Cinema

Paixão pela política em tempo de campanha

Clientelismo político e herança do coronelismo são expostos no documentário 'Camocim' que revela uma moradora da cidade do agreste de Pernambuco como jovem atriz intuitiva e carismática

16/09/2018 11:26

Divulgação

Créditos da foto: Divulgação

 

Camocim de São Felix, na Zona da Mata de Pernambuco, com população de 18 mil habitantes, costuma pegar fogo a cada quatro anos, em tempo de campanha eleitoral. Seu cotidiano tranquilo, de cidade do interior, ganha vida trepidante com as campanhas municipais durante as quais a cidade se divide em duas facções, e todas as pessoas parecem  gravitar em torno da política.

No meio desse turbilhão em que se transforma a cidade do agreste, região no passado habitada por índios – e daí a origem de seu nome com o significado de vaso, em tupi, referindo-se aos objetos ali encontrados em escavações arqueológicas - a jovem Mayara, de 23 anos, é a protagonista e o foco do documentário que acaba de estrear, no Rio de Janeiro e em São Paulo, de autoria do francês Quentin Delaroche. Atriz de carisma e desenvoltura cinematográfica notáveis, Mayara é moradora da cidade assim como diversos integrantes do elenco.

Nessa época de campanhas, ‘’nós comemos política, dormimos política, só pensamos e falamos sobre política, ’’ diz uma das personagens em um diálogo do filme Camocim, de Delaroche,  diretor, roteirista e operador de câmera de cinema e de televisão que se encontrava de passagem pela cidade, a trabalho, quando conheceu Mayara e o ambiente do lugar. Sentiu que essa paixão pela política naquele local poderia ser um bom argumento para um filme.

Mayara Gomes representa a coordenadora de campanha de 2016 de um amigo, Cesar Lucena, candidato a vereador do partido dos Azuis que se opõe ao grupo dos Vermelhos. Não há identificação ideológica na história. Ela é uma marqueteira séria e competente que procura fazer um trabalho “limpo” para eleger seu candidato.

O filme já foi apresentado no 50º Festival de Brasília (2017), e em certames de Recife, Tiradentes e Miami. Delaroche também  é o montador e fotógrafo. Autor de Marie, the cancer tamer e Nomad's Land, média metragens, e de Bloqueio, o cineasta agora mostra esse longa na competição do 51º Festival de Brasília.

Sobre o seu trabalho, ele diz, em entrevista:

‘’Há três anos comecei uma pesquisa, e queria retratar o interior do Pernambuco. Principalmente a herança do coronelismo e as gerações de dominação no sistema político atual. Tinha várias ideias de filmes e documentários diferentes, e passei um tempo no interior, quando percebi que todas as pessoas com quem eu conversava em algum momento falavam de política, davam sugestões, falavam do meu prefeito, do meu vereador. ’’

‘’Percebi que a política tem uma presença muito forte na vida das pessoas no interior, e decidi fazer um filme sobre uma campanha política. Camocim de São Félix tem um histórico de grande violência política, incluindo tiroteios dignos de um faroeste. A ideia era retratar de forma mais ampla a cidade, com vários personagens diferentes. ’’

Mas pouco antes do início da campanha ele, por acaso, conheceu Mayara na praça da cidade. ‘’Estava debatendo política com um amigo e fiquei encantado com o carisma dela, com as ideias, o desejo de mudar e de fazer política de verdade. ’’

O foco do filme então mudou e se concentrou na figura de Mayara e no universo dos cabos eleitorais que significa emprego temporário e muito trabalho, e radicalização condensada. “A avó não quis abraçar o neto vestido com camisa azul porque ela é do lado dos Vermelhos, ’’ conta uma personagem para a outra.

A agilidade de raciocínio e a vivacidade da moça moradora de Camocim se confundem com a força do seu desempenho dramático e a forte presença cinematográfica natural. Vale a pena vê-la.

‘’ Na eleição anterior, eu estava com os Vermelhos, ’’ Mayara comenta em uma entrevista. ‘’Fazia campanha para eles. Ali eu estava nos Azuis porque era o palanque em que meu candidato a vereador subia. Mas eu não sou muito da cor; o que me importa é a ideologia. Quando a gente propaga algo melhor, tentamos fazer com que isso vire realidade. Eu não vi isso na antiga gestão, e acabei descobrindo uma proposta muito melhor para a cidade, que a gente acabou seguindo. ’’

O filme é enxuto, conta com ritmo fluente porque é bem montado e comenta como, dentro da perspectiva ética, se desenrola uma campanha política honesta.

Seu recado vem de um Brasil profundo onde há uma geração nova pronta para assumir o protagonismo político em um país com a cara renovada.

“Uma campanha precisa ser horizontal, ’’ diz Mayara. “Precisa dar  voz às pessoas que devem falar sobre as necessidades delas; ao contrário das campanhas em que o candidato é quem determina quais as necessidades do eleitor. Depois que passa a eleição, candidato vencedor e povo acabam se distanciando um do outro.”

∴ Assista ao trailer de Camocim:



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