Cinema

O teatro da justiça

O Orgulho, filme francês com estreia esta semana, trata dos jogos de cena nos tribunais, do preconceito e discriminação de classes e o esnobismo das elites intelectuais evocando para si convicção e o convencimento dos outros

22/06/2018 07:25

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Créditos da foto: Divulgação


Por Léa Maria Aarão Reis



Poder de persuasão. Tema a discutir e para ser pensado neste mundo pós internet. É também a aposta audaciosa do diretor do filme francês O orgulho, Yvan Attal, começando esta semana a carreira de exibição comercial. Não só pelo tema principal – o caminho do herói; no caso a trajetória da heroína que atravessa adversidades para chegar ao seu objetivo - Le Brio promete sucesso de bilheteria. Seu argumento secundário é atual e a presença de um monstro sagrado do cinema e do teatro da França, o ator Daniel Auteil, e da sedutora jovem cantora e atriz Camélia Jordana, de 25 anos - premio Cesar de Melhor Atriz Revelação deste ano – garantem boa recepção do chamado grande público.
 
A proposta de Attal vem exposta através do retrato de Neila Salah (Camélia Jordana), jovem francesa de origem árabe que sonha ser advogada. Neila nasceu em Créteil e é moradora desse subúrbio parisiense. Está ingressando na tradicional Faculdade de Direito da Universidade Paris II, da Sorbonne, no Quartier Latin. Todos os dias faz o trajeto de 45 minutos, de trem, da casa à faculdade. É uma ‘’perfeita francesinha’’ como dizem, brincando, os amigos e o namorado do bairro, quase todos descendentes de árabes. Aliás, como é a própria atriz, filha de pais argelinos.
 
No primeiro dia de aula Neila bate de frente com um célebre professor, o famoso e polêmico jurista Pierre Mazard (Daniel Auteuil) conhecido pela conduta temperamental. Personagem execrável, racista, desabusado, porém dotado de talento para a retórica e respeitado, Mazard a insulta diante de um anfiteatro lotado de alunos. É advertido pela diretoria da faculdade sobre a repercussão negativa que o episódio pode trazer à respeitável instituição. A proposta que ele deve aceitar para se redimir, é  ser o mentor e treinar a aluna de Créteil para vencer um concurso próximo, sob pena de perder a cátedra. Concurso que há anos a faculdade não ganha. Esta seria uma oportunidade – demagógica - de dar visibilidade à academia premiando uma descendente de árabes, moradora de subúrbio.
 
Para salvar o emprego, o professor Mazard aceita a indecente proposta. E aí se inicia debaixo de um tiroteio de provocações e desacatos de ambas as partes, o treinamento de Neila, que não tem a menor ideia de estar sendo usada.


 
Quando cai a ficha, ela comenta: “Não percebi que não pertencia àquele lugar.” Aquele lugar: a piscina de competidores ferozes e de conchavos da academia. Mas também aquele lugar inacessível para a moça do subúrbio dentro do sistema elitista e esnobe.
 
O adestramento da aluna é a abertura do filme para uma comédia de situações na qual a sequência da ‘’aula’’ de  retórica, dentro de um vagão de metrô lotado e diante de passageiros estarrecidos é um ponto alto.
 
A célebre elegia shakespeariana de Brutus no enterro de Cesar  é o exercício prático. Deve ser declamada, aos berros, pela discípula constrangida, com boa postura e voz empostada, diante do professor sádico que se diverte com a situação. É o aprendizado que vai surtir o efeito desejado no jogo de cena nos tribunais.
 
Autor de alguns filmes do rol de pequenas comédias de costumes comerciais, umas mais, outras menos bem feitas, nas quais o cinema francês atual tanto se empenha - e, de algum modo onde se perde -, Attal é um queridinho das bilheterias na França. Assim como Auteil.

Este O Orgulho,  segundo o diretor e ator, ‘’é um filme que provoca risos, principalmente graças ao seu diálogo, mas também levanta algumas questões porque é político e social. É a trajetória de uma moça da periferia parisiense negando a se enquadrar em determinado perfil para seguir adiante. ’’

Por causa deste papel Camélia Jordana levou o Oscar francês de Atriz Revelação de 2018 e com justa razão. Sua espontaneidade é surpreendente. Tem carisma e um agudo sentimento de ritmo nas réplicas dos diálogos. Sustenta bem o trabalho com Auteil.

A aposta do filme é alta e sua promessa não se produz em si mesma. O filme se desperdiça em um patamar de leveza frustrante embora sua matéria chame a atenção.

A documentarista Maria Augusta Ramos, diretora de O Processo e autora de quatro bons filmes sobre o sistema judiciário no Brasil, costuma comentar, em suas entrevistas, que ‘’o teatro da justiça’’ é o que interessa a ela.

É o treinamento para este teatro e para esse jogo de cena que assistimos em Le Brio. Esta é a (grande) matéria do seu tema secundário.

“A verdade não importa, ’’ ensina Mazard à aluna. Orienta Neila a se vestir adequadamente (isto é: como burguesa) para se apresentar no concurso; e critica. ‘’Os pobres querem se vestir como ricos e os ricos se vestem como pobres’’.

‘’Falar certo é importante?’’ ele pergunta. ‘’Nesta época em que Baudelaire convive com a internet, com selfies e halals?’’

Vale o poder da persuasão, ensina o professor. Convencimento e manipulação. Postura. Voz. Vestuário: a gravata.

Imagem: vale o  espetáculo de Guy Debord. Diante de um júri, em um tribunal; de um lado e do outro do balcão do juiz, a exibição, a intimidação se necessário. A Justiça? É secundário - que se lixe.
Há que se ter muito brio para resistir ao jornalismo motivacional da novilingua. À veemência irracional de comentaristas, na tela da TV.

“E se a nossa época estiver errada? ’’ pergunta, no contraditório, o doutor Mazard.



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