Cinema

O povo do cinema encontra o povo Yanomami

'A última floresta' tem como ator e corroteirista o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami e é o filme brasileiro selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim onde está sendo apresentado hoje

03/03/2021 12:01

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Único filme brasileiro selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos três mais conceituados do continente europeu, A última floresta, dirigido pelo paulista Luiz Bolognesi, está sendo exibido hoje, em estréia mundial, na Mostra Panorama da Berlinale, onde o diretor foi premiado com o documentário Ex-Pajé há três anos.

Quem assina o roteiro em companhia de Bolognesi é o escritor, xamã e líder político conhecido internacionalmente, Davi Kopenawa Yanomami. Nele, ambos enfatizam o descaso sofrido pelos indígenas do Brasil ao longo dos tempos, agravado, atualmente, como se sabe, pelo risco de extermínio programado, de responsabilidade direta do atual desgoverno desse país que aproveita a Covid-19 para levar a cabo funestas intenções.

A exibição do filme no Festival de Berlim, que começou anteontem e se prolonga por esta semana em formato hibrido - online e presencial - é fundamental para continuarmos denunciando ao mundo o que se passa com os povos originários do Brasil neste grave momento.

A última floresta, produzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane, estréia no Brasil no segundo semestre deste ano. Narra o cotidiano de um grupo Yanomami isolado, vivendo numa região ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela, nada mais nada menos do que desde mil anos. O xamã Davi Kopenawa Yanomami busca proteger as tradições de sua comunidade e procura manter vivos os espíritos da floresta. Ele e os demais indígenas lutam para afastar os mais de dez mil garimpeiros ilegais que invadiram o local em 2020, derrubando a floresta, envenenando as águas dos rios e disseminando o corona-vírus e outras doenças entre os indígenas.



O filme é curto, coeso, nos dá o belo claro/escuro da floresta com precisão e traz Davi como protagonista contando e recontando mitos da sua linhagem entre as imagens plácidas obtidas pela câmera. O nascer do sol na mata e no horizonte, o farfalhar das dobras das redes onde descansam os Yanomami, os silêncios da noites, ''sem as luzes e as buzinas dos carros das cidades'' e que fazem logo ''adormecer e sonhar''.

''Eu sou a própria floresta'', diz Kopenawa. ''Sou quente como a própria floresta''. Davi sonha com ''a sucuri que quase me engoliu e com a onça que me carregou''. Sonha com Omama, com as origens do seu povo, os perfumes das cascas de árvores, das flores e das plantas.

Mas há os contrapontos: os igarapés que vão secando por força da invasão de não-indígenas, garimpeiros, que aliciam os jovens. O filme lembra que em 1986 jazidas de ouro encontradas nas terras dos Yanomami atraíram para lá 45 mil garimpeiros. Então, morreram 1800 indígenas.

''Os brancos chegam com presentes para nós, cartuchos, pólvora e espingardas que não alimentam; mas que podem nos fascinar, e nos enfeitiçam com suas mercadorias'', discutem-se nas tribos.

“O mais interessante foi construir a história com o xamã Davi e fazer as escolhas narrativas com os Yanomami, incorporando o ponto de vista mágico deles sobre os acontecimentos. Um rico encontro entre o povo do cinema e o povo Yanomami”, comenta o diretor Luiz Bolognesi, que se apaixonou pela história de Kopenawa ao ler seu livro A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami.

No final, os registros: em 1992, já com as terras Yanomami reconhecidas como propriedade dos filhos da floresta e legalizadas pela justiça do governo federal ocorreu o histórico massacre de Haximu. Dali em diante, e durante 25 anos, o povo de Davi foi deixado em paz até que em 2019 20 mil garimpeiros voltaram a invadir a região. Hoje, Kopenawa recebe frequentes ameaças de morte.

“A situação dos povos indígenas no Brasil é gravíssima e a visibilidade internacional que a Berlinale trará ao filme e ao tema dos povos da floresta é a ação mais importante que poderíamos fazer neste momento'', dizem os irmãos Gullane, produtores de A última floresta que recebeu o apoio do Amazon Watch, do Greenpeace e de fundos ambientalistas da Noruega e dos Estados Unidos.

Neste lindo filme que deve ser visto quando estrear aqui, trabalham Davi Kopenawa Yanomami, Ehuana Yaira Yanomami, Pedrinho Yanomami, Joselino Yanomami, Nilson Wakari Yanomami, Júnior Wakari Yanomami, Roseane Yanomami, Daucirene Yanomami, Genésio Yanomami e Justino Yanomami. Elenco muito especial.









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