Cinema

Oscar 2020: Os nove melhores

Grande momento da festa do Oscar, a entrega do premio de melhor filme será para uma das nove produções indicadas pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entre as quais o sul-coreano 'Parasita' é um dos favoritos

02/02/2020 16:05

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Nos festivais de cinema de Cannes, Veneza, Berlim ou no Festival de Sundance podem nascer os premios que mais proporcionam status, prestígio e dinheiro mundo a fora aos diretores, atores, escritores, fotógrafos e produtores, montadores, músicos, figurinistas, maquiladores, que a eles concorrem. Mas nenhum se compara, em popularidade e em peso comercial, às estatuetas douradas dos Oscar que há quase um século são distribuídas por cerca dos oito mil membros inscritos na Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, de 50 países, a maioria deles americana.

Criado há 92 anos com o objetivo imutável de ''promover a indústria do cinema,'' até dois anos atrás o Oscar era apontado como um premio velho, branco e machista quando passou por uma reforma que, em parte, respondeu às acusações da ala mais progressista e vibrante da comunidade cinematográfica.

Nessa ocasião, nove brasileiros foram convidados para participar do plantel da Academia presidida no passado por alguns dos grandes mitos do cinema: Robert Wise, Gregory Peck, Frank Capra, e a exceção feminina, a atriz Bette Davis. Entre os nacionais, são membros o ator Rodrigo Santoro e o diretor Kleber Mendonça Filho.

Nesse mesmo ano de 2017, o cineasta iraniano Asghar Farhadi, diretor do filme indicado a melhor produção estrangeira, O apartamento, (hoje rebatizado como 'melhor filme internacional') não pôde entrar nos Estados Unidos e não recebeu o Oscar que ganhou. Não contou com visto no seu passaporte por determinação da administração Trump.

No próximo dia 9 de fevereiro, na cerimônia planetária transmitida pela TV, de Los Angeles, mais uma vez serão entregues uma nova coleção das preciosas estatuetas. Folheadas a ouro, elas significam no entanto ganhos financeiros igualmente planetários para os vencedores.

E a cereja do bolo da grande celebração cinematográfica de 2020, mais uma vez é o Oscar de melhor filme, seguido do premio de melhor diretor, ator e atriz.

O Oscar de melhor documentário, este ano, no entanto, é o que vem mobilizando os cinéfilos brasileiros e criando forte expectativa na parcela da população do país que procura resistir e lutar contra a destruição da cultura do cinema nacional, que vinha em franca ebulição nos últimos anos, e contra o aniquilamento da cultura brasileira de modo geral.

Democracia em vertigem, de Petra Costa, é um forte concorrente ao premio e bastou que fosse indicado ao Oscar de melhor doc para assumir seu papel de denunciar aos quatro cantos do mundo as origens da atual tragédia política nacional.

Quanto à cereja do bolo, os nove indicados ao Oscar de melhor filme estão apontados abaixo, com os respectivos comentários publicados em Carta Maior. Vários podem ser assistidos, antes do próximo domingo, em diversas plataformas. Os demais, nos cinemas.

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Navegue pela lista:
*O Irlandês
*Era uma vez em Hollywood
*Coringa

*Parasita
*1917
*Jojo Rabbit
*Adoráveis Mulheres
*Ford vs Ferrari
*História de um casamento

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O irlandês




Disponível na Netflix.

É mais um filme consistente dirigido por Martin Scorsese que já foi Oscar de melhor diretor, há 13 anos, com o seu Os Infiltrados. Não fosse a indicação entusiástica do filme Parasita, ele seria, disparado, o mais sério candidato, até por uma questão de homenagear o cineasta novaiorquino pela sua idade e pela sua filmografia.

Um trecho da resenha denominada Sobre a lealdade, a violência e o remorso, de dezembro de 2019, publicada em Carta Maior: ''Da parte de Steve Zaillian, o brilhante roteirista do filme de Scorsese, sua observação sobre o tema é sombria e fortemente poética. Ele diz que se trata de uma história " de laços que se dissolvem na noite das almas quando ocorrem todas as traições.'' E recomenda: (...) ''é para ser apreciado na sua plena força cinematográfica.''

