Cinema

Para mudar uma sociedade é preciso destruí-la antes

Filme 'Privacidade hackeada', que acaba de ser lançado, revela esta ideia básica da empresa Cambridge Analytica utilizada ainda hoje pelos seus aprendizes para justificar violação de dados pessoais de eleitores roubados do Facebook e WhatsApp na campanha de Trump, no Brexit e no Brasil, na eleição de 2018

26/07/2019 18:51

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Esta semana, acaba de ser lançado em vários países simultaneamente, na plataforma digital Netflix, o fascinante documentário de quase duas horas, Privacidade hackeada, (The great hack), uma produção terminada no final de 2018 com legendas em cinco idiomas, inclusive o português. O filme é uma bomba que esclarece de uma vez por todas, em linguagem para leigos das grandes platéias, o escândalo do roubo de dados pessoais de nada menos de 87 milhões de usuários do Facebook que os transferiu (ou vendeu?) para a empresa britânica de "relações públicas" Cambridge Analytica sem o conhecimento deles e - o que é pior - sem o consentimento dessas pessoas.

Os dados serviram para convencer, emular e estimular eleitores indecisos na campanha presidencial que deu a vitória a Donald Trump em 2016 e no plebiscito do Brexit o qual, por pequena margem de votos, favoreceu a saída da Inglaterra da União Europeia.

O trabalho dessas "cleptocracias digitais" se deu (e continua ocorrendo embora a Cambridge tenha sido desativada), agindo sobre grupos dos eleitores definidos por eles como "os presumíveis". Eleitores indecisos em suas escolhas, pessoas "caladas" e impressionáveis que não decidem facilmente o seu voto.

A Cambridge Analytica e o seu amigo americano Steve Bannon, à época um assessor privilegiado de Trump, e quem o apresentou à empresa, além de terem interferido em eleições na Ucrânia, Lituânia, Nigéria, Romênia, Quênia, Índia e Malásia agiram também na Argentina, em 2015 e no Brasil, em 2018 como registra o filme, com a imagem do atual presidente brasileiro sendo empossado pelo seu antecessor.

Era controlada pelo poderoso SCL Group, empreiteira do governo e do exército britânico que diz trabalhar num mix de pesquisas de segurança alimentar, combate a drogas e campanhas políticas. Um dos seus diretores é Lord Ivar Mountbatten. Primo da Rainha Elizabeth II.



O documentário estreou no Festival de Cinema de Sundance no início deste ano e começou a ser divulgado há pouco, no começo da campanha presidencial de Trump de 2020.

O timing da sua estréia é perfeito: esta semana, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos deve multar o Facebook em cinco bilhões de dólares pela violação de privacidade. E o ex-procurador americano Robert Mueller, que investigou a suposta interferência russa nas eleições de 2016, algumas das quais teriam ocorrido no Facebook, testemunhou, durante sete horas, em audiência no Congresso na última quarta-feira.

O escândalo também levou ao primeiro depoimento de Mark Zuckerberg perante o Congresso Americano - o filme registra em detalhes o nervosismo e a hesitação do CEO do Facebook nas respostas ambíguas - e provocou investigações no Reino Unido, na Índia e no Brasil, lembra The great hack, com as suspeitas de eleições fraudulentas e o zap "claramente implicado" no escândalo dos robôs e da enxurrada de mensagens com notícias falsas disparadas em tempos exíguos em favor do candidato Bolsonaro.

O doc mostra com clareza o lado sombrio da Internet com o advento do Facebook (e do WhatsApp), ferramentas concebidas para tornarem realidade o sonho de um mundo mais unido e mais fraterno que, ao contrário, foram transformadas em máquinas de propaganda utilizadas para dividir populações e difundir medo, ódio, fake news e fazer o jogo pesado da extrema direita: dividir para conquistar, como ocorre em diversos países, Brasil entre eles.

Com a espionagem do comportamento dos eleitores e analisando seus perfis e personalidades para melhor manipulá-los, "o mundo real se tornou uma ruína", observa-se no filme.

O bombardeio de vídeos, anúncios, artigos e blogs completam o serviço. São publicados e direcionados a perfis dos "presumíveis" até que os eleitores vejam o mundo como determinados candidatos em uma eleição desejam que ele seja visto.

"Usamos o Facebook como uma plataforma de propaganda", defendeu-se, cinicamente, Alexander Nix, o CEO da Cambridge Analytica em audiência na Justiça, em Londres. A americana Brittany Kayser, ex-executiva da empresa e delatora da Cambridge no segundo momento do processo contra o grupo, disse, candidamente, numa audiência: "São táticas de comunicação usadas como arma". As conhecidas psycos, as guerras psicológicas do século 21.

Uma das ideias mais funestas que nortearam a operação da empresa – que continua sendo sustentada por Steve Bannon, ex-diretor-executivo da campanha de 2016 de Trump e especialista emérito em vazamento de notícias e fake news - é repetida regularmente pelo atual presidente brasileiro: "Se queremos mudar fundamentalmente uma sociedade primeiro temos que destruí-la".

É o que está se passando no Brasil.

"Eu posso parar de ser manipulado? Você pode?", perguntam os diretores do doc, a cineasta americana Jehane Noujaim e o diretor egípcio Karim Amer, ele integrante do grupo de jovens produtores com Geralyn Dreyfous, que vem de Harvard e foi agraciada com um Emmy; de Judy Korin, que vem de Yale e produziu o premiado filme The Square e do brasileiro Pedro Kos, montador do documentário Lixo extraordinário.



A empresa de Nix foi fechada. Mas daqui por diante, nesta Nova Era que se inicia, será difícil termos eleições livres e justas com dados pessoais de eleitores ainda sendo sequestrados e usados contra nós mesmos.

As ações na Justiça britânica solicitando a "devolução" de seus dados estão travadas. A pergunta central da campanha de recuperação de dados é esta: "Sequestro de dados pessoais não é violação de direitos humanos?".

Cada vez mais os países ocidentais são forçados a pensar sobre o que significa soberania da internet. Na esteira da recente interferência eleitoral nos Estados Unidos, no Brasil e em diversos outros países, políticos ocidentais acordaram para a ideia de que uma internet aberta pode realmente chegar a prejudicar a integridade da democracia e da soberania nacional.

Mas pode também fechá-la. É a dúvida.

Uma das grandes discussões do futuro próximo, já ensaiada em alguns fóruns de organismos internacionais, e para além do tema da preservação (tardia?) do meio ambiente, (embora vista pela ignorância do atual governo brasileiro como uma "psicose maníaca"), é a defesa das fronteiras digitais das nações.

Chineses e russos pesquisam seriamente o assunto e já contam com alguns dispositivos próprios, redes que competem com o Facebook. Este, recentemente, capitulou diante da pressão crescente exigindo regulamentação governamental em certos países para determinar, entre outras coisas, o que constitui conteúdo prejudicial: discurso de ódio, propaganda terrorista e muito mais.

Recomendamos The great hack para quem quer entender o mundo desta nova era com honestidade. "Não estamos falando de ferramentas típicas de filmes de James Bond", alerta esse doc. Nem ele traz teorias de conspiração.

Trata-se de uma porta de reflexão para encontrar uma posição justa entre a tensão dos desejos autoritários de regular a comunicação digital e de não limitar os benefícios que ela pode trazer.



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