Cinema

O papa acredita em Deus?

A fumaça branca já alertara os fiéis sobre a decisão do conclave. Para selar o ritual religioso secularmente estabelecido, o novo papa só precisaria dar o ar da graça e saudar o rebanho ávido por um novo líder. Mas eis que o escolhido hesita e começa a gritar quando o cardeal o anuncia. Claro que essa história não é a do papa Francisco, mas da ficção do diretor italiano Nanni Moretti, que voltou a estar em cartaz em alguns cinemas do país.

25/03/2013 00:00

 

‘Habemus Papam’: o título do filme italiano dirigido por Nanni Moretti prenuncia a aparição do mais novo Sumo Pontífice diante da multidão na Praça São Pedro. A fumaça branca já alertara os fiéis sobre a decisão do conclave. Para selar o ritual religioso secularmente estabelecido, o novo papa só precisaria dar o ar da graça e saudar o rebanho ávido por um novo líder. Mas eis que o escolhido hesita e começa a gritar quando o cardeal o anuncia. O papa não aparece para a multidão; só resta aos espectadores católicos, então, fazer o Pelo Sinal para tentar entender a inusitada ausência.

O mote de ‘Habemus Papam’ mostra-se bastante criativo e instigante, já que, desde o princípio, não há um novo papa. Os espectadores ficamos especulando sobre as possíveis razões que teriam levado o eleito a recusar o posto máximo da hierarquia eclesiástica de Roma. A obra, no entanto, acaba frustrando tais expectativas ao apresentar uma personagem pusilânime que, na verdade, não desvela os efetivos motivos que, ao fim do filme, a levam a renunciar ao cargo para o qual fora escolhida.

A princípio, podemos pensar sobre as profundas crises que assolam a Igreja Católica. Denúncias de corrupção relacionadas ao Banco do Vaticano somam-se a casos de pedofilia e outros abusos sexuais envolvendo clérigos, além de uma dificuldade crônica em fazer com que a instituição consiga dialogar com as transformações da sociedade patriarcal sobre a qual os dogmas do catolicismo foram assentados.

As missas se veem cada vez mais vazias diante dos cultos evangélicos em ascensão. Pais católicos, em sua maioria não praticantes, tendem a rezar o Pai Nosso em momentos de dificuldade, mas, quando conseguem conversar com os filhos sobre sexo, invariavelmente ignoram o dogma da Igreja que permite a prática sexual apenas com o fim da procriação e que condena o uso de contraceptivos. Muito mais próximos do complexo movimento da realidade do que a gerontocracia católica sitiada pelos muros do Vaticano, os pais bem sabem avaliar as duras consequências de uma gravidez precoce e das doenças venéreas. Que dizer, então, a respeito do cristianismo seletivo que ignora o direito de matrimônio para os homossexuais? E quanto ao celibato clerical, causa subterrânea dos transtornos sexuais de diversos clérigos que passam a se envolver em escândalos? Se todos os caminhos levam a Roma, a Igreja Católica proíbe o matrimônio de seus quadros; as heranças não devem se evadir do seio rentável da cristandade.

Ora, as contradições católicas não nos devem surpreender. Os extermínios em nome de Deus perpetrados pelo Tribunal da Santa Inquisição tornam no mínimo irônica a denegação católica do aborto com base no direito à vida. Em uma visita à América Latina, Joseph Ratzinger teria afirmado que a Europa trouxera a efetiva civilização para os povos nativos. Ao que o recém-falecido Hugo Chávez respondeu com sua costumeira presença de espírito: a civilização europeia e católica de fato trouxe a cruz e o calvário para os indígenas sistematicamente assassinados e para os africanos sequestrados de sua terra natal. Não à toa a cruz romana paira sobre as catedrais e os túmulos. Consta que o papa Bento XVI teria se retratado pela colocação infeliz que, na verdade, trouxe à tona toda uma percepção etnocêntrica que transforma a diferença cultural em mera massa de manobra para a evangelização da verdade considerada única. Mas, ainda uma vez, não devemos nos surpreender: Joseph Ratzinger não fez parte da Congregação para a Doutrina da Fé – novo nome do temível Tribunal da Santa Inquisição – que excomungou Leonardo Boff, o clérigo brasileiro adepto da Teologia da Libertação? A Teologia da Libertação procurava ampliar o sentido do amor cristão ao perceber que a sociedade só se tornaria efetivamente fraterna se rompesse com o capitalismo e suas relações de exploração. Boff entrevia a contiguidade entre os pensamentos de Jesus Cristo e Karl Marx. Mas a Igreja Católica, em sua contumaz bênção aos poderosos, só fez ver a Teologia da Libertação como uma degenerescência dos dogmas eclesiásticos – no que a gerontocracia estava efetivamente correta: a Teologia da Libertação insufla dinamismo às palavras de Cristo ao entrever que, sem uma sociedade mais justa e igualitária, não haverá o oferecimento da outra face; assim, se as pessoas perceberem que não é preciso haver a mediação da Igreja para que a fraternidade seja não apenas apregoada, mas praticada, que papel passará a ter a hierarquia de Roma?

