Cinema

O western e a fábula italiana fora dos cinemas

Dois excepcionais lançamentos exclusivos da Netflix indicam que a disputa entre salas de cinema e outros suportes se dá também no âmbito do cinema de arte

12/12/2018 18:44

Lazzaro Felice (Divulgação)

Créditos da foto: Lazzaro Felice (Divulgação)

 
Quem diria que um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen (Gosto de Sangue, Fargo, Barton Fink, O Grande Lebowski) deixaria de ser lançado nos cinemas de vários países? Ainda mais em se tratando de um faroeste como A Balada de Buster Scruggs. O fato é que o público brasileiro está tendo que se contentar com telas menores para curtir essa deliciosa (apesar de mórbida) coletânea de historietas do Velho Oeste.

Mesmo assim, vale a pena. Da mesma forma, não se deve perder o fantasioso (apesar de realista e crítico) Lazzaro Felice, também destinado às telinhas de computadores e televisões. A seguir, meu comentário sobre cada um deles.



O ressuscitado
Lançado diretamente na Netflix, Lazzaro Felice é uma dessas gemas raras que o cinema de vez em quando nos oferece. Um filme cuja superfície fabular recobre uma carnadura social cruel.

O Lazzaro do título é um jovem camponês explorado pelos seus iguais numa fazenda de tabaco do interior da Itália. Em sua beatitude, ele simplesmente aceita qualquer ordem, de qualquer natureza. Lazzaro é a ponta mais fraca de uma cadeia de explorações movida pela proprietária da fazenda (uma "marquesa") e seu capataz através do trabalho escravo, do isolamento e da manutenção de dívidas eternas.

Uma grande novidade na vida de Lazzaro será a aproximação com o filho da "marquesa", rapaz revoltado contra o papel da mãe, mas embriagado pelo excesso de imaginação. Por causa dessa amizade, o humilde camponês acaba sofrendo um infortúnio fatal.

Mas eis que, como o Lázaro da Bíblia, ele "ressuscita" cerca de 20 anos depois como um fantasma de carne e osso, mantendo a mesma aparência. Tudo mudou, menos ele. Mudou inclusive o filme, que trocou a rusticidade da primeira parte – onde se viam semelhanças com o Pasolini campesino e os Taviani – por uma levada mais fantasiosa e ao mesmo tempo brutal. Para não dar spoiler, basta dizer que a realidade da cidade se apresenta tão ou mais áspera que a do campo. E que Lazzaro seguirá em sua cruzada de bondade e lealdade, entre a má fé alheia e as suas próprias reservas de magia.

Os protagonistas bondosos e inocentes são uma constante nos filmes de Alice Rohrwacher (Corpo Celeste, As Maravilhas). Lazzaro Felice deu-lhe o prêmio de roteiro no Festival de Cannes e diversas láureas em outros festivais. Tem aquele misto de crueza e ternura, pathos e humor que o grande cinema italiano sabe manejar como nenhum outro.

Alice filmou em Super 16mm, obtendo uma textura granulada e propositadamente anacrônica. Os personagens do campo ficaram com atores não profissionais, em oposição aos da cidade, vividos por nomes como Alba Rohrwacher (irmã da diretora), Sergi López, Nicoleta Braschi e Natalino Balasso. O papel de Lazzaro foi confiado ao estudante Adriano Tardiolo, virgem em cinema. Na interpretação "branca" de Tardiolo, a cineasta projetou um contraponto de inocência e mistério à dureza de uma Itália impiedosa.



Quem também adora esse filme é o cineasta Walter Salles. Numa troca de impressões comigo, ele escreveu o seguinte e me autorizou a publicar:

"O personagem central me lembrou o 'Candide' de Voltaire, perdido em um mundo cada vez mais desumanizado. É também um dos melhores filmes recentes sobre a questão da precarização do trabalho. Como é reveladora a cena em que os policiais descobrem os camponeses trabalhando em regime de semi-escravidão e os "libertam" para virarem parte do lumpesinato urbano.... Há algo de surrealista nessa coisificação do homem – e talvez por isso o não envelhecimento do personagem central não nos choca. É uma forma poética de resistência, que continua ecoando após a cena brutal que encerra o filme.

(Lembra do momento em que os prédios em ruínas alçam vôo em 'Em Busca da Vida', do Jia Zhangke? Nas entrevistas para o documentário que fizemos [Jia Zhangke, um Homem de Fenyang], Jia disse que a destruição daqueles povoados milenares lhe pareceu tão inacreditável, que adicionar um elemento teoricamente surrealista lhe veio, ao contrário, como um gesto lógico. Da mesma forma, o não envelhecimento de Lazzaro não parece absurdo frente à realidade com que o personagem se defronta)."



O western na lâmina dos Coen
A palavra, a música e a morte são o trinômio dominante em A Balada de Buster Scruggs, o novo filme de Joel e Ethan Coen disponível na Netflix. A palavra reina absoluta em quatro dos seis episódios, em diálogos ou monólogos de feição literária clássica, escritos em linguagem vintage. Exemplares do cancioneiro antigo são entoados em três segmentos, um deles por ninguém menos que Tom Waits no papel de um velho garimpeiro. A morte, por fim, maneja sua foice em todos os contos, seja em tom de paródia surrealista (como no episódio-título), seja com sentido trágico ou irônico.

O filme faz uma exótica mistura de elementos míticos, estéticos e cômicos do universo do western com o gume narrativo habitual dos Coen. Em cada episódio, há sempre a criação de uma atraente expectativa, que pode levar a um crescendo dramático, a uma surpresa ou simplesmente a um desfecho mórbido e misterioso, como é o caso do grupo na carruagem que fecha o filme. Isso gera uma leve irregularidade, como costuma acontecer nesses conjuntos de histórias isoladas entre si.



Mas é interessante pensar no fundo moral daquelas pequenas intrigas. A soberba de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), a má sorte do assaltante de banco vivido por James Franco, a usura do empresário (Liam Neeson) frente ao seu artista homem-tronco, a covardia do bandido que tenta se aproveitar do trabalho do velho garimpeiro, o amor frustrado do condutor da caravana pela donzela em apuros – todos os infortúnios vividos pelos personagens parecem convergir para a grande discussão filosófica final na carruagem.

Os Coen criaram o livro fictício de onde sai cada aventura, inserindo uma história de Jack London (o garimpeiro) e uma de Stewart Edward White (a donzela da caravana). Rodaram o filme em paisagens venerandas de Nebraska, Colorado e Novo México, valorizadas pela fotografia deslumbrante de Bruno Delbonnel. O western, com seus índios, saloons, duelos, vilões e aproveitadores, ganhou uma homenagem cheia de estilo, tão anacrônica quanto mordaz e saborosa.





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