Cinema

Os falsos verdes por Michael Moore

Filme 'Planeta dos humanos' mostra como alguns grupos de ambientalistas caem na armadilha de grupos de empresas globalizadas que ganham dinheiro com o grande ''negócio verde''

15/05/2020 11:51

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
O planeta dos humanos (2019) é o título do filme do ambientalista Jeff Gibbs produzido e apresentado por Michael Moore. Seu tema é delicado. Prova disso foi a grande celeuma provocada por este documentário quando estreou, há cerca de três semanas, para lembrar o Dia da Terra 2020 criado há meio século e festejado no último dia 22 de abril. Denunciado na Justiça em dezenas de ações que pretenderam censurá-lo e tirá-lo de cartaz no streaming, Planet of the humans derrubou todas elas e continua uma trajetória arrasadora no youtube com legendas em português e mais de quatro milhões e meio de visualizações. Coloca em discussão - com imagens e depoimentos de pesquisadores e especialistas - as tentativas dos grandes grupos de negócios globalizados entrelaçados com poderosas corporações, sobretudo de políticos, de cooptarem setores do movimento ambientalista. Ao que parece estão conseguindo em diversos países. Brasil, inclusive.

Na ocasião, Michael Moore, desta vez como produtor, escreveu: ''Pessoas pressionaram sites que carregavam o filme para ''encerrá-lo'' chamando-o de ''perigoso'' e conseguiram a adesão de líderes descontentes com as revelações de como a luta contra a mudança climática está sendo cooptada por grupos de conglomerados econômicos. Isto ocorre quando liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de errar ou acertar desaparecem porque algumas pessoas, as vacas sagradas - ou devo dizer, painéis solares sagrados - são desafiadas.''

Ele se refere, é claro, ao ''momento-Trump'', quando ''temos uma administração perigosa, que nega o clima, administrando nosso país seguindo orientações políticas da indústria de combustíveis fósseis e dos piores poluidores do mundo, além de atacar a liberdade de expressão e a Primeira Emenda diariamente. Diante deste panorama é vergonhoso e impressionante que qualquer artista, cineasta ou acadêmico se una apelando para silenciar nossa livre expressão.''

O alerta - vê-se no filme - mostra a arrogância das elites contra três cineastas da cidade de Flint, no Michigan, que procuram advertir os cidadãos da comunidade para uma '' catástrofe ambiental suprema que está à nossa mão,'' completa o diretor do clássico Farenheit 9/11 e de tantos outros docs que desnudam a farsa do paraíso capitalista nos EUA. '' A pandemia atual é apenas um pequeno exemplo do caos e da calamidade vindo em nossa direção.''



Um dos eixos do filme apresenta alguns grupos conservacionistas cooptados por outros, financeiros e industriais, que gargarejam o objetivo de salvar a humanidade. Comenta o aumento do nosso sistema de consumo excessivo e, como diz Moore, mostra "os seus ovos (bilhões) investidos em '' fontes renováveis'' que, para escândalo geral, nos levam ao caminho da extinção.''

Outro foco do inquietante doc de Biggs é o embate de gigantes entre o mundo que conhecemos - e do qual dependemos como ele é -, esse mundo do consumo de carvão, de óleo e de riquezas não renováveis versus o mundo da biomassa e das energias renováveis. De cana, soja, côco.

Energias que por serem ''renováveis'' entraram no radar de alguns setores da ação ambientalista na luta contra mudanças climáticas e constituem atração e interesse de bons negócios para mega empresas de bilionários que posam como benfeitores, benevolentes e pegam carona no movimento verde.

Al Gore, com seu discurso conservacionista é uma dessas estrelas negras, apresenta o filme de Gibbs. Como Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova Iorque, doador de um valor de alguns bilhões de dólares, parte de sua fortuna, para a causa do aquecimento global. E também os espertos irmãos Koch.

São associados ao negócio da biomassa dirigido à devastação de florestas e que superestimam, por exemplo, a durabilidade real para painéis solares (duram apenas 20 anos) e de aerogeradores, (durabilidade de cerca de dez anos e fabricados pela General Motors; vê-se no filme) instalados nos parques eólicos. Na Europa, em viagem de carro pelo percurso Paris/ Berlim vimos essas usinas eólicas se sucederem, de modo impressionante, à margem da autoestrada, cerca de dez anos atrás.