O irlandês deve ser visto, de preferência, na telona do cinema. Caso não seja possível, como dura mais de três horas, que não seja fatiado em episódios no modo série. A linguagem do cinema é outra, mais rica e mais trabalhada, e o seu timing é exclusivo.''   (Voltar para a lista)



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Era uma vez em Hollywood



Disponível no Now, Sky play, iTunes, Netflix, Prime.

O comentário sobre o mais recente filme de Quentin Tarantino, outro peso-pesado na corrida pelo premio, é intitulado Era uma vez uma época vibrante: ''Embora siga se referindo sempre à cultura pop, ele, aos poucos, substitui o sangue e o molho de tomate pela dramaturgia e pelos diálogos bem cuidados, e continua um mestre na operação dinâmica da câmera e, sobretudo, na cinematografia inteligente.

De qualquer modo, apesar do trabalho caricatural de Di Caprio e com diversas vinhetas longas demais, e para quem assistiu Alan Ladd, John Wayne e os grandes faroestes de época pelas bandas dos anos 50; para quem dançou a trilha musical daquele tempo e conheceu a Los Angeles novecentista, Santa Monica, e as beaches ainda com poucos turistas – Venice, Manhattan e Malibu – essas décadas dos 60 até os anos 90, tempos vibrantes da Hollywood de Tarantino, constitui uma viagem inteligente e um prazer.'' (Voltar para a lista)



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Coringa



Disponível no Now, Google play, iTunes.

Depois de assistir ao filme em uma sessão do Festival de Cinema de Nova Iorque e não hesitar em classificá-lo como ''obra de arte'', o documentarista Michael Moore escreveu, com grande entusiasmo, e Carta Maior publicou: ''Nosso país está em profundo desespero, nossa constituição está em pedaços, um maníaco desonesto do Queens tem acesso aos códigos nucleares – mas por algum motivo, é de um filme que devemos ter medo.''

''Eu sugeriria o contrário,'' continua Moore. ''O maior perigo para a sociedade pode ser se você não for ver este filme. A história que conta e as questões que ela suscita são tão profundas, tão necessárias, que se você desviar o olhar da genialidade dessa obra de arte, perderá o que ela está nos oferecendo.''

''Obrigado Joaquin Phoenix, Todd Phillips, Warner Bros. e todos que fizeram este filme importante para este período importante. Quanto tempo se passou desde que vimos um filme aspirar ao nível de Stanley Kubrick? Vá ver este filme.”

O psicólogo e psicanalista Armando Januário por sua vez assinou o texto O Coringa que habita em cada um de nós e comentou em CM: ''Coringa mostra pessoas habitando em uma cidade onde tudo vai mal: infestações de ratos, cortes nos serviços sociais e de saúde, desemprego. Em um ambiente altamente estressante, qualquer gesto positivo de afeto é reprimido, levando Gotham City à barbárie.''

''Arthur Fleck, um palhaço com graves transtornos mentais, se torna o símbolo maior dessa ruptura social. Ele passa a existir quando nega a existência dos outros, cometendo assassinatos. Entretanto, não são apenas crimes contra a vida humana. Ao matar, Fleck, na verdade, tenta extinguir as posições sociais e afetivas das suas vítimas: sua mãe, o suposto pai, a namorada presente em suas alucinações visuais, o ex-colega de trabalho que colaborou para a sua demissão... são essas posições que ele extingue, tentando fazer sentido para si mesmo a partir de silenciar o significado dos outros, que, de alguma forma, compunham sua vida.'' (Voltar para a lista)



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Parasita




Disponível no Netflix, pode ser alugado no Google Play Store, Apple TV e Now.

Um fantasma no porão da casa dos ricos é a resenha sobre o filme do sul coreano Bong Joon-ho, apontado como um dos cinco mais brilhantes cineastas vivos e em atividade. “Estamos vivendo uma época em que o capitalismo é a ordem reinante e não temos alternativa. Isso no mundo inteiro,'' ele declarou em entrevista concedida em Cannes, ano passado. ''Na sociedade capitalista de hoje existem castas que são invisíveis aos olhos. E nós tratamos as hierarquias de classe como uma relíquia do passado, mas na realidade elas ainda existem e não podem ser ultrapassadas.”

