Cinema

O que falta filmar sobre a Aids?

'O Ano de 1985', estreia desta semana, e '120 Batimentos por Minuto', disponível online, respondem a essa pergunta

26/04/2019 11:01

 

 
Uma difícil visita

Ainda existem novidades sobre o advento da Aids para se contar no cinema? 120 Batimentos por Minuto mostrou que sim, com sua abordagem trágico-épica dos militantes do Act Up de Paris (leia mais abaixo sobre esse filme extraordinário, disponível online no Now, Google Play, iTunes, etc). Em tom muito menor, O Ano de 1985 aborda novamente o tema, mas sem pretensões de trazer ângulos novos. É mais uma história comovente sobre o drama de um rapaz gay sair do armário perante a família em meados da década de 80.

O travadíssimo Adrian (Cory Michael Smith), instalado em Nova York desde que não suportou a pressão dos pais conservadores no Texas, retorna para o Natal de 1985 trazendo presentes caros e uma angústia sem fim. Para ele, a visita é uma silenciosa despedida na iminência de uma piora fatal no seu estado de saúde. Para os pais religiosos e ultraconservadores, é como se recebessem um quase estranho em sua casa. Para o irmão menor, é uma fresta que se abre para o mundo da tolerância. Para a moça com quem Adrian flertava desde a infância, é um enigma a desvendar.



Com as dramáticas relações entre esses poucos personagens mantidas sob admirável controle, o diretor malaio Yen Tan nos faz aceitar bem um roteiro que parece defasado em pelo menos 20 anos. Fosse menos preciso na observação de comportamentos e reações ou menos discreto no trabalho de direção, e dificilmente engoliríamos lugares-comuns como o pai veterano do Vietnã e homofóbico empedernido, a mãe afetuosa e compreensiva (que até votou contra Reagan escondido do marido), o ex-colega que fazia bullying e os ecos do universo gay reduzidos à imagem de caras dançando ou se beijando.

O fato é que, mesmo numa narrativa padrão e lacrimosa, "1985" resulta tocante e ao mesmo tempo sóbrio. A evocativa fotografia em preto e branco, a câmera sensível para sugerir espaços de afeto dentro de um quadro de repressão e constrangimento, além de atuações ricas em sutilezas compensam a ausência de uma maior singularidade.



Música, luta e coração

Para começo de conversa, devo dizer que 120 Batimentos por Minuto é o mais profundo, comovente e épico filme que já vi sobre a Aids. Talvez porque não se detém nesse ou naquele aspecto do drama que ceifou tantas vidas. O painel desenhado por Robin Campillo contempla a dor, as perdas e o medo típicos do início dos anos 1990, mas também a ação militante, o humor, a ternura e os afetos de um grupo de jovens soropositivos parisienses.



Naquela época, Campillo era ativista do grupo Act Up Paris, que então fazia campanhas de esclarecimento e lutava por uma maior atenção do governo e dos laboratórios às vítimas da epidemia. Ele escreveu o roteiro junto com Philippe Mangeot, ex-presidente do Act Up. Essas vivências foram fundamentais para o resultado extraordinário do filme em termos de impressão de autenticidade e observação de detalhes de comportamento público e íntimo. Bastam três minutos da sequência inicial, uma das reuniões semanais do grupo, para já nos sentirmos plenamente inseridos na sua dinâmica.

O período coberto, entre 1992 e 1995, é o da exaustão do tratamento com antirretrovirais como AZT e DDI. Um grande laboratório (fictício, reunindo características de três labs reais) retarda a liberação de uma nova droga que poderia sustar de maneira mais eficaz a reprodução do vírus e causar menos estragos colaterais. O Act Up se lança em ações de protesto como atirar sangue falso em autoridades ou nas dependências da empresa farmacêutica. Além de com isso atrair a atenção da mídia, o grupo também militava com atos discretos, como colar adesivos de denúncia em livros homofóbicos.

O filme se ancora inicialmente no coletivo através das reuniões semanais, onde estratégias, condutas e dissensões são discutidas com um misto de disciplina metodológica e troça jovial. Um efeito documental primoroso é obtido pela adequação do casting – montado durante um ano inteiro –, a fluidez dos diálogos e a perícia da filmagem. (Vale lembrar que Campillo foi corroteirista de Entre os Muros da Escola e de outros filmes de Laurent Cantet.).



Quando não estão nas reuniões ou nos atos políticos, os ativistas estão dançando nos clubes, onde impera a música electro house, caracterizada pelas cerca de 120 batidas por minuto, tal como o coração. Essa é a base da lindíssima e estimulante trilha sonora do DJ e compositor Arnaud Rebotini, usada com criatividade nos diversos "estados de ânimo" do filme.

Como retratado em 120 BPM, o Act Up funcionava como uma espécie de segunda família, em cujo seio os ativistas fugiam à solidão da discriminação e à fatalidade da morte. A vida profissional e familiar, na maioria dos casos, passava ao segundo plano para quem se dispunha a empenhar suas forças e esperanças na luta pela sobrevivência, própria e de seus pares. 

A partir de um certo ponto, o roteiro faz uma inflexão no rumo do individual, centrando-se mais na relação amorosa entre dois ativistas, um deles com a saúde em rápido processo de deterioração. Gradativa e suavemente como tudo no filme, passamos do político ao romântico e nos encaminhamos para algumas das cenas mais excruciantes e enternecedoras que o cinema já criou.

120 BPM é um filme sobre corpos. Um filme sobre os vários sentidos do que sejam corpos em ação. Corpos que dançam, amam, definham, deixam-se arrastar por policiais e se apalpam para medir o que lhes resta de vida. Um filme de tamanho poder de sugestão que quase nos toca fisicamente pela sintonia que estabelece entre nós e a verdade, a dignidade e a simpatia dos personagens.

Campillo é também autor da montagem, um primor de concatenação poética de tempos e espaços diversos. A sequência em que as luzes feéricas de um clube aos poucos se fundem com imagens de microorganismos, ou as sutis entradas de flashbacks são exemplares desse trabalho de grande delicadeza na construção de sentidos e na inspiração de sentimentos.



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