Cinema

Os novos espiões

Todos bisbilhotam todos e a TI turbina o trabalho de agências de inteligência, hackers revelam bastidores sórdidos da política; outros invadem a privacidade de todos e todas

06/07/2021 16:55

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Há oito anos, quando Edward Snowden perdeu a paciência e sua boa consciência certamente começou a incomodá-lo, o jovem americano confirmou o que a BBC denunciara em 1999. Foram poucos os que na época deram importância à revelação da emissora britânica então acusada de divulgar uma teoria conspiratória. Os milhares de documentos apresentados por Snowden porém comprovavam que havia, sim, uma rede de espionagem mundial operada inicialmente pelos governos do grupo Cinco Olhos - Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido - a Echelon. O mega projeto em execução trabalhava a vigilância global, a espionagem e monitorava 90% de todo o tráfego da Internet. A NSA - National Security Agency - operava com a Echelon.

Nas últimas décadas, Angela Merkel, Dilma Rousseff, e, mais recente, há um mês, Emanuel Macron, o presidente alemão Franz-Walter Steinmeier e outros tantos políticos da cúpula da União Europeia também foram bisbilhotados, revelou a rádio Danmarks Broadcast. Foram espionados pelos serviços de inteligência dinamarqueses trabalhando em combinação com a NSA.

Na semana passada, o atual chefe da CIA, Wlliam Burns, veio ''conversar'' com o governo brasileiro reservadamente - mas à luz do dia! - e cumpriu uma agenda de jantar e encontros com colegas que não chegou a ser oficial.

A indústria do cinema e militantes independentes de vários matizes vêm seguindo o rastro desses e de centenas de outros acontecimentos nessa área cinzenta onde vivem e trabalham espiões. Produtores de filmes logo entenderam que um dos grandes temas da cinematografia contemporânea é a espionagem, agora adubada pelas tecnologias de TI.

A bisbilhotice. Observar a vida dos outros - título aliás do belo filme alemão Das Leben der Anderen ou The Lives of Others.

A pandemia da Covid, o confinamento e os sucessivos lock downs contribuem para espicaçar a bisbilhotice dos que passam meses consecutivos dentro de casa participando de grupos em redes sociais ou remexendo no Google.

Não apenas documentários, de custo mais barato que a ficção, mas também filmes comerciais e produções híbridas - ficção enraizada em fatos reais - multiplicaram-se nas últimas décadas. Filmes herdeiros da série James Bond, aventuras de Jason Bourne repaginadas, e ficções científicas temperadas com espionagem faturam boas bilheterias.

Por outro caminho, ativistas, documentaristas profissionais, jornalistas e agentes de instituições de estado vêm lançando produções consistentes ou são personagens de reencenações. Trabalham muitas vezes com hackers fidedignos e utilizam o cinema como ferramenta de análise e investigação de bastidores da política ocupando o espaço deixado vazio até há pouco pelo jornalismo investigativo, mas que de algum tempo para cá vem trabalhando com força.

Revelar ''bastidores'' políticos é revelar a realidade e a verdade enquanto, no palco, o show de mentiras e da arte de escamotear e confundir segue insultando a inteligência do cidadão/espectador e distorcendo o real para atender a interesses escusos de agrupamentos políticos, econômicos, de indivíduos, governos e nações.

A relação de filmes de espionagem abaixo, sem ordem cronológica, relembra algumas produções do cinema de espionagem com temas recentes, muitas delas acessíveis nos catálogos das plataformas. Vários são documentários de qualidade. Alguns já são clássicos. Outros remetem ao talento de John le Carré como O espião que sabia demais, dos tempos do pré streaming. Vale (re)vê-los.

Destacam-se filmes com perfis de Julian Assange e de Edward Snowden, ambos personagens emblemáticos que desvelaram realidades escondidas sobre fatos que foram e que estão sendo capitais na nossa época.

Construídos a partir de diversos ângulos, mostram ou sugerem o poderoso complexo de inteligência, espionagem e informação do deep state, o estado oculto, com poder de planejamento e de ações políticas que fogem ao controle de outros órgãos de estado. Mostram também como dados pessoais de qualquer um de nós são roubados. Ou revelam como guerras se iniciam e matam milhões de pessoas inocentes, movidas ao capricho e à ganância e à divulgação de fake news.

Os cartazes são estes:

Segredos oficiais. Um dos melhores filmes sobre a atuação de uma funcionária da Sede de Comunicações do governo britânico (GCHQ), a agência de inteligência dos ingleses equivalente à agência americana NSA (National Security Agency). Por questão de consciência ela revelou, com provas inquestionáveis, a inexistência de armas químicas no Iraque, o falso motivo para a invasão e a guerra criminosa que se seguiu. Netflix, Now, Prime Video.



