Cinema

O tempo e o tempo de 'Central do Brasil'

O país mudou e desmudou nos 20 anos que nos separam da estreia do filme de Walter Salles

05/11/2018 13:41

 

 
Quando a cara do povo encheu a tela em dois momentos de Central do Brasil, ditando cartas para Dora, nossos cinemas ainda não tinham se iluminado com os filmes de Eduardo Coutinho que, a partir de Santo Forte, colocaram a palavra direta da gente comum brasileira no foco da nossa atenção.

Quando Dora (Fernanda Montenegro) e Josué (Vinícius de Oliveira) pegavam a estrada rumo ao sertão nordestino, o governo Lula ainda não havia chegado para colocar aquela região no centro da agenda nacional. Os ônibus interestaduais não tinham ar condicionado, os telefones celulares e as mensagens digitais não estavam ao alcance de todos e ainda circulavam notas de 1 real.

O país mudou e desmudou nos 20 anos que nos separam da estreia de Central do Brasil. O filme de Walter Salles, vencedor do Urso de Ouro de melhor filme e do Urso de Prata para Fernanda no Festival de Berlim, além de dezenas de prêmios e indicações mundo afora, chegava para nós sobretudo como anúncio de um novo tempo. Talvez então não soubéssemos, mas agora sabemos.



Depois de duas décadas de neoliberalismo canhestro, individualismo yuppie e degradação do tecido social, entrávamos aos poucos num tempo de maior humanismo e noção de coletividade. No cinema, ocorria algo parecido. Iniciada a retomada pós-Collor, a onda de esteticismo pós-moderno dava lugar a filmes mais comprometidos em fornecer um reflexo da realidade brasileira, seja na ficção ou no documentário.

Walter Salles foi apto para perceber esse momento de transição – e fez de Central do Brasil justamente um filme de transições. Assim como a viagem nos levava do ambiente urbano opressivo e degradado rumo às paragens abertas e solares do Nordeste, também o caráter de Dora evoluía do oportunismo e da rispidez para a ética e a afetuosidade. Lá estava a cultura evangélica ocupando espaços crescentes na sociedade e disputando consciências com o Catolicismo.

A rota da imigração se invertia, uma vez que a busca se dava não pela sobrevivência material e econômica, mas pelo resgate das emoções e de um senso de família. Ao se lançar na aventura dessa filmagem, Walter inspirou-se em parte no Cinema Novo, que primeiro fez o brasileiro humilde protagonista de cinema.  São várias as referências espalhadas pelo filme. No entanto, a perspectiva do olhar estava profundamente alterada. Não era mais o cineasta porta-voz a denunciar a miséria ou dramatizar a revolução, mas alguém que se dispunha a procurar virtudes essenciais do povo, como a solidariedade e o desejo de pertencimento.

Se parecia haver um tanto de idealização naquela visão de um Nordeste acolhedor, em contraste com um Rio de Janeiro espinhoso, o futuro próximo comprovaria que tudo era real. O Brasil estava prestes a entrar numa fase virtuosa, com cidadãos orgulhosos de sua nacionalidade. E o cinema desbravava caminhos mais arejados, especialmente no diálogo entre o real e o ficcional.



Vinte anos depois, se o país regrediu em tantos aspectos, Central do Brasil mantém intacto seu encanto original. A remasterização em 4K restitui a belíssima e minuciosa palheta fotográfica de Walter Carvalho, assim como os infinitos detalhes gráficos e iconográficos da direção de arte assinada por Cássio Amarante e Carla Caffé. E ainda o abraço sonoro caloroso da trilha musical de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum.

Dora e Josué retornam aos nossos olhos com o mesmo pathos de antes, tal como Charles Chaplin e o menino Jackie Coogan são eternos em O Garoto. A televisão de Irene agora seria de plasma. Os trens da Supervia teriam suas próprias redes sociais para a comunicação de passageiros. Mas a substância dos personagens permanece inalterada.



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