''Com o belo e terrível Parasita – e apesar do anticlímax formal que deixa a desejar, porém com o recado final certeiro de que os hospedeiros mudam de posição de tempos em tempos e, quem sabe, por tempo indefinido – o diretor diz, em uma das suas inúmeras entrevistas, que quis retratar a contínua polarização e a cada vez mais aguda desigualdade da sociedade.'' (Voltar para a lista)



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1917



Em cartaz nos cinemas.

Missão em linha reta é o título do comentário do crítico de cinema Carlos Alberto Mattos sobre um candidato que divide as opiniões. Uns, achando 1917 mais um filme de guerra pomposo. Outros, elogiando o trabalho do diretor Sam Mendes.

(O filme) ''sobe ao panteão dos grandes filmes de guerra não tanto pelo seu enredo, relativamente simples, mas pela façanha de sua realização e como ela transmite a tensão e o horror de estar em meio ao conflito, '' escreve Carlos Alberto.

E continua: ''Nada mais básico do que a saga dos dois soldados encarregados de levar uma mensagem através do front inimigo até outro batalhão, a tempo de cancelar um ataque e evitar um massacre das forças britânicas na I Guerra Mundial. A inspiração veio do avô de Sam Mendes, que foi incumbido de missão semelhante.

A guerra não está ali como fato político nem como motor de ação, mas sim como uma prova individual, inclusive de amizade, para os dois soldados. A sucessão de perigos no caminho deles tem semelhanças com reality shows de sobrevivência, o que não é exatamente um grande elogio. Mas a alternância de momentos grandiosos com cenas intimistas, o resultado técnico primoroso e as atuações intrépidas de George MacKay e Dean-Charles Chapman levam o filme a um patamar muito superior. No quesito elenco, note-se o luxo adicional de ter os superastros Colin Firth e Benedict Cumberbatch em pequenas pontas como os oficiais nos dois extremos da linha de comando.'' (Voltar para a lista)



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Jojo Rabbit



Em cartaz nos cinemas.


O comentário de Carlos Alberto Mattos sobre o filme neozelandês é este: ''Quarenta anos antes de Jojo Rabbit, Volker Schlöndorff adaptou para o cinema o livro de Günter Grass, O Tambor. Era a fábula de um menino alemão que se recusava a crescer e, durante a ascensão do nazismo e a II Guerra Mundial, batia seu tambor como um alerta contra a estupidez e a passividade do seu povo.'

Jojo Rabbit, um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme este ano, faz um contraponto curioso com aquela história. Aqui, o pequeno Jojo amadurece à medida que vai trocando seu fanatismo infantil por uma estranha dor chamada amor.

Não se trata de comparar os dois filmes. O Tambor era um exame profundo da mentalidade de uma classe média que sustentou Hitler. A comédia do neo-zelandês Taika Waititi, filmada na República Tcheca, pretende somente satirizar a bestialidade nazista enquanto constrói seu pequeno conto de tomada de consciência. Aos dez anos de idade, Jojo Bletzer, apelidado Rabbit, tem um abobalhado e assustador Adolf Hitler como seu amigo imaginário. O próprio diretor faz esse papel numa chave que lembra Sacha Baron Cohen (Borat). O sonho do menino é entrar para a Juventude Hitlerista, mas lhe faltam "atributos" de maldade para isso. Sua mãe, vivida por Scarlett Johansson em versão palhaça, mantém atividades estranhas para os padrões nazistas, como esconder uma jovem judia em sua casa. A interação da garota com Jojo vai colocá-lo em conflito com seu amigo imaginário.

O filme vai dialogar bem com uma plateia brasileira que vive hoje sob a égide da mais completa estultice.  (Voltar para a lista)



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Adoráveis mulheres




Feminista ou feminino? 
indaga Carlos Alberto em Carta Maior. O filme Adoráveis Mulheres (Little Women) inspirado no livro clássico de Louisa May Alcott publicado no fim do século XIX '' (...) depois de seis adaptações para o cinema oferece esta com a sua cara: jovial, energética e solar,'' ele escreve.

