Cinema

Os arquitetos da aniquilação

Filme documentário recomendado por Carta Maior, que pode ser visto em casa, 'Arquitetura da destruição' mostra o legado deixado pelo nazifascismo com a perseguição à Cultura e seguido por paranoicos de todas as latitudes

22/01/2020 14:27

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O filme Arquitetura da destruição, de duas horas, vem rolando no youtube com altos índices de acesso. Entende-se: é o momento, no Brasil, de relembrar e detalhar a atmosfera histórica do começo dos anos 30, na Alemanha, quando Adolf Hitler despontou como protagonista aziago na geopolítica internacional. À maneira de um trator arrasador, o genocida começou sua obra dantesca com o aniquilamento da cultura vigente no seu país. Em moldes semelhantes estamos vendo o ocorre atualmente aqui. Hitler mandou destruir, por exemplo, todas as obras de uma arte que chamou de degenerada por outra, a que chamou, é claro, de (re)generada.

No Brasil de agora discute-se o trabalho nas bases - ministérios, mídia corporativa, igrejas evangélicas, corporações policiais, setores das forças militares e mídias eletrônicas de massa - de um regime nazifascista que vemos renascer em edição atualizada e tropical, diante de nossos semblantes. Muitos deles, incrédulos. Ou indiferentes. Ou ignorantes sobre como se deu o processo nazista.

Lá, o primeiro inimigo interno a ser atacado foram os comunistas. Depois, os judeus; e os intelectuais que não pensavam como os nazistas das milícias e das forças paramilitares que se dedicavam ao desmantelamento da Cultura, do Conhecimento e da Educação.

O filme produzido e dirigido por Peter Cohen e narrado pelo ator alemão Bruno Ganz mostra o processo original agora se repetindo com o ideário nazifascista brasileiro. Mostra o uso da arte, da estética e da cenografia de grande escala pela Alemanha nazista, e o aniquilamento do que o consultor/astrólogo do atual governo brasileiro chamou de ''marxismo cultural''.

Undergångens arkitektur foi lançado na Suécia há 30 anos. É o trabalho principal do documentarista sueco de 73 anos que tem na sua bagagem mais de 40 filmes. Filme recomendado.

O seu recorte mostra que em grande parte a força motora do sistema implantado pelos nazistas foi a estética. Primeiro, inoculando o medo na população. Em seguida, em 1939, convencendo-a de que a Alemanha sairia das trevas mais saudável (o culto ao corpo e à eugenia racista), mais forte e mais bela.

Apenas o personagem do artista poderia ser o intermediário da transformação que proporcionaria uma ''nova forma'' ao país através de romances, poesia, música, teatro, cinema, preconizava Hitler. ''Só o artista conhece os desejos e os sonhos das pessoas'', repetia Goebbels. O Dia das Artes foi decretado em 39 dali a seis semanas a Alemanha invadia a Polônia.

Arquitetura da destruição comenta o jovem Hitler sendo reprovado no exame de admissão para a Academia de Artes de Viena. Quis ser arquiteto, artista plástico e desejava criar - escrever o libreto, compor a música e encenar - óperas à semelhança das wagnerianas. ''Dramas musicais'' como as chamava o compositor de Lohengrin, ópera usada como fundo musical utilizado pelo ex-secretário da Cultura do Brasil em seu vídeo infame.

O filme apresenta muitas das telas que Hitler passou a vida pintando. Cenas bucólicas com a qualidade de desenhos de cartões postais baratos. Mostra esquetes de seus desenhos para estandartes, insígnias, flâmulas e bandeiras com cruz gamada e cores fortes e dramáticas que depois foram replicados à exaustão, nos grandes desfiles de milícias e militares.

Comenta a sua supervisão direta - praticamente curadoria - nas exposições de arte degenerada (antes de livros, telas e partituras serem levadas às fogueiras) e da arte regenerada, esta celebrada com uma mega exposição, em 1935, em Berlim, aberta com pompa por ele. Opiniões, sugestões e ordens de Hitler, com todo o seu empenho, para desenhos de uniformes.

Cohen mostra como Hitler foi mentor da cenografia monumental do seus comícios. Diretor cenográfico e ator principal das reuniões das multidões.

Suas fixações: a arte da Antiguidade (as três Guerras Púnicas, uma obsessão), da Grécia, Roma, do Renascimento. A ''ameaça da burguesia", a "degeneração cultural, uma doença a ser abolida para sempre.'' O povo se espelhando nas obras de artistas ao serviço dos nazistas. Na coleção privada ( com muitos retratos banais) reunida no seu chalé dos Alpes, constatava-se a limitada inteligência e a rasa cultura o ditador.

Hitler demitiu em massa (e matou quase todos) médicos judeus ou enviou-os aos campos de concentração já existentes antes da guerra começar. Durante o inferno que criou, 45% dos médicos alemães eram filiados ao partido nazista.

Eliminou doentes incuráveis e excepcionais. Setenta mil doentes foram assassinados pelo nazifascismo em 1941. Proibiu a miscigenação e o casamento de arianos com judeus. Exilou ciganos.

Com estas e outras ações macabras Hitler iniciou a sua ''guerra de purificação.'' Com seus rascunhos para projetos arquitetônicos e urbanísticos desenvolvidos depois por Albert Speer. Quarenta cidades monumentais a serem construídas. Chalés alpinos, casas de campo, uma ''imensa e nova Berlim.''

O filme de Peter Cohen, sugestão cinematográfica neste momento perigoso vivido no Brasil, termina com imagens ainda sob suas ordens expressas (!) de impressionantes derrotas das forças nazistas, pelos exércitos soviéticos e pelo inverno russo, retratadas pelos artistas alemães.

Obras de ''artistas do front,'' dizia o megalomaníaco que nunca soube distinguir suas obsessões e suas frustrações da realidade.

Hitler não foi expulso do exército por tentativa de cometer crime contra a população quando jovem oficial. Mas ele nunca conseguiu esquecer e/ou digerir o seu ódio com a reprovação na academia vienense.

Deixou o exemplo e o legado execrável para milícias criminosas de todas as partes, para militares pseudo nacionalistas e para paranóicos alçados à governança por uma população de doentes.

Começou com a perseguição à Cultura.

Arquitetura da destruição, na versão íntegra e legendada em português, abaixo. É imperdível.





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