Quando o papa eleito se recusa a assumir o novo posto, um psicanalista é chamado ao Vaticano para que o ateísmo de Freud possa explicar o que está acontecendo. Logo no início da sessão, o analista pergunta ao papa incógnito se o fato de ele não querer assumir o trono católico se relaciona a uma possível falta de fé em Deus. Se assim fosse, ‘Habemus Papam’ poderia assumir uma concepção trágica. Diante dos vários anacronismos da Igreja, perguntar se o papa acredita em Deus é uma questão de primeira importância. Preocupada antes de tudo com a própria coesão dogmática, com a própria sobrevivência, a Igreja se aparta cada vez mais das efetivas discussões políticas e sociais com as quais os fiéis crescentemente céticos precisam se ocupar. Deus, então, parece hibernar em um profundo silêncio. (Assim Joseph Ratzinger se pronunciou antes que as crises católicas o levassem a renunciar ao papado.) No momento em que Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, precisa dar explicações sobre uma suposta conivência com os mecanismos repressivos da última ditatura argentina, o mal-estar na civilização se acentua ainda mais.

O papa pusilânime do diretor Nanni Moretti não se sente à altura do cargo para o qual foi eleito. As sessões psicanalíticas tentam sondar as origens da fraqueza do papa, uma vez que a lógica de nossa sociedade competitiva só consegue lidar com as tensões humanas segundo os ditames do poder. Se o papa eleito não quer assumir o cargo, ele só pode ser fraco e covarde. Não contamos, então, com a possibilidade de uma crise profunda que faz colidir a doutrina rígida com as tensões contraditórias da realidade. A falta de fé do clérigo e a percepção da ineficácia da Igreja para se transformar poderiam muito bem constituir motivos profundos para a renúncia do papa antes mesmo de sua investidura oficial. Mas ‘Habemus Papam’ não nos traz efetivamente esses dilemas, pois acaba vinculando as hesitações do novo papa à sua trajetória mais propriamente individual. E aqui, a meu ver, desponta um problema efetivo para a estrutura do filme: um clérigo que alcança uma alta patente eclesiástica precisa fazer uma série de concessões às suas concepções teológicas mais próprias para poder pleitear o cargo máximo da instituição que tende a coibir as diferenças a fim de que haja, ao menos em termos oficiais, uma doutrina monolítica. Como é que o dilema do papa em questão desponta apenas com o desfecho do conclave? Se tais tensões são o resultado de uma longa crise que o filme não focaliza, como pôde o clérigo tornado papa ascender de forma tão inequívoca pela hierarquia da Igreja? Tais tensões, possivelmente, não o teriam levado ao conclave e, no limite, já o teriam feito abandonar a carreira clerical.

Como ‘Habemus Papam’ apenas sugere que há um profundo distanciamento entre a vida dos quadros da Igreja entre os muros do Vaticano e o cotidiano de uma sociedade que já não dialoga com os dogmas estéreis dos concílios, não encontramos um terreno mais aprofundado para os dilemas do papa que renuncia logo após o conclave. Sua vida não é suficientemente percorrida pelo psicanalista. Seus dilemas teológicos e existenciais são pouco mais do que mencionados. Assim, o espectador procura percorrer a crise católica para além da obra. Se Nanni Moretti perguntasse ao papa da renúncia se ele de fato acredita em Deus, o dogmatismo católico seria investigado em sua estagnação e conservadorismo de maneira frontal. ‘Habemus Papam’ nos faria refletir não apenas sobre se há um Deus; o filme nos faria pensar se a Igreja Católica ainda tem algo a dizer a esse respeito.


*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será publicado em abril. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.




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