Cinema

Pacarrete pode ser um estado de espírito

Com Marcélia Cartaxo, o filme sobre a bailarina cearense estréia em novembro, foi preparado durante doze anos pelo seu diretor, ganhou oito Kikitos no Festival de Cinema de Gramado deste ano e já foi mostrado em 38 festivais mundo afora

04/10/2020 13:57

 

 
Boa noticia: já está com data marcada para estrear - dia 26 de novembro - o filme Pacarrete, de Allan Deberton, que deveria ter sido lançado em abril passado e adiado por causa da Covid 19.

Um dos filmes mais elogiados e festejados pela crítica cinematográfica que o assistiu, Pacarrete já foi exibido em nada menos que em 39 festivais e ganhou oito Kikitos, o premio máximo do Festival de Cinema de Gramado, um dos mais tradicionais do Brasil.

Considerado Melhor Filme, Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Desenho Sonoro, desde então o filme coleciona vinte e sete prêmios em festivais lá de fora e agora seus produtores pretendem fazê-lo concorrer ao Oscar 2021 como representante brasileiro.



Primeiro longa-metragem de Allan Deberton, Pacarrete aborda questões como a loucura, os desafios de ser artista e o drama da velhice de uma bailarina clássica que gosta de ser chamada de Pacarrete – significado de “margarida” em francês. O filme é livremente inspirado numa conterrânea do diretor e demorou doze anos para ser realizado. Foi filmado na sua cidade natal, Russas, no Ceará, e ele tenta colocar na tela todas as lembranças da época, do lugar, “de quando ouvi falar dela pela primeira vez”, lembra o diretor.

Tornou-se um filme “movido por uma locomotiva de sensações”, ele explica. “Fico pensando nas inadequações e em como é triste ter que gritar para ser ouvido e para ser respeitado. Quem assiste ao filme sai modificado, eu tenho certeza, pensando em alguém não muito distante. Pode ser uma vizinha, uma tia, ou um senhor excêntrico. Pacarrete pode ser também um estado de espírito. É quando a gente vive quem a gente é”, completa o diretor.

Nascida e criada em Russas, Pacarrete alimentou desde criança o sonho de ser artista e viver a vida na ponta da sapatilha, mesmo vinda de uma cidade conservadora, onde nasceu para casar e ter filhos. Mas é em Fortaleza que ela conseguiu estar no centro dos holofotes como bailarina clássica e se tornou professora de balé.

Com a aposentadoria, ela retornou para sua cidade natal onde pretendeu continuar seu trabalho artístico, mas só encontra desrespeito à sua arte: em vez de platéias de admiradores e aplausos, ela se defronta com o despeito daqueles que cruzam seu caminho - e a bailarina e professora de outrora se transforma na “louca da cidade”. Arte para quê?

Para viver essa mulher que fez da aspiração de ser uma bailarina o objetivo de sua vida, Deberton convidou Marcélia Cartaxo, a excepcional atriz paraibana, vencedora do Urso de Prata do Festival de Berlim em 1985, por A Hora da Estrela. Amiga de Deberton e sua colaboradora, ela atuou e fez a preparação de elenco do primeiro curta-metragem de Allan Deberton, Doce de Coco.



“O Allan teve muita segurança de me convidar”, diz a atriz, “até mesmo porque eu não sou bailarina e nem tenho esse ouvido da personagem para música. A Pacarrete é muito culta: toca piano, fala francês e tem um corpo que fala todo o tempo. Foi um grande desafio de resistência e enfrentamento e fiquei muito feliz porque isso me mostrou que, se eu me esforçar bastante, consigo chegar bem longe”.

Para viver a personagem, Marcélia teve aulas de voz e canto, aprendeu francês e fez aulas de balé com a supervisão do coreógrafo Fauller e da bailarina cearense Wilemara Barros.

O elenco principal conta com as atrizes paraibanas Zezita Matos (das novelas Velho Chico e Amor de Mãe) e Soia Lira (Central do Brasil, Abril Despedaçado), o ator baiano João Miguel (O Céu de Suely, Estômago) e os cearenses Rodger Rogério (Bacurau), Débora Ingrid (A História da Eternidade), Samya de Lavor (Inferninho) e Edneia Tutti Quinto, além da participação de atores e atrizes da própria cidade. A preparação do elenco é de Christian Duurvoort (Ensaio Sobre a Cegueira, O Banheiro do Papa).

''Pacarrete faz justiça com uma mulher que pedia um palco e dizia, aos berros, que ainda iriam ouvir falar dela. Quando eu vejo a platéia em silêncio, sentindo o filme, tenho certeza que estão pensando na vida, no tempo que passa rápido e em alguém que passou e a quem não tivemos a oportunidade de pedir desculpas. O filme é como que um detalhe importante para gente prestar atenção. Quando o filme fez sua première em Xangai, no seu festival mais importante, eu fiquei pensando até onde a história de Pacarrete conseguiu chegar. E foi lindo em Gramado, e emocionante em Russas, na praça, quando a cidade parou para assisti-la”, finaliza o diretor.

O eixo central do filme se concentra numa bailarina, Pacarrete, que vive em Russas, no interior do Ceará. Na véspera da festa de 200 anos da cidade, ela decide fazer uma apresentação de dança, como presente “para o povo”. Mas parece que ninguém se importa.



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