Cinema

Ouvir Coltrane é como olhar para o sol

Pérola de documentário sobre John Coltrane, um dos gigantes do jazz, 'Chasing Trane' tem trilha musical extraordinária e a mitológica suite Love Supreme do compositor e músico americano

22/03/2020 15:23

 

 
O documentário Chasing Trane (em tradução livre: Seguindo Trane), cartaz da Netflix, não é destinado apenas aos aficionados do melhor jazz produzido no século XX. São 90 minutos da mais fina música criada pelo gênio artístico do saxofonista americano John Coltrane que deleitam o espectador e o recuperam de eventual estresse ao qual está submetido pelo confinamento obrigatório e pela situação lastimável de óbvio desgoverno político da administração federal deste pobre país que nos coloca a todos em perigo maior.

O filme do americano John Scheinfeld é surpreendente. Reuniu depoimentos (e algumas frases musicais) de monstros sagrados do jazz das décadas dos anos 50/60 e 70. Dizzy Gillespie, Miles Davis, Charlie Parker, Winton Marsallis, Carlos Santana, Telonius Monk, Sony Rollins, Wayne Short (!) que desfilam, magníficos, comentando aspectos e lances da trajetória do colega e da excepcional figura humana que foi Coltrane. Ou Trane, como afetuosamente o chamavam os amigos e fãs ardorosos do saxofonista que morreu jovem, e já um ídolo, aos 40 anos de idade.

Mais surpreendente ainda são as diversas pequenas intervenções do ex-presidente Bill Clinton. Envelhecido e sem a máscara de falso sorriso de homem público, suas observações pertinentes a respeito da obra de Coltrane mostram a discreta emoção de um admirador fervoroso de Trane.

O filme passeia pela sua infância no estado da Carolina do Norte e segue o saxofonista precursor de uma nova forma de fazer jazz até o Birdland (o original) de Nova Iorque. Antes, segue a sua atuação no lendário quinteto de Miles Davis, e a festa do primeiro casamento, quando toda a banda de Davis apadrinhou o noivo. Também seu mergulho no inferno das drogas pesadas do qual conseguiu sair sozinho e sem ajuda médica.

O cenário de sua infância foi o de um país mergulhado na segregação, em violentas guerras raciais, com a Klu Klux Klan atuando livremente e, como diz Clinton, quando a '' música negra foi a resposta ao trauma e ao terror daqueles tempos.'' Tempos em que o rapazinho filho e neto de pastores batistas já tocava sax alto e clarineta.

'' Fazer os outros felizes'' era o que Trane desejava e comentava com amigos. Introvertido, homem de boa paz, pouco falante (''ele conta histórias com a sua música e com o seu sax,'' comenta Santana no filme), desenvolveu uma vida espiritual intensa e estudava história das religiões e as relações entre ciência, matemática e música. O músico e compositor também estudava Einstein e Filosofia e escutava com frequência música oriental.

Já se distingue esses movimentos em seu disco Prestige, de 1957. Ou no belíssimo Alabama, um réquiem à chacina na igreja da cidade de Birmingham onde quatro crianças negras morreram com a explosão de uma bomba. Kind of Blue é outro álbum de Trane, de 1959, com longos e lancinantes solos em companhia da banda de Miles. Eles fazem parte da trilha musical do documentário.

É Bill Clinton quem resume bem essa fase madura de Coltrane. ''Ele tinha adquirido uma consciência espiritual notável e isso transparece nas suas composições. O sax dele era um prolongamento de si mesmo.''

Um dos dois momentos mais especiais de Chasing Trane é a sua última excursão documentada com detalhes e em imagens, da viagem feita ao Japão onde fez questão, ao desembarcar em Nagasaki, de antes até de se hospedar no hotel, visitar o memorial da primeira bomba atômica lançada sobre a cidade onde se deteve por algum tempo, concentrado, com flores nas mãos.

O outro momento contém as sequências que registram a produção da sua obra prima, o disco Love Supreme. Uma suite extraordinária, de 1965, lançada com seu próprio quarteto e que merece o que seus companheiros, músicos e compositores, dizem dele no filme: ouvir Coltrane é como olhar para o sol.





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