Cinema

Pais e filhos

'Quase Memória', de Ruy Guerra, e o documentário 'Construindo Pontes', de Heloísa Passos, dramatizam, respectivamente, interações literárias e polarização política entre pais e filhos.

20/04/2018 14:16

 

 
O teatro da memória e do esquecimento

Duas idades de um mesmo personagem se encontram numa dobra do tempo em Quase Memória. Esse personagem é Carlos Heitor Cony, autor do romance original, que se põe em cena duplamente para recordar-se do passado e principalmente da figura paterna. Mas esse personagem é também Ruy Guerra, que aos 86 anos continua um jovem e ousado cineasta. A adaptação que ele fez do livro de Cony tem, ao mesmo tempo, a gravidade do velho que se bate nos desvãos da memória precária – o Carlos maduro do filme – e a euforia do pai relembrado como um inventor clownesco, mitômano e aventureiro apaixonado (João Miguel em estado de graça).



Uma assumida inflexão teatral anima esse 14º longa de Ruy. É numa sala-palco, posteriormente dotada de um telão eletrônico, que o jovem e o velho Carlos somam suas lembranças e esquecimentos para remontar o passado da família. As lembranças, por sua vez, introduzidas por imagens distorcidas, logo ganham formato, colorações e gestual teatrais, como a indicar que o ato de lembrar é sempre uma reencenação, uma falsificação. Ao mesmo tempo, esse teatro da memória é recriado por um trabalho de câmera minuciosa e ludicamente coreografado, e por uma montagem que dinamiza os pontos de vista para além das convenções do teatro. Coroando tudo, um tecido operístico (paixão do pai) lança mais uma camada de tempo e de significados.

“Onde há um contador (de histórias), não existe o acaso”, diz a certa altura o texto de Cony, que é também um sinuoso tratado de metalinguagem e paradoxo temporal. Enquanto os dois Carlos conversam e tomam uísque, a falta de memória do velho protege o jovem de conhecer o seu futuro. Mas, aos poucos, reconduzido pelas lembranças ainda frescas do jovem, o velho vai recobrando suas reminiscências, processo que culmina com um eletrizante monólogo de Tony Ramos. Ruy Guerra, dublando a voz de um sapo de pântano, assume o papel desse contador de imagens que não se contenta com a literalidade. Quase Memória é a invenção que atravessa o tempo e as idades para demolir a clausura do presente. Um filme espantoso.

A ponte impossível

Heloísa Passos é a mais destacada diretora de fotografia do cinema brasileiro, responsável pelas imagens de filmes como Mulher do Pai, O que se Move, 5 Vezes Chico, Lixo Extraordinário e Manda Bala. Em seu primeiro longa como diretora, Construindo Pontes, ela se mostra também uma filha inconformada com suas origens numa família paranaense que progrediu durante a ditadura civil-militar. O documentário é um embate permanente entre ela e o pai, engenheiro civil engajado em grandes obras do período ditatorial.

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Convicto defensor do regime militar, Álvaro diz sentir falta de "um projeto para o país" e, naturalmente, apoia as ações da Lava Jato contra o PT. Heloísa o contesta com indignação, mas com poucos argumentos. Isso desequilibra a balança contra si mesma, num projeto de filme que se lança em área extremamente arriscada. O pai se dispõe a colaborar, mas não compreende aonde a filha pretende chegar para além das discussões. No seu entender, um filme é como uma obra de infraestrutura. Precisa ter metas e prazos para ficar pronto. Para ela, o documentário é um processo em aberto que a levará a um ponto ainda desconhecido.

Quando o filme termina, esse ponto talvez continue desconhecido. Heloísa se perde entre refazer a cartografia dos trabalhos do pai no estado do Paraná e estimular os ecos de uma desavença familiar que vem de longe, desde que ela saiu de casa para viver com uma namorada. Num dado momento de bate-boca político, ela chega a desligar a câmera, alegando que "isso não é o filme". O que seria, então, nos perguntamos.

Algumas intervenções na imagem e uma bonita videoinstalação montada na usina de Itaipu sugerem o princípio narrativo de trazer à tona um passado submerso. As "sete quedas" de Heloísa são as imagens de uma infância de menina rica num país em plena modernização conservadora. Afora algumas afinidades esportivas, Álvaro condensa muito do que ela rejeita ("Não gosto de mim quando estou com meu pai"). Daí que a construção de uma ponte entre eles – se é que o título do filme contemplava essa intenção –, pelo menos no interior das cenas, acaba não se realizando.

Mais que tudo, Construindo Pontes é um exemplo da polarização política que se estabeleceu em tantas famílias brasileiras nos últimos três anos. Polarização que não é somente geracional e cultural, mas que remete ao cerne da consciência política e humanitária das pessoas.






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