O filme/escândalo questiona as fontes eólica e solar também quanto a sua eficiência e lembra que seus dispositivos são montados com combustíveis fósseis. Questiona os geradores eólicos que demandam grandes estruturas de aço e concreto instaladas em fraldas de montanhas. E os painéis de geração solar produzidos com materiais obtidos na mineração do quartzo e carvão de elevada pureza.

O documentário retrata as usinas de biomassa que geram energia com a queima de madeira triturada e o grande impacto ambiental dessas soluções. Há inclusive sequências do desmatamento de florestas na Amazônia. Uma das tendências atuais do país está voltada para a produção de energia renovável produzida por cascas e lascas de árvores. No filme, há menção ao desastre das queimadas no Brasil, nessas ''florestas energéticas.''

O documentário lembra as baterias utilizadas em veículos elétricos e celulares que demandam mineração de lítio, cobre, cádmio e outros metais encontrados em terras raras. E menciona as diversas áreas de países em desenvolvimento degradadas pela mineração, expondo trabalhadores e crianças a substâncias químicas perigosas à saúde. (Pensamos no golpe político na Bolívia financiado por grupos globalizados da mineração.)



Enfim, o que mostra este filme perturbador mereceu uma observação dura do grupo conservacionista Verde Mar, criado por mergulhadores profissionais. Um trecho de sua declaração: ''Ele é urgente e imperdível. (Mostra) um ataque frontal às nossas crenças sagradas e geram raiva. Nós, ambientalistas, caímos em ilusões ''verdes'' que são tudo menos verdes.''

''Ele é o alerta para a realidade que temos medo de enfrentar: que, em meio a um evento de extinção causado pelo homem, a resposta do movimento ambiental é pressionar por reparos leves e band-aids (...) seguindo líderes que nos conduzem pelo caminho errado - vendendo o movimento verde para interesses financeiros e para empresas americanas.''

Economia verde, o futuro do planeta e a pandemia da covid-19. São questões que se entrelaçam. Moore reforça: ''Estamos no meio de uma mudança de paradigma em que todos estão repensando nosso relacionamento com o planeta, nossos relacionamentos uns com os outros e como não podemos nos contentar em voltar ao "normal" quando essa pandemia estiver atrás de nós.''

''O público sabe que o planeta está pegando fogo e que temos um sistema econômico injusto, injusto e corrupto - e que essas questões estão entrelaçadas. Lançamos um filme que afirma várias posições fortes a serem consideradas. Elas abalaram, compreensivelmente, certas pessoas.''

Moore continua: ''No começo de Planet of the Humans , nosso filme faz a pergunta: o que acontece quando uma única espécie domina um planeta inteiro? e se eles forem longe demais? e se eles soubessem, há 60 anos, que iriam aquecer o planeta, derreter as calotas polares e destruir nossos ecossistemas? Embora reconheçamos que essas perguntas serão desconfortáveis %u20B%u20Bpara muitos que não desejam que seu status quo seja interrompido, é papel dos artistas e cineastas levantá-las.''

O título do documentário é uma óbvia alusão à série de filmes O planeta dos macacos.

O filme de Gibbs/Moore se aventura em terreno escorregadio. Atreve-se a dizer o que poucos dirão atualmente. Talvez não venha com mais depoimentos, esclarecimentos, e não seja tão rigoroso quanto o desejável.

Há críticos ponderando que acaba desinformando sobre as energias renováveis e que pode repercutir na opinião pública como um passe livre para a indústria petrolífera e para os negacionistas climáticos.

Por outro lado ele é mais que positivo quando critica determinados biocombustíveis, quando realça a importância da descarbonização da sociedade, e sobretudo da transparência do financiamento das organizações que se aproximam dos verdes em busca de novos e gordos negócios, de uma etiqueta de ética ambiental, tão em moda, e da lavagem de dinheiro: o greenwashing.





Conteúdo Relacionado