Cinema

O sorriso triste de Woody Allen

'Um dia de chuva em Nova Iorque' é mais um conto cinematográfico do cineasta independente de Manhattan que continua criticando, de modo cáustico e inteligente, a plutocracia do seu país

04/12/2019 15:34

 

 
No livro-entrevista de 1993, do jornalista e crítico sueco Sig Bjorkman, autor amigo íntimo de Ingmar Bergman, Woody Allen se refere a um desejo que agora, aos 82 anos, parece ter conseguido realizar: fazer um filme inteiro sob a chuva. Ela propicia, segundo o cineasta nova-iorquino, um excelente clima de intimidade entre as pessoas – e aos seus personagens.

''A chuva é simplesmente linda,'' ele diz. ''A chuva fornece o clima para que coisas mais íntimas aconteçam entre as pessoas e afeta o estado de espírito delas de uma certa forma."

Um dia de chuva em Nova Iorque está aí. Deveria constar na filmografia de Allen como um pequeno episódio de um filme/mosaico despretensioso assinado por vários autores. Também funcionaria como um alerta, talvez sem razão de ser, de que, aparentemente, o diretor estaria perdendo o vigor autoral.

Na verdade se assemelha a um sorriso triste de Allen um filme que soa também como uma afetuosa homenagem à garotada bem jovem estreando agora nos labirintos das relações amorosas. E, como bônus: um filme pontilhado das inteligentes observações do cineasta, constantemente atualizadas.

Neste conto cinematográfico, o cenário é, mais uma vez, um desfile de algumas das referências do autor, ícones da cidade tão querida; exceção de Paris, um refúgio seguro onde Woody Allen sempre se abriga quando precisa respirar novos ares.

O mitológico Hotel Pierre, o bar do Carlyle, a delicatessen Dean and Luca, os museus visitados e revisitados pelos turistas, o jazz, os bares de cerveja, os parques, os locais emblemáticos para aqueles que viveram a Manhattan dos anos 60/70 quando o Brooklin ainda não existia no mapa dos esnobes. Todos eles, hoje, cartões postais imutáveis para os ricos turistas asiáticos.

A Nova Iorque de Allen tem a atmosfera para além das bufonarias de Trump, por sua vez uma representação bruta e grotesca da cidade do cineasta.

Outra atração do filme é a moldura musical para esse fiapo de narrativa que relata os encontros e desencontros de um menino e de uma menina vindos de uma universidade onde estudam filhos das pater famílias milionárias americanas. E, mais uma vez, é o acaso, simplesmente o acaso, um dos pilares da obra do cineasta, que se ocupa do desfecho. O menino quer curtir um romântico fim de semana na novidade que Mahattan é para eles. A trilha é o jazz ansioso de Ornette Coleman.

A bela luz das imagens do filme vem assinada pelo fotógrafo italiano Vitorio Storaro - dono de vários Oscars, mestre de tantos filmes de Bernardo Bertolucci e sócio de Allen na atual produção. A cenografia sublinha o que o diretor deseja: as ruas, calçadas, canteiros e fachadas de prédios da cidade-mito encharcadas de águas, os vidros de automóveis e janelas ensopados da chuva, e tudo rigorosamente estilizado.

Este pequeno conto nova-iorquino seria degustado com mais prazer – mesmo que condescendente – não fosse a escolha da protagonista, a atriz Elle Fanning, uma construção midiática consagrada pelas mega bilheterias atuais e aqui perfazendo a menina burra de nome pretensioso - Ashleigh -, histérica e fora do tom em toda sua performance. Embora festejado em outros filmes recentes - Call me by your name e Beautiful boy -, o ator Timothée Chalamet entendeu melhor o espírito da dramaturgia de Allen e se sai melhor com o seu personagem, um Gatsby que remonta a Fitzgerald, é óbvio, e o mais bem construído do roteiro.

No computo geral vale seguir mais esse conto do cineasta que, mal ou bem, prossegue independente até o fim do seu trabalho. Melhor do que pagar para assistir a forte onda de filmes medíocres repletos de clichês, saudados por observadores como originais e fazendo jus a atenção.

Alguns dos comentários, observações e críticas ferinas e brilhantes de Allen salvam o roteiro singelo se posicionado bem na sua filmografia. As menções aos plutocratas americanos, por exemplo. À burrice da garota rica, ex-miss beleza caipira. À atual fábrica de criação de astros cinematográficos - de preferência de origens exóticas. Aos milionários doadores e patrocinadores de causas “beneficentes” e pró-cultura (americana, naturalmente), eternos protagonistas dos jantares de gala de beneficência, no majestoso cenário do Museu de História Natural. A crítica aos esnobes de todos os tons.

A conversa a portas fechadas da bilionária mãe de Gatsby com o filho, na penúltima sequência do filme, é a mais radiante representação de uma mother América - qual um Rheinvater dos alemães - e encerra, brilhante, A rainy day in New York.

A singela revelação da mãe América, das suas origens e, por conseguinte da sua fortuna e do seu status, se confundem, para Woody Allen, com as dos plutocratas americanos reais e com as do seu país; hegemônico e nos estertores de império em decadência por obra e graça da geração dos Gatsby.





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