Cinema

Karim Aïnouz: "É impossível viver num mundo sem cinema"

O diretor cearense está no Festival de Cannes com mais um filme da sua obra luminosa e poética, 'Marinheiro das Montanhas'

08/07/2021 10:01

Karim Aïnouz, na 72ª edição do Festival de Cannes, em 2019 (Loic Venance/AFP)

Créditos da foto: Karim Aïnouz, na 72ª edição do Festival de Cannes, em 2019 (Loic Venance/AFP)

 
Divulgada a relação dos filmes que participarão do Festival de Cannes iniciado esta semana* e a se estender até o próximo dia 17, e depois da pausa forçada por conta da pandemia do evento máximo do cinema europeu no ano passado, eis que dois diretores brasileiros - entre os mais brilhantes em atividade no país - estão participando do certame.

Embora nenhum deles concorra à Palma de Ouro, o pernambucano Kleber Mendonça (do grande Bacurau) e o cearense Karim Aïnouz, autor de uma obra excepcional - Madame Satã, O céu de Suely, Praia do futuro, Aeroporto central, A Vida invisível, e com Marcelo Gomes, Viajo porque preciso, volto porque te amo - participam, o primeiro, do júri de Cannes, e Aïnouz, das chamadas Sessões Especiais, com seu aguardado filme mais recente e inédito, O marinheiro das montanhas.

Mendonça e Aïnouz representarão não só o Brasil, mas a América Latina num ano em que o Festival aposta na diversidade e contempla a presença e participação de autores do cinema das mais variadas partes do mundo.

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho (Reprodução/Telecine Play)

''A pandemia nos fez entender que um mundo sem cinema seria impossível'', registrou Aïnouz, em entrevista recente, a propósito dos novos significados do cinema na nossa vida mais introspectiva de hoje, e que se torna cada vez mais presente a partir do confinamento e das restrições sociais a que estamos destinados daqui para a frente, pelo menos num futuro próximo.

Para Karim, filho de pai argelino e mãe cearense, os momentos mais decisivos da sua carreira se deram em Cannes. Foi lá a estréia de Madame Satã, há cerca de 30 anos, e no foi no Festival da Riviera francesa que A Vida Invisível surgiu e ganhou o mundo. ''Agora até parece um retorno para casa."

O marinheiro das montanhas é um filme ''pessoal'', e o diretor, que mora e vive em Berlim há oito anos diz que sonhava fazer esse filme considerado por ele como ''seminal'' na sua obra.

Trata-se da história de amor entre seus pais, a brasileira Iracema e Majid, argelino, que se conheceram nos Estados Unidos. O casal se separou em 1965, quando ele retornou à Argélia e ela voltou ao Brasil, grávida. Karim só veio a conhecer o pai aos 20 anos.

Julia Stockler, Karim Aïnouz e Carol Duarte (Pascal Le Segretain/Getty Images)

''Essa história habitou o meu imaginário desde que eu me entendo por gente; e de algum modo transformá-la em filme foi o que me levou para o cinema''.

O tema do abandono permeia toda sua obra cujos roteiros têm como co-roteirista o excelente e premiado diretor (filme Não devore meu coração) Felipe Bragança, carioca de 41 anos egresso da Universidade Federal Fluminense e criado entre a Baixada Fluminense e o Centro do Rio de Janeiro. Assim como Karim, outro poeta.

Quando lançou Aeroporto Central, Aïnouz deu uma entrevista à Revista IBDFAM/Família e Sucessões, do Instituto Brasileiro de Direito Família, na sua 50a. edição trazendo o tema Arte e Direito juntos na disseminação do conhecimento. Nesse seu belo documentário, que não chegou aos cinemas porque na época logo se iniciou a pandemia em sua fase mais crítica, ele acompanha o cotidiano de dois refugiados, um sírio e outro iraquiano, no aeroporto inativo de Tempelhoff transformado em imenso parque de alojamentos para refugiados, em Berlim, num bairro próximo da sua casa - o filme está disponível nas plataformas de streaming Now, Vivo Play, Oi Play, iTunes, Google , Filme Filme e Looke.

Nessa entrevista, o cineasta observou que seus filmes trazem personagens colocados à margem de formas diferentes, mas sempre ''por razões injustas''.

O Marinheiro das Montanhas, de Karim Aïnouz (MPM Film/Divulgação) 

“No cinema, não me interesso em falar da distopia que era onde estávamos antes da pandemia,'' ele disse.

Onde ver os outros filmes de Amin Aïnouz:

Madame Satã (2002) |
Cinebiografia traz Lázaro Ramos na pele de João Francisco dos Santos (1900-1976), que ficou conhecido como Madame Satã, figura famosa na noite carioca na primeira metade do século XX. O filme enfoca o período em que o artista, homossexual e transformista, começa a fazer performances em um cabaré e comete seu primeiro crime. Disponível no Now.