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Jogo de poder. É encontrado no Now. A resenha de Carta Maior rememora o célebre caso da agente secreta americana Valerie Plame casada com um embaixador aposentado, Joseph Wilson, que foi deliberadamente exposta pelo governo Bush; e os ''bastidores'' sórdidos da operação de invasão do Iraque. Dirigido pelo excelente Doug Liman.



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Conspiração e Poder
. O jogo bruto do poder. Uma equipe exemplar de pesquisadores, autorizada pela cúpula da CBS, vislumbra a bomba política que estouraria na campanha de George Bush filho se os ''bastidores'' da história fossem divulgados. Filme completo no Youtube e disponível na Amazon Prime.



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A vida dos outros. Alemanha ainda dividida pelos aliados e pelos soviéticos, no pós guerra. Berlim Oriental. Os serviços de inteligência espionavam grupos de artistas de teatro. Recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Filme indispensável. No Looke.



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O espião que sabia demais.
Idos dos anos 70. Filme adaptado do livro de John le Carré com o seu fascinante personagem,George Smiley. Na ótima resenha de Isabela Boscov, atualizada ano passado, o avesso de James Bond. ''Nada de garotas, pistolas, glamour, vilões exóticos: espionar, pregava o autor, consiste fundamentalmente em ter paciência, memória, método e desconfiança – enfim, decifrar quebra-cabeças, ou ser um burocrata com função (ao menos em tese)''. No Looke.



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Nós roubamos segredos. A história do Wikileaks contada pelo polêmico diretor de documentários Alex Gibney. No GooglePlay.



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Snowden - heroi ou traidor. Outro clássico do gênero. Famoso documentário dirigido por Oliver Stone. No Now.



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Privacidade hackeada. Mais um documentário clássico. Um dos docs mais acessados no streaming desde o seu lançamento, em 2019, a resenha em Carta Maior é Para mudar uma sociedade é preciso destruí-la antes. Revela a ideia básica da empresa Cambridge Analytica utilizada ainda hoje pelos seus aprendizes para justificar violação de dados pessoais de eleitores roubados do Facebook e do WhatsApp nas campanhas de Trump e do Brexit e no Brasil, na eleição de 2018. Na Netflix.



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Wasp Network - Rede de Espiões
está em cartaz na Netflix e é dirigido por Olivier Assayas. ''Tudo é baseado em ocorrências e personagens reais levantados por Fernando Morais, e há mesmo uma aparição documental de Fidel Castro em depoimento sobre as ações de contra-espionagem levadas a cabo na Flórida'', escreve o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos.



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Em nome da América. Corpos da Paz espionam o Nordeste. Tatiana Carlotti entrevistou o diretor, Fernando Weller, para Carta Maior. Ele diz: ''O que o filme demonstra é que no fim dos anos 1960, no Brasil, os voluntários começaram a atuar em cooperativas e sindicatos rurais criados desde antes do golpe de 64 por organizações suspeitíssimas''. Um tema pouco conhecido. No Now.



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Agentes do caos. Outro doc de Alex Gibney que se propõe, em dois episódios de mais de uma hora e meia cada um, a comentar e provar a interferência de hackers a serviço do governo russo na eleição de Donald Trump a favor do candidato republicano. Assunto até hoje discutido nos EUA. No HBO.



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Citizenfour. Excelente documentário da americana Laura Poitras sobre o encontro e uma extensa entrevista com Edward Snowden em um apartamento do hotel Mira, de Hong-kong, antes de o americano voar para Moscou. Glenn Greenwald estava presente nesse super clássico lançado em 2014. Na resenha de Carta Maior: ''A revista Variety definiu Citizenfour, Oscar de melhor documentário de 2015, como 'um retrato extraordinário' de Snowden. Na outra ponta, o site de esquerda Salon.com o descreveu como 'uma história de espionagem real, urgente e cativante que deveria ser vista por todos os norte-americanos'. São 114 minutos dos quais 60 filmados com Snowden entregando documentos a Greenwald que comprovam como os EUA e outras potências violam princípios fundamentais da democracia e do direito''. Legendado e completo, no Youtube.



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Atualmente, a história da espionagem política e eletrônica está aguardando a produção de um outro doc bomba: telefones celulares de assinantes do WhatsApp infectados com o vírus Pegasus, descoberto há pouco tempo.

Criação da empresa israelense NSO Group ele é destinado à venda a agências governamentais para monitorar alvos específicos. Foi comprado por Bangladesh, Hong-kong, India, Paquistão e pelo Brasil. Aqui, já foi noticiado que opera em sociedade com um conhecido serviço que proporciona telefonia e banda larga para milhares de pessoas, em especial no nordeste do país.

Um roteiro e tanto.



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