Cinema

Pasolini sempre atual: Estamos todos em perigo

Em sua última entrevista, Pasolini afirmou: 'estamos todos em perigo'. Era uma referência ao mundo do hipercapitalismo e da brutalidade.

13/11/2015 00:00

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Créditos da foto: divulgação

Como viveu o seu último dia de vida, em Roma, é o tema do filme de Abel Ferrara, agora em cartaz (Pasolini/2014) no Brasil, sobre aquele que, na opinião de vários intelectuais, foi um dos últimos e legítimos pensadores europeus. Trata-se de mais uma homenagem cinematográfica ao poeta, crítico, cineasta, jornalista, a quem, no seu passaporte, sempre preferiu que registrassem, com simplicidade e abrangência: “escritor”.
 
Naquele dia 01 de novembro de 1972, o diretor e autor de alguns dos mais célebres clássicos do brilhante cinema italiano dos anos 60/70, autor de O Evangelho segundo São Mateus (64), Teorema (68), Medeia, de 69; Decameron (71) e Os 120 dias de Sodoma (Saló), de 1975, entre vários outros filmes inesquecíveis, naquele dia ele acordou e levantou da cama, na casa onde vivia junto da sua adorada e idosa mama, leu os jornais da manhã, deu instruções à diligente secretária (sua prima), e trabalhou, na máquina de escrever, em um roteiro do que seria sua próxima produção, no escritório do apartamento romano. Voltara de Estocolmo na véspera e aguardava a hora do almoço e a visita da atriz Laura Betti (interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros), uma grande amiga e, à tardinha, esperou o jornalista Furio Colombo. O repórter, depois, se tornou célebre por ter sido o último a conversar com Pier Paolo, o Pierucci. Nesta entrevista, ele alertava, influenciado pelas suas leituras de Marcuse, a quem admirava: “Estamos todos em perigo”. Era uma referência ao mundo do consumismo, do egoísmo, das sociedades de massas, da brutalidade, do hipercapitalismo e da obrigatória permutação do conceito de cidadão pelo de consumidor. Um mundo que, previu, estava por vir. E veio.  
 
Na última noite, dirigindo o seu Alfa Romeo, Pasolini foi ao encontro, numa cantina popular, de Ninetto Davoli, um dos mais frequentes atores dos seus filmes, a jovem mulher do rapaz e o filho recém-nascido do casal. Mais tarde saiu, escolheu um garoto de programa, na rua, como era seu costume, e levou-o para jantar em outro local. Horas depois, em um arrabalde de Ostia, a praia popular próxima de Roma, quando começava a fazer sexo com o rapaz, na escuridão de um terreno baldio, foi abordado, insultado, espancado, massacrado, atropelado pelo próprio carro e assassinado.
 
Na Roma da época, cidade provinciana na qual as histórias de uns e de outros eram conhecidas e comentadas por todos e, é claro, nas redações dos jornais, sabia-se da vida de ‘todo mundo’. Pasolini frequentava jovens gigolôs extremamente perigosos e conhecia bem os riscos que corria. Jornalistas de mais idade, de Roma, ainda hoje garantem: não houve qualquer mistério político no episódio do seu assassinato.
 
O filme de Ferrara encerra com as imagens em preto-branco do velório e enterro do corpo de Pasolini onde se vê os principais dirigentes da política italiana, que na época fervia, mais atores, atrizes, intelectuais, povo. Lá está inclusive Enrico Berliguer, o líder do poderoso Partido Comunista Italiano na época, mesma agremiação que expulsara de seus quadros Pier Paolo, pouco mais de vinte anos antes, por ocasião de um episódio obscuro envolvendo sua homossexualidade e no qual ele era acusado de atentado público ao pudor.
 
Alberto Moravia também se encontrava no velório que comoveu toda Roma. É dele o belo elogio fúnebre (que não está no filme): ”Qualquer país seria feliz de possuir Pasolini entre os seus filhos. Perdemos, sobretudo, um poeta - e os poetas não são tantos no mundo; só nascem uns quatro num século. Os poetas deviam ser sagrados.”
 
A homenagem cinematográfica do americano Ferrara é um recorte da vida do cineasta, assim como se produz uma foto instantânea. Mostra um homem frio, introvertido e distante. Ferrara prefere apresentar o mito ao homem.
 
É um filme rebelde, como todo o cinema de Ferrara e de outros que se poderia dizer ‘herdeiros’ do italiano que viveu a adolescência e parte da juventude na sua Bolonha vermelha (por muitos anos administrada pelo PCI). Derek Jarman, Gus van Sant, Glauber Rocha, Bernardo Bertolucci - este, ainda bem jovem, chegou a trabalhar com o mestre e é admirador confesso.
 
Ferrara intercala sequências de Saló -, ainda hoje elas são de enorme impacto - e de Petrolio, filme pouco conhecido, na trajetória das últimas 24 horas do diretor. No segundo, faz lembrar  o episódio da queda do avião, alguns anos antes, no qual viajava Enrico Mattei, nacionalista do petróleo italiano. Um desastre criminoso que se encontra no filme O Caso Mattei, de Francesco Rosi, de 73.
 
Há quem tenha criticado duramente William Defoe, um ator com trajetória também muito própria, semi-independente, no papel de Pasolini. Não é justo. Ele encarna o italiano com paixão e não apenas pelo seu trabalho, o filme de Ferrara vale ser visto pelos que apreciam o cinema italiano da época e a filmografia do autor de Decameron.
 
Para aprofundar e contextualizar essa visão do filme de Ferrara, vale o comentário do pesquisador do trabalho de Pasolini, o professor de cinema da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e historiador, Luiz Nazario: “Foi esse aburguesamento do povo ocorrido nos anos de 1960, na Itália do “milagre econômico”, pela massificação da TV e da publicidade, que Pasolini chamou de “genocídio cultural” ou de “homologação”.  (...) "É possível que (NR: o filósofo) Agamben tenha herdado de Pasolini seu pessimismo intelectual, mas, como filósofo burguês, seu desespero não é tão físico e concreto – tão apocalíptico – quanto o de Pasolini."
 
Como este seu pensamento sobre liberdade, política e esperança: “Não acredito que tenhamos mais qualquer forma de sociedade na qual os homens sejam livres. Não se deve esperar por isso. Não se deve ter esperança de nada. Esperança é algo inventado pelos políticos para manter o eleitorado feliz”.
 
O Pasolini de Abel Ferrara se encerra com Maria Callas, uma outra grande amiga de Pier Paolo, cantando, divinamente como de hábito, a ária Una voce poco fa, do Barbeiro de Sevilha. Nenhum espectador consegue sair da sala aguardando o último trinado desse lamento impressionante da Callas.
 
* Jornalista








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