Cinema

O poder das minas

Sensível e feminista, 'Luna' garante seu lugar entre os melhores filmes recentes sobre as errâncias das meninas e, ainda assim, o seu poder de afirmação.

10/10/2019 07:59

 

 
O longa mineiro Luna começa com uma situação muito comum em filmes sobre cyber-bullying: uma adolescente descobre que alguém postou na internet uma foto sua de conteúdo erótico e entra em desespero. Luana, a protagonista (vulga Luna na rede), resolve se suicidar. A partir daí, o filme assume uma inflexão bem menos comum e se coloca como um dos melhores exemplares do gênero no cinema brasileiro. No ano passado, participei do júri do Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, que o premiou como melhor filme.

O bullying deixa rapidamente de ser o foco principal para dar lugar à história pregressa de Luana, filha de operária da periferia de Belo Horizonte, e sua amizade com a colega de escola Emília, de família rica e pertencente à cena dos jovens descolados da cidade. Uma atração qualquer as une – algo entre a sedução e a sororidade. Ora no chat via computador, ora em encontros presenciais, elas exploram juntas um campo de desejos em pleno florescimento, ainda sem saber onde se colocam e o que significam.

O diretor Cris Azzi trabalhou em estreita colaboração com as jovens atrizes Eduarda Fernandes e Ana Clara Ligeiro na construção do roteiro e dos diálogos dessa sensibilíssima incursão ao comportamento das meninas. Luna passa uma compreensão profunda das reticências, das inseguranças e das ousadias de uma adolescência ainda vazia de projetos, mas cheia de curiosidade pelas experiências do contato.

A vontade de proteger sua própria identidade, dissolvendo-a em outras figuras, aparece no obsessivo uso de máscaras, maquiagens, pintura de corpo e perucas. A internet ocupa um espaço de aventura, cujos limites vão sendo estabelecidos durante o uso, mas que podem ser ultrapassados por uma atitude irresponsável qualquer. É o que vai acontecer com Luana.


No decorrer desse momento decisivo, Luana vai ser vitimada diversas vezes pelo machismo ao redor, na escola e mesmo na casa da amiga. E quando o escândalo explode e tudo parece se encaminhar para o lugar comum da depressão e da culpa, eis que o filme apresenta sua cartada final – feminista, propositiva e catártica.

Curiosamente, é um homem que assina um dos filmes mais genuinamente femininos feitos ultimamente. Realizado, claro, em intensa e constante parceria com as atrizes e as mulheres da equipe (com destaque para a diretora de arte Maíra Mesquita, a figurinista Caroleta Mauricio e a maquiadora Gabriela Domingues).

Cris Azzi trabalhou a estética de Luna com a mesma sutileza com que lidou com as fronteiras delicadas da sensibilidade e do erotismo juvenil. Antes de se considerar o filme “superficial”, é preciso compreender que se trata mesmo de superfícies, de sensações à flor da pele. Para isso contribui a sensualidade (às vezes dolorida) das imagens de Luiz Abramo, assim como o cuidado minucioso com a exposição dos corpos num filme cujo tema é justamente esse.

Com uma direção impecável, duas atrizes excepcionais em perfeita sintonia e uma trilha sonora que imanta completamente a experiência de assisti-lo, Luna garante seu lugar entre os melhores filmes recentes sobre as errâncias das meninas e, ainda assim, o seu poder de afirmação.





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