''O trepidante roteiro de Greta Gerwig encapsula as duas partes do livro original (Little Women e Good Wives) num vai-vem temporal nem sempre muito claro. Durante a Guerra Civil americana, fins do século XIX, as quatro irmãs March lutam contra a pobreza e pelos seus ideais artísticos ou familiares. Jo (Saoirse Ronan) é a mais independente e perseverante. Amy (Florence Pugh) é ambiciosa e competitiva. Meg (Emma Watson) é a mais sentimental e convencional das quatro. E Beth, a mais frágil e doce, porém caracterizada como apenas um rascunho no filme.'' (Voltar para a lista)



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Ford vs Ferrari




Retorna aos cinemas dia 6/02.


Para o crítico Carlos Alberto Mattos, o filme dirigido por James Mangold não é exatamente sobre esporte. "É antes um desfile dos ingredientes que compõem a cultura americana: competição, orgulho, dinheiro e vitória individual. A disputa entre a Ford e a Ferrari é uma disputa entre o modelo industrial americano, pautado pela eficiência da performance, e o espírito artesanal europeu, que privilegiava a beleza e o prazer."

Mattos observa, ainda, que Ford vs Ferrari ''articula essas ideias de maneira ligeira e superficial, numa opção narrativa próxima do western. Damon e Bale atuam como caubóis, um sóbrio e o outro caricato. O comportamento dos dois personagens tende ao pueril. Galos de briga motorizados."

Tecnicamente, o filme pareceu ao crítico "correto, mas sem brilho especial. A extensiva utilização de imagens sintéticas nas cenas de corrida, aliada a uma montagem dinâmica, não permite aferir a perícia de atores e dublês."

A produção, na disputa pelo Oscar de melhor filme, este ano, pode ampliar o conhecimento e o prazer dos aficionados pelo automobilismo esportivo de alta velocidade se for assistida complementada pelo excelente documentário do catálogo da Netflix com o mesmo título, Ford x Ferrari; em alguns países exibido como Le Mans '66.

O filme em disputa, que na primeira semana de exibição nos Estados Unidos fez uma bilheteria de 31 milhões de dólares, está indicado também em três categorias técnicas: mixagem, edição de som e edição.

A encenação da história real do duelo entre o grupo de Henry Ford III e os italianos liderados por Enzo Ferrari é relatada pela lente da trajetória de um lendário engenheiro que construiu os mais potentes bólidos das pistas, nos anos 60. Na época, foram a grande novidade em Le Mans.

Carroll Shelby, o engenheiro, é interpretado por Matt Damon enquanto Christian Bale encarna outro personagem histórico do automobilismo, o piloto de corridas de carros esportivos, Kenneth Henry Miles, morto em 1966, no autódromo de Riverside.

O fio condutor, porém, é o desafio permanente do grupo Ford trabalhando com a possibilidade de comprar a sofisticada Ferrari, à beira da falência, a qual acabou sendo vendida para Gianni Agnelli, fundador da Fiat. . (Voltar para a lista)



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História de um casamento



Disponível na Netflix

Seria mais adequado o título de História de um divórcio para o filme de Noah Baumbach, Mariagge Story, outro longuíssima metragem que fecha a lista teoricamente seleta de candidatos a melhor filme do ano. Um trampolim para o galã-feio-do-momento Adam Driver, excelente ator, e com um trio de intérpretes respeitável: Scarlett Johansson, Laura Dern e Alan Alda em breve aparição desnecessária.

História de um casamento é a versão metabolizada por doses de feminismo de Kramer vs Kramer, de 40 anos atrás, que na ocasião garantiu bilheterias bilionárias aos produtores.

Longo, repetitivo e recheado de chavões, com Scarlett Johansson beirando a histeria durante o percurso tedioso da narrativa, o filme mostra duas qualidades. Uma delas, o breve discurso da advogada interpretada por uma pernóstica Laura Dern (clichê) no qual sua personagem ressalta o duplo esforço das mulheres para serem reconhecidas em suas demandas (jurídicas ou não) em relação ao empenho básico dos homens.

Outra, a dedicação de Adam Driver carregando um filme machista, no qual o tiro sai pela culatra, nas suas costas, por tão longo período. No fim, ele parece exausto. (Voltar para a lista)










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