Cinema

O presente junho de Maria Augusta Ramos

Recém-homenageada na França e inserida no cardápio da Netflix, a documentarista Maria Augusta Ramos mira agora a Lava Jato e dá entrevista na Live do Conde

18/06/2021 12:22

Cena de 'O Processo', de Maria Augusta Ramos (Reprodução)

Créditos da foto: Cena de 'O Processo', de Maria Augusta Ramos (Reprodução)

 
Maria Augusta Ramos, junto com Petra Costa, é o nome do documentário brasileiro com maior inserção internacional atualmente. Radicada entre o Brasil e a Holanda, Maria Augusta vem criando uma obra sólida e formalmente coerente, baseada no chamado cinema de observação, mas com incursões ousadas em matéria de linguagem. Neste presente junho, ela está em grande evidência com uma retrospectiva no Festival Cinélatino de Toulouse (França), entrevista de duas páginas na revista Cahiers du Cinéma nº 777 e a chegada de cinco filmes seus à Netflix.

Maria Augusta Ramos

Na apresentação da entrevista, a Cahiers afirma que a cineasta "não cessa de interrogar a influência das instituições do estado na trajetória dos indivíduos, assim como nos destinos da nação, tanto no plano econômico quanto no político". Maria Augusta, por sua vez, explica que gosta, antes de tudo, de "documentar a maneira como as relações humanas são atravessadas pela família, a sociedade e as instituições". Ela atribui a isso o fato de nunca fazer entrevistas: "Eu quero sondar momentos especiais da nossa época".

No Cinélatino foram exibidos, entre 9 e 13 de junho, os longas justiça, Juízo, Morro dos Prazeres, Futuro Junho, O Processo e o mais recente Não Toque em Meu Companheiro. São filmes que, segundo a diretora, "abordam questões fundamentais para entendermos o momento sombrio em que vivemos e as razões que levaram Bolsonaro ao poder: o sistema de justiça, a questão da segurança pública, o comportamento autoritário da Polícia Militar e, é claro, o golpe contra a Presidente Dilma". Na Cinemateca de Toulouse, uma espectadora francesa se dirigiu a Maria Augusta afirmando que, depois de assistir a dois dos seus filmes, passou a compreender melhor a eleição de Bolsonaro e saiu ainda mais assustada do cinema.

"A imagem do Brasil na Holanda e na França nunca foi tão ruim", garante a cineasta. "Muitos me perguntam como foi possível que os brasileiros elegessem alguém sem a minima capacidade de ocupar o cargo de Presidente da República. Eles veem Bolsonaro como um fascista e se preocupam muito com os grupos de extrema-direita que o apoiam".

O diagnóstico que Maria Augusta vem formulando a respeito do Brasil contemporâneo promete se adensar com seu próximo filme sobre nadas mais, nada menos que a Lava Jato. "Acompanhamos o trabalho de três jornalistas que investigam a operação Lava Jato e o uso político e ideológico do sistema de justiça, o que passou a ser conhecido como lawfare", adianta. "Através da análise das mensagens vazadas entre o juiz Moro e os promotores (na Vaza Jato) e um trabalho incrível de jornalismo investigativo, ético, acredito que o filme promove uma reflexão sobre como o discurso anticorrupção e a Lava Jato contribuíram para a ascensão da extrema-direita e a eleição de Bolsonaro".

Enquanto isso, a Netflix já está exibindo justiça e Juízo, dois filmes voltados para o tratamento dos jovens brasileiros pelo sistema judiciário. Em justiça (grafado assim mesmo, com minúsculas), o acesso à intimidade de cinco casos específicos, flagrados no cenário asséptico do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, permite a Maria Augusta contruir uma metonímia da sociedade brasileira, onde a Justiça funcionaria como elemento de reafirmação de uma ordem social fundamentalmente injusta. Esse filme venceu o prestigioso Festival Visions du Réel, na Suíça.

Juízo, por sua vez, se situa no tribunal da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro e flagra audiências sobre casos que vão de um mero roubo de bicicleta a um parricídio brutal. Os crimes, porém, acabam importando menos que o quadro de desagregação e violência familiar, intimidade com o tráfico e descrença generalizada no processo de ressocialização. Mas o grande achado do filme é colocar adolescentes como atores para viverem a face interditada dos menores durante as audiências, em perfeita continuidade com as filmagens documentais. Um feito memorável no documentário brasileiro e mundial.

Juizo, de 2007 (Reprodução)

A Netflix vai incluir em seu cardápio, ainda este mês, Morro dos Prazeres, Futuro Junho e o fundamental O Processo. Já neste próximo domingo, 20/6, às 20 horas, Maria Augusta vai dar uma entrevista na Live do Conde, conduzida por Gustavo Conde e com as participações da jurista Maíra Fernandes e deste crítico na função de debatedor. A conversa vai rolar a partir de trechos de filmes da diretora.

Para assistir, entre num desses links: Live do Conde / Rede TVT / Grupo Prerrogativas.

Para ler minhas resenhas dos filmes de Maria Augusta Ramos, clique nos links abaixo:

Não Toque em Meu Companheiro

O Processo

Futuro Junho

Morro dos Prazeres

Juízo

justiça

Matéria sobre o início da carreira

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