O Céu de Suely (2006) | No passado, a jovem Hermila (Hermila Guedes) abandonou o sertão cearense para tentar a vida com o namorado em São Paulo. Abandonada e com um filho para criar, ela retorna à cidade-natal e volta a se encontrar com um antigo namorado, o que não diminui seu desejo de tentar a vida longe dali. Para isso, adota o nome Suely e planeja um novo recomeço. Disponível na Tamanduá TV.

O Abismo Prateado (2013) | Violeta (Alessandra Negrini) é surpreendida com uma mensagem deixada em seu celular: o marido avisa que está partindo para Porto Alegre. Em busca de uma explicação, ela vai à procura dele na capital do Rio Grande do Sul. A história é baseada na canção Olhos nos Olhos, composta por Chico Buarque, e rendeu a Negrini o prêmio de melhor atriz no Festival de Holanda, além de outros três troféus. Disponível no Now.

Praia do Futuro (2014) | Ayrton (Jesuita Barbosa) tem grande admiração pelo irmão Donato (Wagner Mouro), que trabalha como salva-vidas em uma praia de Fortaleza. Um dos banhistas salvos é Konrad (Clemens Schick), um alemão piloto de moto que acaba despertando a paixão de Donato e faz com que ele parta para Berlim, deixando o irmão para trás. Disponível no Telecine Play, Google Play e YouTube Filmes.
 
A Vida Invisível (2019) | Os desencontros entre as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), afastadas pelas convenções dos anos 1940, atravessam as décadas seguintes. O filme mostra aborda a opressão histórica às mulheres e suaa luta por afirmação e igualdade. Vencedor da mostra Um Certo Olhar, em Cannes. Disponível no Telecine Play, Google Play e YouTube Filmes.

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*Dicas para fim de semana da ABI/Associação Brasileira de Imprensa.

Resenhas em Carta Maior

O aeroporto da esperança | Karim Aïnouz, também um imigrante, observa as rotinas e procedimentos do abrigo de imigrantes instalado no tradicional aeroporto Tempelhof, em Berlim

Praia do Futuro: O imenso mar de Karim Aïnouz | Os (poucos) espectadores que se sentem insultados com as duas lindas sequências de sexo entre os rapazes deveriam sair também do armário; não do cinema.

Mulheres: um acessório dos anos 50 | O filme do cearense Karim Aïnouz trata das vidas truncadas e invisíveis das mulheres de um Brasil nem tão distante que festeja O Dia Internacional da Mulher e a luta pela autonomia e independência da população feminina.

Sobre Bacurau | A força artística, intelectual e política de Bacurau se assenta em suas metáforas. Construções complexas, instigam no espectador a vontade de decifrá-las. Inseridas numa composição fragmentária, estimulam a leitura alegórica, engendrando formas polissêmicas de percepção e compreensão.

Bacurau, alegoria do pequeno que resiste | A pequena Bacurau é facilmente vista como representação de uma parte do Brasil que não deveria existir pelos padrões do governo Bolsonaro

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Filmes competindo no Festival de Cannes 2021

• Annette, de Leos Carax (França)

• A Feleségem Története (The Story of My Wife), de Ildikó Enyedi (Hungria)

• Benedetta, de Paul Verhoeven (Holanda)

• Bergman Island, de Mia Hansen-Love (França)

• Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi (Japão)

• Flag Day, de Sean Penn (EUA)

• Ha’berech (Ahed’s Knee), de Nadav Lapid (Israel)

• Casablanca Beats, de Nabil Ayouch (Marrocos)

• Hytti Nro 6 (Compartment nº 6), de Juho Kuosmanen (Finlândia)

• The Worst Person in the World, de Joachim Trier (Noruega)

• La Fracture, de Catherine Corsini (França)

• The Restless, de Joachim Lafosse (Bélgica)

• Paris 13th District, de Jacques Audiard (França)

• Lingui, de Mahamat-Saleh Haroun (Chad)

• Memoria, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)

• Nitram, de Justin Kurzel (Austrália)

• France, de Bruno Dumont (França)

• Petrov’s Flu, de Kirill Serebrennikov (Rússia)

• Red Rocket, de Sean Baker (EUA)

• The French Dispatch, de Wes Anderson (EUA)

• Titane, de Julia Ducournau (França)

• Tre Piani, de Nanni Moretti (Itália)

• Tout s’est Bien Passé, de François Ozon (França)

• A Heros, de Asghar Farhadi (Irã)

*Com informações da RFI



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