Cinema

O século 21 é do cinema oriental

Um dos melhores filmes de 2018, o coreano Em chamas, está estreando em diversas capitais brasileiras. Ele puxa os fios da realidade e os deixa soltos, com o espectador sozinho consigo mesmo

15/11/2018 14:48

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Assim como se tem o século 21 como o século chinês, diríamos que o século 21 é também do cinema oriental. Em Chamas (Burning), o filme do sul-coreano Lee Chang-Dong que estreia no Brasil hoje – telas do Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói, Recife, Fortaleza, Salvador e Aracaju -, é mais um atestado da qualidade, do vigor e do rigor de filmes instigantes que vêm do outro lado do mundo, cada vez mais amiúde, com uma estética original e inovadora.

A trama deste excepcional filme não é complicada. Isto é: aparentemente. Centrada em um triângulo amoroso, conta a história do jovem Jongsu, aspirante a escritor, tímido, vindo da classe popular rural, das imediações de Seul e que vive discretamente, com poucos recursos. Reencontra por acaso uma antiga vizinha que pede para cuidar do seu gato enquanto ela viaja até a África.

Os dois iniciam o que parece ser uma relação amorosa – pelo menos para Jongsu (ator Yoo Ah-in). Mas a moça volta da viagem em companhia de Ben, rapaz rico, enigmático e sem passado que se pavoneia com todos os signos do seu poder econômico. Uma disputa entre os dois rapazes toma corpo e se insinua em meio à tensão da presença da garota.

O filme de Chang-Dong, também escritor e ex- ministro da Cultura da Coréia do Sul, vem apoiado em dois contos antológicos: Barn burning, de William Faulkner, a leitura predileta do personagem de Jongsu, e Queimar celeiros, parte do volume O elefante desaparece, do festejado e um dos mais importantes autores japoneses, Haruki Murakami.

 
Muito mais do que um bem realizado thriller psicológico, o filme não chega a lugar algum. Desamarra todas as pontas da realidade e as deixa soltas para o espectador conferi-las e decidir o que fazer com elas.

Por exemplo: na história, há um gato chamado Fervura. Mas ele existe mesmo? E um certo poço onde a garota, na infância, caiu? Esse poço existe? Existiu?

Outra dica: a menina Hae-mi (Jeon Jong-seo) estuda pantomima, a arte de se expressar com o corpo através da mímica. Ela demonstra para Jongsu como podemos comer uma laranja ‘’inexistente’’ e saboreá-la com volúpia; esta, aliás, é uma das chaves do quebra cabeças ultra sofisticado que Chang-Dong arma com grande esmero.

E que fim levará Hae-mi? E essas evocações à fronteira da Coréia do Norte, tão próxima? E esses celeiros abandonados, ‘’inúteis’’, que podem desaparecer sem deixar traços e, pior, sem que alguém se incomode com o fato? E esses chineses que adoram ganhar brindes ?

A dramaturgia de Burning é rica. Sobrecarregada, exuberante nos objetos, roupas e miudezas de toda espécie. A coleção de facas afiadas é uma vírgula na narrativa, nesses cenários onde se movem personagens emotivos e, por que não? Humanos. Por outro lado, uma dramaturgia minimalista ao limite quando pontua o status das altas classes de uma geração de jovens coreanos neoliberais e entediados, porém ainda ao estilo anos 80 dos americanos.

A trilha musical é um capítulo especial, nesse filme extraordinário. Algumas poucas notas graves de cantos-chão de mosteiros budistas tibetanos anunciam, algumas vezes, o destino batendo à porta da narrativa; porém ao modo oriental. Ou o jazz. Ou algum solo lancinante de trompete.

A narrativa desse cinema segue paralela à literária, na qual imagens formam frases e algumas se agrupam em parágrafos que pulsam quase no ritmo da respiração do espectador.

A fotografia, a luz utilizada em Burning é de estranha beleza. Trata-se de um filme crepuscular no qual o sol se põe devagar, diversas vezes e em várias situações dramáticas até deixar espectador e personagens mergulhados na escuridão. Algumas vezes um ligeiro e muito efêmero raio de sol clareia o quarto dos amantes e ilumina o amor. Mas sem incêndios; exceto as chamas do final, mas de viés, como que de passagem.

‘’O amor, ’’ diz Chang-Song através do misterioso personagem Ben (excelente ator Steven Yeun): ‘’o coração tem uma pedra. É preciso extraí-la. ’’ Mas até essa pedra é uma fraude?

O diretor tem se pronunciado algumas vezes sobre seu filme e costuma repetir: ‘’Parece-me que hoje, pessoas de todo o mundo, independente da nacionalidade, religião ou classe social, estão com raiva por diferentes motivos. Os jovens da Coréia, por exemplo, estão passando por tempos difíceis. Eles sofrem com o desemprego, eles não têm esperança no presente e vêem que as coisas não vão melhorar no futuro. ’’

‘’Incapazes de escolher um alvo para direcionar essa raiva, eles se sentem impotentes e sem esperança. Para muitos jovens, o mundo está se tornando um gigante quebra-cabeça. É um pouco como se sente o protagonista de Murakami, Jongsu. ’’


Jongsu, por sinal, mostra a sua perplexidade em duas ocasiões, quando repete:: ‘’Para mim, o mundo é um mistério.’’ No final, ele mergulha na escuridão da tela, ao volante de seu carro, e deixa o espectador sozinho consigo mesmo, com esse mistério.

Em Chamas é pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do próximo ano e em maio passado recebeu o premio da crítica internacional no Festival de Cannes. Tem deixado um rastro de aplausos e prêmios depois de exibido em diversos festivais.

Recomenda-se assisti-lo. É um grande programa cinematográfico.





Conteúdo Relacionado