Cinema

O ouro azul de Toritama

A pequena China neoliberal brasileira dos jeans é soberbamente retratada em 'Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar'

11/07/2019 13:05

 

 
Se ser feliz é julgar-se feliz, então Toritama é o que seu nome diz.

"Terra Feliz" é uma das possíveis tradições do tupi para o nome daquele município do agreste pernambucano onde Marcelo Gomes fincou sua câmera para filmar o documentário Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar. As manifestações de autossatisfação multiplicam-se entre os personagens do filme, quase todos envolvidos na indústria de roupas de jeans. Toritama é chamada de "a capital do jeans", responsável por entre 15% e 20% da produção nacional do setor.

Marcelo Gomes orienta o filme com uma narração em primeira pessoa, algo nostálgica, comparando a cidade de hoje com a que ele visitava na infância, levado pelo pai, fiscal de tributos. Toritama seria, então, um lugar calmo e rural, nada parecido com o polo fervilhante de indústrias caseiras de hoje. Um velho lavrador com seu entendimento das nuvens e da chuva, um pastor de cabras e uma agricultora contente por não estar na correria dos jeans são apresentados como remanescentes de uma outra era.



Talvez a memória tenha romantizado um pouco a perspectiva do diretor, uma vez que a cidade, desprovida de recursos naturais, baseia sua economia na produção industrial desde os anos 1970, primeiro no ramo de calçados. De qualquer maneira, é fato que a paisagem visual, sonora e social do lugar alterou-se profundamente nos últimos 15 anos, com o estabelecimento da indústria de jeans. A população triplicou, o trabalho autônomo expandiu-se, casas e galpões foram convertidos em pequenas fábricas de confecções, as chamadas "facções".

O filme vai em busca de como as pessoas se veem nesse cenário que lembra uma pequena China.

"A vida é boa". "Toritama é uma mãe". "Meu sonho é ficar rico". Essas três frases talvez resumam o que Marcelo Gomes encontrou por lá. Uma gente satisfeita por realizar o mito de não ter patrão e trabalhar por conta própria. Não importa se trabalham exaustivamente em tarefas repetitivas e insalubres, muitas vezes fundindo ambiente doméstico e fabril, encerrados em galpões sob o calor intenso do agreste. A contabilização dos ganhos por produção é o que mais conta, numa lógica de autoescravização que não é percebida como tal, mas sim como o paraíso de uma falsa autodeterminação.

Exemplar desse autoengano é o depoimento de uma dessas operárias autônomas, a bordo de sua máquina numa facção. Ela se orgulha de dispor do próprio tempo, mas, indagada sobre como o organiza, explica que trabalha de 7 da manhã às 10 da noite, com pequenos intervalos para as refeições. Outra costureira faz os cálculos para Marcelo: se confeccionar 1 mil bolsos num dia, conseguirá levar 100 reais para casa.



Posso com esse texto – como pode o filme – estar julgando a lógica alheia pelos nossos próprios valores. Afinal, a seca e o desemprego castigam o Nordeste árido, que vive em busca de alternativas de desenvolvimento. Toritama, mal ou bem, encontrou um tipo de solução, muito embora sem sinais aparentes de uma real prosperidade. O que se coloca em questão é o frenesi por uma ilusão de enriquecimento e a ausência de qualquer preocupação de previdência entre aqueles trabalhadores. Toritama é uma célula do pensamento trabalhista neoliberal.

Todos parecem viver um presente absoluto, sem passado nem futuro. Garantias trabalhistas, aposentadoria e direito ao lazer estão fora do horizonte das preocupações. Nada pode interromper o ritmo contínuo do trabalho – nem as entrevistas para o filme, nem o funk evangélico, que é dançado pelos jovens enquanto manipulam as peças de roupa.

Uma vez por ano, no entanto, Toritama descansa. É no Carnaval, quando as pessoas se mandam para o litoral por uma semana de férias. Quem não tem dinheiro para custear a viagem vende a geladeira, a televisão ou até a máquina de costura. Mais uma vez, só o presente interessa. Quando voltarem, darão outro jeito. A vida é assim mesmo.



Entre os vários personagens carismáticos e divertidos com quem Marcelo conversa na cidade, destaca-se o faz-tudo Leo, uma usina de energia física e verbal, homem brilhante e contraditório, que exprime uma rara ambiguidade irônica entre a obsessão pelo trabalho e a proverbial astúcia sertaneja. Um João Grilo ou um Pedro Malasartes da vida real, Leo é quem assume gradualmente uma função múltipla no filme, terminando por dividir com Marcelo a criação de algumas cenas.

Partes do êxito desse documentário são também a montagem habilidosa de Karen Harley, que, segundo Marcelo Gomes, o ajudou a descobrir uma dimensão existencialista do filme (quanto ao uso que se faz da vida e do tempo); a exímia captação de imagens e sons, assim como a trilha sonora do grupo mineiro O Grivo, que sempre tinge os filmes com suas tonalidades sutis.





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