Cinema

O susto ao som da cumbia de los Andes

O filme peruano 'A teta assustada' mostra uma doença existente nas lendas populares que pulsa no imaginário de alguns povos andinos.

07/04/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Não é exatamente um pequeno grande filme.  Mas ele é um pequeno – uma hora e 24 minutos de espetáculo – precioso e surpreendente filme. Ainda mais vindo de um país cuja cinematografia não tem tido nada de mais a declarar. A Teta Assustada (La teta asustada), sucesso internacional quando foi lançado, seis anos atrás, ganhou o Urso de Ouro em Berlim, e outros prêmios em Havana e Guadalajara, além de melhor atriz e direção no nosso Festival de Gramado. De quebra, foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009. Chamou a atenção, portanto, lá fora e aqui, no Brasil, onde a crítica, na época, foi entusiasmada.
 
Nossa sugestão é revê-lo nesta semana na qual uma importante Cúpula da Unasul está sendo aguardada com expectativa. Será mais uma oportunidade para conhecer melhor a cultura popular, os medos, o sofrimento, as crenças, costumes, raízes e lendas dos nossos conterrâneos latino-americanos.
 
A direção e roteiro de A teta é de Claudia Llosa, 39 anos, sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa. Ela apresenta a história de Fausta, moça indígena moradora da periferia de Lima, que implantou uma batata na sua própria vagina para se proteger e evitar possíveis futuros estupros. Sua mãe idosa, recém-morta, sofrera violência sexual durante os anos do “terrorismo” no Peru, como se registra no decorrer da narrativa, e ela própria era fruto de um desses estupros. A mãe havia sido vítima dos guerrilheiros do Sendero Luminoso, que violavam camponesas suspeitas de colaborarem com o governo ou dos militares que os combatiam e por sua vez também atacavam as mulheres? Não fica claro.
 
Embalado pelas pungentes canções que lamentam perdas irreparáveis, saudades infinitas, e ritmadas pelas danças da cumbia andina nas longas cerimônias de casamentos, a sua bela trilha musical às vezes é alegre e contagiante; em outras assume o tom lancinante do lamento. A atriz protagonista, de voz cativante e extrema sensibilidade, Magaly Solier, sozinha, carrega bem o filme. E na trama, mais uma vez, como vem ocorrendo na maioria das produções atuais realizadas no continente, é mostrado o abismo (ainda) intransponível separando e contrapondo as classes populares, o povo, e a burguesia da casa grande – os abastados. Desigualdade devastadora.
 
A jovem Fausta teria, segundo crenças antigas e o folclore peruano, uma doença rara, a teta assustada, transmitida pelo pavor e sofrimento das mães estupradas às suas filhas através da amamentação. Nos momentos de pânico e de susto, seu nariz sangra abundantemente.
 
No presente, porém, Fausta precisa enfrentar a morte da mãe, sua única amiga, e pretende enterrá-la em sua cidade natal, na província à beira do mar. Mas não tem dinheiro para tal.
 
Trabalhará como doméstica na casa de rica e conhecida cantora de música erudita que vive uma crise de criatividade e está prestes a se apresentar no seu concerto anual. Fausta precisa do salário para o enterro da mãe. Ao entrar no emprego os seus dentes e as unhas são examinados, e o corpo deve ser limpo. A moça é tratada como coisa e objeto - escrava. É sempre subserviente.
 
Ao ouvi-la cantarolar uma bela canção de raiz popular, um pouco criada pela invenção da própria Fausta, que fala de saudade, do esquecimento e da falta – ‘não me olvide’ -, a patroa se inspira no tema, apropria-se dele e o transforma em música ‘culta’ para deleite dos amantes da erudição. É grande o sucesso.
 
Acaba-se, a partir daí, a pequena vida de Fausta na casa grande. A culpa e o rancor da rica mulher por tê-la usado são maiores do que o respeito e o reconhecimento do papel importante que a jovem empregada desempenhou nesse episódio secreto da sua vida profissional.
 
De volta para casa, vinda do concerto, à noite, Fausta é posta para fora do automóvel da patroa.
 
A teta assustada é uma doença existente nas lendas populares. Ela pulsa no imaginário de alguns povos andinos. A semiescravidão em que vivem moças pobres de origem semelhante à de Fausta, vindas da periferia das metrópoles e das províncias dos países da América Latina, não. É uma realidade ainda no Brasil onde a legislação trabalhista luta para aprofundar os direitos das domésticas.
 
Também não é folclore a quase epidemia de estupros que grassa não apenas no Peru, mas nas duas Américas, México e EUA inclusive. Há dois anos o Brasil ocupava o primeiro lugar no índice de crimes por estupro. Colômbia e Venezuela vinham em seguida. Os últimos números levantados indicam que 143 mil casos de estupros por ano são registrados no país. Além daqueles que não são denunciados – e são muitos mais.
 
Até uma década e pouco atrás  o estupro matava mais, na região, do que o câncer, os acidentes de carro e a malária.
 
Compreende-se um dos motivos pelos quais (talvez) A teta assustada tenha sido um forte sucesso lá fora.  Tons de realismo mágico estão impregnados na narrativa de Fausta e no filme de Claudia Llosa. Mas aqui, milhares de mulheres e de meninas sabem que o estupro e a humilhação podem estar à espreita, no  cotidiano de um país que, vergonhosamente, exalta o machismo. Para elas não há mágica. É só mesmo realismo.
 




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