Cinema

Os velhos e os novos Anos Loucos da CIA

A história do piloto de aviação Barry Seal foi uma das operações da agência de inteligência americana mais ousadas. Até agora, quando todos os limites foram violados no Iraque

05/01/2020 13:08

 

 
Parece inocente, mas não é. Neste começo de verão perigoso em que o céu australiano se colore de um vermelho intenso e o mundo estremece, em suspenso, com a possibilidade da hecatombe nuclear, um filme batizado como de ação e com todos os ingredientes necessários (Tom Cruise à frente) pode ser a medida exata para o espectador se alienar, divertir-se, relaxar e rir para compensar as expectativas de um 2020 que anuncia uma década lúgubre; e já batizados de ''anos loucos dos 20.'' De novo.

Feito na América (American Made/ 2017), de Doug Liman, diretor americano especialista em filmes de ocasião bem produzidos e de consumo rápido, está disponível no streaming*. Eventualmente, pode ser usado para aliviar tensões.

Ele retrata a história real da cupidez de um jovem piloto de aviação comercial americana, Barry Seal. Cooptado para trabalhar para a CIA que atuava com desenvoltura sob o manto do governo Reagan, nos anos 70/80 na América Central e no continente sul americano, o comandante da TWA deixou a aérea para se transformar num livre (?) 'empreendedor'' em sociedade com quem? Com a agência.

Esta é a terceira vez que Barry Seal, que virou traficante e informante do governo americano, é representado no cinema. Antes, foi personagem na série Narcos e em Conexão Escobar.

Mas neste cartaz de agora, justificando o título do filme que remete ao self-made man, vê-se como esse ''empreendedor'' de primeira hora se tornou multimilionário aproveitando-se da Guerra Fria no Caribe e da explosão do narcotráfico a partir da luta dos sandinistas e da primeira revolução no sul do hemisfério, na Nicarágua.

Além de diretor, Liman fez Identidade Bourne, com a espetacular renda de mais de 200 milhões de dólares, e Mr. e Mrs. Smith, ambos bons filmes de ação desenfreada e de suspense bem dosado - como este. Em seguida, foi o produtor-executivo da sequência de filmes da franquia sobre o espião Bourne que se seguiram.

American made mostra como Seal trabalhou na contramão para os Contras da Nicarágua. Apresenta Pablo Escobar nos seus primeiros tempos de negócios (outro sócio de Seal) na Colômbia. Não livra a cara da CIA em seus negócios escusos (sempre), mas apresenta o Departamento de Entorpecentes da America (o DEA) e os federais (FBI) como os mocinhos do filme quando as coisas começam a dar errado e as acrobacias de Seal no céu começam a cheirar mal.

Passo a passo revela a trajetória do ex-comandante que se transforma em milionário depois de ganhar de agentes da CIA um aeroclube inteiro, montado dentro de uma fazenda, numa cidade perdida no fim do mundo do estado do Arkansas, em 1984 de onde ele decolava. Mais o financiamento para compra de meia dúzia de aeronaves que eram conduzidas por um grupo de pilotos malucos-beleza amigos de Seal.

Numa ''nação maravilhosa como a América'', repetia o multimilionário, ele ia e vinha voando, durante anos, fotografando do alto instalações de grupos revolucionários da América Central, fazendo pousos e decolagens em pistas precárias, trazendo cocaína para os EUA e levando armas para os grupos da conveniência política do momento, da ''nação maravilhosa''.

Até que pilotos do DEA, de aeronaves mais sofisticadas que as que operavam no pequeno exército de Seal, começaram a desconfiar do vai-e-vem entre Nicaragua, Colômbia e a cidade de Mena, de 5 mil habitantes (hoje), no Arkansas, onde Seal então morava com a família e pousava. Aí a história melou.

O episódio Barry Seal é mencionado por especialistas em inteligência como uma das maiores operações da CIA na história dos Estados Unidos nesse tempo do início do Cartel de Medellin.

E nos créditos finais de Feito na América a informação: logo em seguida a essa história, em 1986, explodiu o caso Irã-Contras que quase derrubou o governo Ronald Reagan.

O Irã-Contras (armas por reféns ao invés de cocaína) foi mais uma intervenção ilegal na escalada dos Estados Unidos como estado violando países vulneráveis ou dependentes em nome de seus ineresses. De lá para cá, com Donald Trump, assistimos a uma ampliação desses assaltos, ousados no limite, ao não reconhecer e respeitar as regras que mantêm um jogo perigoso sob mínimo controle.

Curiosidade: qual seria a opinião de Barry Seal hoje? Se pudesse.

*Disponível no Now e de tempos em tempos em canais do HBO





Conteúdo Relacionado