Cinema

Pena de vida, pena de morte

Frieza, honra, culpa e sacrifício. Cada um desses elementos carimba uma das quatro histórias contadas magistralmente por Mohammad Rasoulof em ''Não Há Mal Algum''. Na Mostra de Cinema de SP

22/10/2020 11:18

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Frieza, honra, culpa e sacrifício. Cada um desses elementos carimba uma das quatro histórias contadas magistralmente por Mohammad Rasoulof em Não Há Mal Algum (Sheytan vojud nadarad), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano. Rasoulof (Manuscritos Não Queimam) é mais um diretor iraniano proibido pelo governo de filmar, mas que – estranha e felizmente – continua a dirigir filmes cada vez melhores dentro do seu próprio país.

Os quatro contos que se sucedem na tela – com uma surpreendente relação entre dois deles, ilustrada pela canção Bella Ciao – falam de pena de morte, que no Irã é administrada pelo estado com carrascos profissionais ou recrutados entre jovens soldados. A denúncia mais aguda do filme é sobre os benefícios oferecidos a quem se dispuser a "puxar o banco" para o enforcamento dos condenados. Afora o fato de que o serviço militar por dois anos é compulsório para os rapazes que quiserem assegurar a emissão de documentos e o desfrute de uma vida normal.



No primeiro episódio, assistimos a um dia na vida de um pai de família comum, levando mulher e filha ao supermercado, à lanchonete e à casa da mãe. Só na derradeira tomada é que vamos compreender a expressão sempre impávida do homem e os momentos de ausência em que ele parece fixar o nada. Ouso dizer que, no contexto do episódio, é um dos planos conclusivos mais arrepiantes da história do cinema.

O segundo conto mostra a crise de consciência de um soldado nas horas que antecedem sua obrigação de executar um prisioneiro. Na relação com os companheiros de dormitório surgem circunstâncias macabras de um sistema que força pessoas a matar como forma de garantir um futuro razoável. O desfecho é absolutamente inesperado e temporariamente celebratório. A visita de outro soldado à casa de sua namorada no campo ocupa a terceira história, quando o rapaz vai se confrontar com uma dívida moral inesperada que pode mudar o rumo de sua vida. Por fim, no último episódio, um homem recluso recebe a sobrinha vinda da Alemanha em sua casa nas montanhas para uma revelação ligada ao seu passado.



O método narrativo de Rasoulof, também autor do roteiro, é semear perguntas no espectador e criar um suspense que só se desata nas cenas finais. Por mais reticências que haja nessa estrutura, os sinais estão lá para alimentar nossa expectativa. Atores brilhantes e uma fotografia panorâmica majestosa, tanto em Teerã quanto nas sinuosas estradas iranianas, contribuem para fazer de Não Há Mal Algum um filme esmerado, intenso e corajoso na sua conjuntura.





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