Cinema

Patrício Guzmán premiado em Cannes: A fidelidade à memória latinoamericana

'A Cordilheira dos sonhos' é o novo documentário do chileno e vem fechar a sua trilogia sobre a ditadura de Pinochet

28/05/2019 11:30

 

 

Aos 77 anos, o cineasta chileno radicado em Paris, Patricio Guzmán, autor de duas obras primas que vêm se juntar a essa terceira de agora, A Cordilheira dos sonhos, acaba de receber no Festival de Cannes o premio L'Oeil d'Or concedido ao Melhor Filme Documentário apresentado este ano.

O chileno fecha assim, de modo brilhante, segundo a crítica cinematográfica presente em Cannes, a sua bela e trágica trilogia iniciada com Nostalgia da luz, de 2010, e seguida de O botão de pérola, de 2015, ambos resenhados por Carta Maior.

Nos três docs Guzmán mergulha na realidade do seu país para abordar a repressão da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Este seu filme de agora é uma metáfora da história chilena na qual ele conta sua infância no país, o Chile do passado e o atual.

Na sua premiação, o júri destacou: "Guzmán não deixa de celebrar o amor dos chilenos pela liberdade e pela justiça social".

Na cerimônia de entrega do troféu, em mensagem lida pelos produtores do filme, o diretor cumprimentou o Festival "no qual, a cada ano, se abre um espaço para o filme documentário o que é um reconhecimento ao trabalho dos documentaristas". O filme foi o único representante do cinema chileno, em 2019, em Cannes. No espaço de cinco anos, três documentários premiados com esse prêmio foram sul-americanos.

Mas ao selecionar A cordilheira dos Sonhos para ser apresentado este mês, o diretor do mais célebre festival do mundo, Thiery Fremaux, escreveu: "Patricio Guzmán deixou o Chile há 40 anos quando uma ditadura militar derrubou um governo democraticamente eleito. Mas ele nunca deixou de pensar no país, na sua cultura, num lugar no mapa que ele nunca esqueceu".

O premio de Melhor Documentário foi dividido com For Sama, no qual a síria Waad al-Kateab e o britânico Edward Watts trazem o espectador para a dramática realidade cotidiana do conflito na Síria. O filme é baseado nas gravações que Waad fez, antes de abandonar seu país.

Em entrevista concedida há sete anos, quando esteve em São Paulo, o documentarista chileno deixou observações firmes sobre o gênero de cinema que faz.

Disse: "O documentário é um direito do cidadão. Assim como há um dever público em prover saneamento básico, tem que haver documentários, por lei, por obrigação. É o registro de um país, é o álbum de fotos de um país".

E acrescentou palavras que servem de alerta para os brasileiros e são extremamente atuais: "Acredito que a memória não é um conceito intelectual, não é um conceito universitário, não é um conceito acadêmico. A memória é completamente dinâmica; digamos, ela está dentro do nosso corpo".

"Os países que praticam a memória são mais vívidos, mais criativos, fazem melhores negócios, melhor turismo, são mais distintos, são melhores. Os países sem memória são anêmicos, não se movem, são conformistas, e caem numa espécie de cultura de sofá, gente que está sentada no sofá assistindo a televisão… e não se movem. Acredito que a memória é um conceito tão importante quanto a circulação do sangue".

Aqui, um trecho de A cordilheira dos sonhos e o trailer do documentário For Sama:





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