Cinema

O príncipe das trevas de Trump

Também conhecido como ''Marqueteiro do Mal'', o confidente do atual presidente americano tem uma filosofia de trabalho que inspira discípulos até no Brasil

25/08/2020 20:22

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Para quem pouco ouviu falar dele, o lobista estadunidense nascido em Connecticut, Roger Stone, de 68 anos - também conhecido como ''o príncipe das trevas'' - foi um dos principais artífices de redes de notícias falsas, mentiras e explosões de ódio nas plataformas digitais. Mesmo antes do advento da internet ele já havia trabalhado ativamente nas campanhas políticas de Nixon e Reagan e, mais recente, não apenas como conselheiro de Donald Trump, em 2016, mas como um dos seus principais confidentes.

O estranho personagem de Stone trabalhou ativamente na campanha do homem de negócios de Nova Iorque que hoje é permanente objeto de denúncias e de fraudes nunca antes vistas.

Sempre agindo nas sombras, numa das poucas vezes em que o bizarro Roger se expôs em público como ator importante em lobbies e nos grupos de consultores de ex-presidentes do Partido Republicano foi quando a vaidade, maior que a discrição, levou-o a posar de estrela do documentário Get me Roger Stone (Me traga o Roger Stone, em tradução literal).

Produzido pela Netflix, o filme estreou há três anos, fez sucesso no Festival de Tribeca e está disponível no catálogo dessa plataforma. Ganhou do jornal The Guardian o seguinte comentário: ''Um perfil sombrio, embora envolvente, do homem que fez Trump.'' E da revista Variety: ''Filme animado, divertido, doentio, essencial.''

A Entertainment Weekly chamou o filme de "documentário político surpreendente e chocante sobre o malandro sujo mais e poderoso da América".

Trata-se de mais um documentário do alentado pacote político de filmes em cartaz no streaming brasileiro. Esse perfil cinematográfico de Stone ajuda a iluminar frases, idéias, promessas e estratégias caluniosas, grosseiras e irresponsáveis disparadas por postulantes à presidência dos seus países com a orientação de indivíduos sem escrúpulos; versões atualizadas e pioradas dos antigos picaretas profissionais.

Steve Bannon, Michael Cohen, Paul Manafort e o inglês Alexander Nix, em Londres -, este, aquele que desenterrou a célebre frase do ''não precisa ser verdade; só precisa que as pessoas acreditem no que dizemos" - são os mais proeminentes do grupo de Stone.



Assim como ocorreu com seus colegas, o confidente de Trump foi denunciado, processado e condenado pela Justiça a prisão fechada durante três anos, em julho deste ano. Mas a sentença foi comutada pessoalmente por Trump e ela acabou sendo relaxada, pelo menos por enquanto. O pretexto foi o risco de contaminação pelo coronavírus na cadeia. Um lance bem familiar aos brasileiros.

Stone hoje está leve, livre e solto trabalhando, quem sabe, para a reeleição do amigo íntomo, embora já tenha tido sua conta suspensa temporariamente no twitter pelos ataques feitos a jornalistas. Mas o lobista-confidente-e-marqueteiro mas não está nem aí.

No seu processo, um dos seis dos mais famosos que miraram assessores de Trump, o lobista foi condenado por obstrução à Justiça e manipulação de testemunhas. Steve Bannon foi testemunha de acusação contra o companheiro e meses depois chegou a sua vez.

O documentário é dirigido por um trio de documentaristas americanos - Dylan Bank, Daniel DiMauro e Morgan Pehme - e explora a vida e carreira do ''estrategista'' político republicano que pouco se importa em mentir. O efeito da mentira é que importa na sua filosofia de trabalho.

E ele já provou que a poucos dias de uma eleição, a mentira inteligente e bem forjada pode ser decisiva para mudar o rumo de um país. Caso das denúncias inventadas por Stone sobre o fato de Barak Obama ser muçulmano e não ter nascido nos EUA, o envolvimento nos sérios indícios até hoje não negados de interferência russa na campanha de Trump e os vazamentos de emails pessoais de Hillary Clinton.

''Seu eu não fosse competente em espalhar o ódio você não me odiaria,'' Stone sempre repete do fundo dos bastidores sórdidos das campanhas em que manipula o lado obscuro do eleitor - do ser humano.

Conhecido no seu país como um agente político provocador muito inteligente e um trapaceiro ''sujo'', é uma figura bizarra. Veste-se como um dândi. Afetado, chama a atenção pelo seu vestuário ridículo e faz questão de passar uma atmosfera de grande prosperidade econômica.

"Se a vida é um palco, você deve estar sempre de figurino", disse ao The New York Times há tempos. "E se você está tentando passar autoridade em seus negócios, estar bem vestido é parte disso."

No começo de Get me, um documentário que deve ser visto, uma informação de raiz. Prova o quanto o homem é perigoso. Quando garoto, em uma votação na sua escola, Stone espalhou o boato de que se Kennedy fosse eleito decretaria aulas aos sábados. Nixon ganhou.

Hoje, a sua atuação e o seu destino, pelo menos até aqui, parece inspirar e oferecer confiança a assessores políticos e confidentes presidenciais enrascados com a Justiça. Como é caso do conhecido Queiroz brasileiro.





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