Cinema

O outro lado de Orson Welles

'O outro lado do vento', obra póstuma de um dos gênios do cinema, estreou no Festival de Veneza há três meses e vem acompanhado de um super documentário: 'Serei amado quando morrer'

23/11/2018 11:34

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
‘’Se um dia me acontecer alguma coisa quero que seja você a terminar O outro lado do vento, ’’ Orson Welles disse, de repente, alguns anos antes de morrer, em 85, durante um almoço a dois apenas com batatas fritas, ao seu grande amigo, o cineasta Peter Bogdanovich. Mas não foi o diretor de A última sessão de cinema quem atendeu ao desejo de um dos maiores gênios do cinema. A montagem das cenas e das sequências dirigidas por Welles ficou a cargo de Bob Murawski, vencedor do Oscar pelo filme Guerra ao Terror. Ele encarou a imensa e histórica responsabilidade e deu vida ao último – ou penúltimo? – filme daquele garoto órfão de pai e de mãe, do Wisconsin, que aos 25 anos de idade dirigiu um dos maiores filmes de todos os tempos: Cidadão Kane.

Após 48 anos do término das filmagens prolongadas por sete anos, The other side of the Wind* foi mostrado pela primeira vez há três meses no Festival de Veneza graças à persistência da Netflix e aos cinco milhões de dólares investidos pela empresa/plataforma cinematográfica na sua finalização. Depois, foi para o Festival de Lyon e para o de Nova Iorque.

John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich na filmagem de ‘O Outro Lado do Vento’ (Indiegogo)

A história rocambolesca da recuperação do material é mais uma das lendas que envolvem a vida de Welles. Originariamente, o filme foi financiado pelo cunhado do então Xá do Irã, Mehdi Bushehri. Quando o regime iraniano caiu, em 79, as bobinas com centenas de horas de filmagens, de propriedade da produtora francesa, Les Films de l’Astrophore, da qual o iraniano era sócio, foram depositadas em um cofre de banco parisiense.  Welles tentou, em vão, recuperá-las. Só conseguira salvar uma cópia de trabalho, de 40 minutos; mas morreu algum tempo depois.

Há três anos um grupo de produtores americanos consegue liberar o filme e resolve as pendengas e desavenças entre os proprietários dos direitos autorais: a viúva Oja Kodar, amante oficial de Welles; Beatrice, a filha caçula do artista e a empresa francesa Les Films de L’Astrophore, de Mehdi Bushehri.

Uma campanha de doações de arrecadação de fundos para terminar a empreitada não deu certo. Sofia Coppola, J.J. Abrams, Clint Eastwodd, Quentin Tarantino, Wes Anderson e Steven Soderberg contribuíram. Mas o valor final foi insuficiente.

Entrou em cena a Netflix e jogou na mesa cinco milhões de dólares. Era o que faltava para a conclusão da obra. E fez mais: produziu um doc paralelo, Serei amado quando morrer*, de Morgan Neville - por sinal, fascinante – que também se encontra à disposição dos cinéfilos.

Serei amado quando morrer (Divulgação)

The other side of the Wind é uma crítica à Hollywood que tentou capturar e controlar dentro de sua fôrma industrial do tipo ultra-capitalista - máquina-de-fazer-e-ganhar-dinheiro-a-todo-custo - o talento imenso e a liberdade artística dos quais o cineasta genial nunca abriu mão. O filme entra, assim, na história do cinema maldito.

Nele, John Huston faz o personagem protagonista, um diretor de cinema recém chegado da Europa (ou seja, ele próprio, Welles, depois do seu auto-exílio europeu que durou vinte anos). Um misto da personalidade do próprio Huston com a de Ernest Hemingway e Welles.

Outros ícones do cinema fazem mais ou menos seus próprios papeis: Chabrol, Dennis Hopper, Paul Mazursky, Norman Foster, Curtis Harrington, o casal Cybill Shepard e Bogdanovitch, Lili Palmer, a mitológica crítica de cinema Pauline Kael entre outros.

Há dois filmes dentro de O Outro Lado do Vento e mais um terceiro sobre ele: o documentário de Neville. Deste modo, o jogo de espelhos e de realidades, que sempre foi tão caro a Welles, mesmo ele já estando fora de cena, persiste e segue em frente.

Em um dos filmes, um homem segue à distância uma bela mulher (Oja Kodar) e atravessa espaços perfeitos e silenciosos, satirizando o cinema europeu sacralizado na época, no auge da moda, com um Antonioni na cabeça. Chega até, suprema ironia, a mencioná-lo em um dos diálogos, hesitando e fingindo errar a pronúncia do nome do italiano...

Não por acaso, esse filme é rodado em Los Angeles, em uma casa idêntica e ao lado daquela que Antonioni explode no seu Zabriskie Point com todos os símbolos de um mundo consumista e frívolo que se avizinhava como um tsunami. No ‘’outro’’ filme, as câmeras de personagens jornalistas captam a festa dos 70 anos do realizador do primeiro filme, Jake Hannaford (ou seja, Huston-Welles). Durante a festa, Jake projeta as imagens que já produziu (do primeiro filme), na expectativa de convencer possíveis investidores presentes a financiarem a conclusão da sua obra, inacabada.

Orson Welles em cena de 'Serei amado quando morrer' (Reprodução)

O projeto de Welles, quando ele atravessa o espelho, é o projeto desesperado de quem sabe que aquela deverá ser a sua última obra-prima (ou não). É o projeto do homem desesperado com a rejeição, o boicote e a falta de meios financeiros para concluir o trabalho. Se por um lado o vento empurra para frente, ele sabe que pelo avesso, pelo outro lado, o vento repele e joga no chão.

Oja Kodar, além de atriz, é co-roteirista do filme, e com ela Neville, na sua montagem, propõe ao espectador uma narrativa labiríntica, estranha, mas, sobretudo, cansativa. Não é uma obra de fácil digestão. Mas, nela se enxerga conflitos, desgosto, falsidade e até mesmo a admiração do elenco (elenco do filme e elenco de companheiros de vida e de profissão de Welles) pelo maestro. São relações complexas que se desenvolvem no jogo cínico das relações hollywoodianas, as quais a inteligência e a sensibilidade de Welles captam com finura excepcional.

Orson Welles é uma das figuras mais ricas da história do cinema. ‘’Entre deus e o mito’’, como se diz, no doc paralelo ao seu filme, ele é autor de uma obra pessoal carregada de ironia e pautada pelos seus temas mais caros: lealdade, traição, egoísmo.

Agora, anuncia-se que duas versões dele, do clássico Don Quixote e também inacabadas, constitui a outra herança com que ele nos presenteia. É mais um material póstumo que fica à espera de um mecenas para ver a luz do dia.

*Os dois filmes, O outro lado vento e Serei amado quando morrer, estão à disposição na Netflix.





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