessidade.

‘’Ao examinarmos a situação do Brasil, que saiu da ditadura sem que o tempo de violações tenha sido suficientemente passado a limpo, verificamos que ele está entre os países que mantêm um alto padrão de violência.   Ser a nação que prefere a negação — do racismo, da violência, do machismo, do extermínio das populações indígenas —  permite a perpetuação dessas práticas”, afirma o diretor Belisario Franca em recente entrevista.

No filme, um sobrevivente relata que ele e outros companheiros perderam os testículos sob tortura. Uns acabaram se tornando matadores de aluguel. Outros enlouqueceram. Vários deles, agora idosos, se emocionam às lágrimas relembrando como se deu o seu treinamento e o que presenciaram na Casa Azul, no meio da selva, onde os militares praticavam as sessões de tortura – as sabatinas. Quando a guerrilha foi massacrada, o grupo foi dispensado sumariamente. ‘’Fomos descartados,’’ diz um deles. “Não é incomum, na nossa sociedade, descartar pessoas.’’

O doc de Franca, baseado na pesquisa do jornalista e escritor paraense Ismael Machado, autor do argumento e co-autor do roteiro, é o segundo da tão necessária trilogia de filmes que pretendem exumar histórias ainda sepultadas no silêncio de um passado da história brasileira negado por aqueles que invocam o princípio segundo o qual “o melhor para a sociedade é dirigir o olhar para o futuro,” no dizer do documentarista.

‘’Aqueles que fazem do silêncio sobre o passado uma norma. Uma postura ingênua que entrega os nossos destinos nas mãos de quem quer fazer prevalecer versões edulcoradas da realidade brasileira. ’’

Os soldados Ribamar, Goes, Josean, Fonseca, Djair, Guido, Pereira de Melo e o Cabo Elias constituem o fio condutor dos acontecimentos e são os protagonistas de Soldados do Araguaia. Testemunhas sentadas à frente de um fundo negro infinito e seco como se participassem de uma sessão de interrogatório.

A trilha musical, de Yan Motta, é pontual. Vigorosa e dura, ela enfatiza a presença do Mal, potencializa o horror das narrativas dos sobreviventes revivendo o passado e é, ela mesma, personagem. A fotografia claro-escuro permanente, de Mario Franca, com a selva determinando o que reserva o destino nos faz lembrar o horror criado por Coppola na sua selva de Apocalypse Now. Difícil tarefa. Bela fotografia.

‘’Até aquela época, o rapaz que entrava para o exército era o cara. A pessoa iria aprender ali dentro a se firmar como homem, ’’ diz um dos ex-recrutas. “Quando as manobras começaram, ninguém sabia o que era aquilo; todo mundo estava apavorado. E nos diziam: isso aqui não é manobra; é para aprender a matar ou então morrer. ’’

‘’Nós fomos buchas de canhão, ’’ diz outro. ‘’Não tínhamos formação de guerrilha; nos botaram numa situação de risco. ’’

Um dos soldados do Araguaia fala dos cigarros acesos apagados no braço. Outros, do pau de arara a que foi submetido. Os garotos eram forçados pelos militares boinas vermelhas que chegavam do Rio de Janeiro a beber lama e sangue de animais.

Depoimentos muito fortes. Pedaços de vida se atualizando quarenta anos depois; não apenas relatos frios. Interligando-os, cenas e sequências encenadas sempre em detalhes, grandes closes de botas, armas, helicópteros, cadáveres de guerrilheiros assassinados. Imagens desfocadas. ‘’Alguns até caminhavam com dificuldade, ’’ diz um dos soldados, ‘’porque já estavam cheios de malária, desarmados e fracos. ’’ E a selva, sempre a selva amazônica.

Em entrevista que concedeu ao crítico e professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Marcelo Müller, comentando não ter ouvido o Exército no filme, Franca rebate: ‘’ A guerrilha do Araguaia foi uma operação estratégica. O que o Exército fez lá foi duríssimo, um verdadeiro massacre, não apenas dos ativistas, mas também da população que os suportou. Então, foi uma escolha não ouvir o Exército, que durante muito tempo preferiu silenciar-se, de fato.’’

Mas Franca ouviu sobre as marcas indeléveis deixadas nesta história de horror, extermínio e sadismo numa política de Estado na qual o militar ocupa o lugar do torturador. Ouviu psicanalistas das Clínicas do Testemunho que atendem vítimas da tortura. Jane Calhau, Eduardo Luzier, Cristiane Cardoso. Eles comentam: trata-se de um mecanismo muito complexo. Porém reviver e atualizar as situações de sofrimento é indispensável.

O diretor alerta: ‘’ As comissões da verdade fizeram um trabalho importante, que, aliás, vive um desmonte. Estamos em vias de produzir novos silenciamentos.  Me interessa discutir isso.’’ Por isto, o próximo doc da Trilogia do Silenciamento será sobre a situação da população carcerária e dos presídios brasileiros.

Na última tela de Soldados do Araguaia, antes dos créditos finais, a informação: ‘’Quatro mil homens das Forças Armadas combateram 76 guerrilheiros no Araguaia. A Ditadura Militar no Brasil durou 21 anos. O número total de vítimas de sua violência ainda é desconhecido.’’



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