Cinema

Os nervos de aço de Angela Merkel

Parte documentário, parte interpretação da realidade dramática, o filme 'Merkel' abre a temporada de despedidas políticas da chanceler alemã

28/05/2021 10:59

(rbb/carte blanche/Volker Roloff)

Créditos da foto: (rbb/carte blanche/Volker Roloff)

 
A partir do segundo semestre deste ano teremos, muito provavelmente, um pacote de filmes, análises, críticas e balanços com o foco na chanceler alemã Angela Merkel que se despede do cargo de governante do país mais poderoso da União Européia depois de 16 anos de mandato. Um dos filmes biográficos, roteiro do conhecido jornalista Dirk Kurbjuweit, autor de dois elogiados livros sobre a líder política, está sendo anunciado há três anos.

Mas este semi-documentário, Merkel (Die Getriebenen), que entrou em cartaz na plataforma de streaming Now há cerca de uma semana, é o resultado do trabalho do diretor Stephan Wagner com roteiro de Florian Oeller e a atriz Imogen Kogge interpretando a líder alemã.

O filme não é biográfico. Ele se concentra no histórico episódio de 2015 e na atuação de Merkel, quando, depois de semanas de silêncio, decidiu, sozinha, se abria ou não as fronteiras do seu país para dezenas de milhares de refugiados fugitivos da guerra da Síria. Eles chegavam através dos Balcãs em direção à entrada para a Alemanha pela Baviera, em uma dramática caminhada via Hungria e Áustria.

Trata-se de uma produção baseada e inspirada naquele momento de máxima tensão na política da UE. O líder húngaro fascista Victor Orbán chantageava os alemães, construindo uma cerca na fronteira com a Servia que passava a ser vigiada por quatro mil soldados e tentando bloquear novas entradas. A Áustria era um dos envolvidos na contenda. França e Itália hesitavam, antes da costura do acordo de uma política de cotas para refugiados; e a polêmica sobre a manutenção do Tratado de Schengen era revivida. A Dinamarca e a Suécia não seguiam a Alemanha. Os líderes europeus, em resumo, deixaram Merkel a decidir sozinha sobre tão grave assunto.

No filme, vê-se a batalha política interna no país, o racha na coligação partidária do governo (CSU, a democracia cristã e o SPD, dos sociais democratas), discutindo o fechamento ou a manutenção de fronteiras abertas, a alta pressão do eleitorado do partido de Merkel - a União Social Cristã - e o partido Die Linke, de esquerda acompanhado dos verdes, defendendo, sem dúvida, receber os refugiados.

A trama é esse xadrez da política alemã naquele momento de crise com repercussão, em seguida, nos países da União Europeia. A atriz Imogen Kogge compromete o filme porque não apreende a atmosfera de empatia que, na realidade, envolve Angela Merkel mesmo que a despeito de uma celebrada (e injusta) frieza da personagem real e das suas posições de centro-direita. A trilha musical, monocórdia, de começo ao fim do filme pretende sublinhar uma temporada de suspense despropositada e artificial.

A chanceler, no entanto, acusada de possuir o ''coração de gelo'' durante essa crise dramática, como se vê no filme, é apresentada como alguém de nervos de aço resistindo a pressões esmagadoras, pessoa fraterna e solidária quando murmura "mas de onde vem todo esse ódio?'' se referindo às violentas manifestações de grupos neonazistas atacando os refugiados sírios.

Para quem segue os movimentos da geopolítica européia e históricos acontecimentos recentes da nossa época, esse filme se trata de programa interessante. Relembrar aquele verão terrível de 2015, que transformou o Mediterrâneo daqueles que estavam em férias, indiferentes ou inconscientes ao êxodo dos fugitivos da guerra, (a mesma provocada pela União Europeia, Estados Unidos e Otan), em um grande cemitério submerso.

A última imagem de Merkel é a da líder alemã, que já ingressou na galeria dos grandes estadistas europeus, entrando no seu carro oficial e sinalizando o que, como ela já disse publicamente: ''A ordem internacional, como nós a conhecemos, vem se desestabilizando cada vez mais''.

Angela Merkel murmura para si mesma: Scheisse...



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:: Leia também: O aeroporto da esperança, resenha do filme de Karim Aïnouz, Aeroporto central, de abril de 2020, publicada em Carta Maior sobre o tema dos refugiados que encontraram abrigo na Alemanha ::



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