Cinema

Pequena usina de cinema independente

Um drama entre irmãos rodado em Portugal e um documentário sobre as conquistas dos movimentos sociais no Uruguai são destaques na mostra Cavídeo 22 Anos, no Rio

07/08/2019 17:13

Uruguai na Vanguarda (Reprodução)

Créditos da foto: Uruguai na Vanguarda (Reprodução)

 
A Cavídeo, dínamo da produção independente carioca, comemora 22 anos com uma mostra de 8 a 14 deste mês no Estação Net Botafogo (Rio de Janeiro). Serão exibidos sete novos longas e sete curtas, além da realização de cinco homenagens e vários debates, sempre às 21 horas. No sábado, as crianças contarão com uma sessão infantil às 11 horas.


Na abertura, quinta-feira às 21h, o casal anfitrião apresenta seus mais recentes filhotes: o curta Manifesto de uma Cineasta e o longa Fado Tropical. O curta, dirigido a quatro mãos por Cavi Borges e Patricia Niedermeier, é adaptado de um trecho da peça-filme O Censor, em cartaz numa sala do mesmo complexo. No papel da cineasta radical que afirma sua convicção libertária perante as forças obscurantistas, Patricia integra à tela a performance que costuma fazer no palco diante das imagens de filmes eróticos dirigidos por mulheres. O resultado, como sempre, é de grande beleza.

Fado Tropical

Fado Tropical fecha a trilogia de filmes de viagem de Cavi e Patricia, iniciada com Salto no Vazio (2017) e Reviver (2019), este também incluído na mostra. Trata-se do mais reflexivo e mais dramático dos três. Patricia e Jorge Caetano, que acumulam o crédito de roteiristas, vivem dois irmãos há muito tempo separados, mas com uma ligação intensa no passado. Ele mora em Lisboa, ela é cineasta e vai a Portugal para mostrar seu novo filme. O reencontro despertará grandes emoções à sombra da lembrança do falecido pai.


Fado Tropical

É do espírito da trilogia imbricar os argumentos de cada filme com as locações em que se passa. Aqui é Portugal que parece ter inspirado o tema da ancestralidade, dos laços de família, pertencimento e herança que tomam a frente quando a química do parentesco se instala e desequilibra o que está dado como rotina. Para atender a um desejo do pai, Antonio e Isabel (nomes tão lusitanos) viajam ao Cabo da Roca e a Óbidos. Atendendo a seus próprios caprichos, visitam Sintra e alguns pontos de Lisboa, enquanto fazem o balanço de suas memórias, sentimentos e ressentimentos.

Embora tenham momentos de deleite nos passeios e nos encontros com amigos portugueses de Antonio, os dois irmãos vivem principalmente a tensão de coisas que não são ditas completamente, nem mostradas por inteiro. Com um inverno português a açoitar corpos e consciências.

Sergio Ricardo

O curta Na Rota do Vento, programado para a sexta-feira, é uma homenagem ao compositor, cineasta, ator (e pintor) Sergio Ricardo, assinado a seis mãos por Cavi Borges, Marina Lutfi (filha do homenageado) e o montador Victor Magrath. Com provável inspiração no documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha, desfilam cenas memoráveis dos filmes de Sergio, editadas segundo padrões temáticos e de movimento.


Na Rota do Vento

A favela, o trabalho, a luta política, a dança e o amor estão no centro de filmes como O Menino da Calça Branca, Esse Mundo é Meu, Juliana do Amor Perdido, A Noite do Espantalho e Bandeira de Retalhos. As imagens se entrecruzam em ritmo exultante, ligadas pelas canções de Sergio, até o apoteótico plano do abraço do casal rodado por Dib Lutfi em Esse Mundo é Meu. O subtítulo do curta, O Cinema na Música de Sérgio Ricardo, foi o mote de recente show de sucesso do compositor e expressa o encontro dos múltiplos talentos desse nosso grande artista.

Uruguai na Vanguarda

O longa de sexta-feira mostra a história por trás dos avanços sociais e políticos que fizeram o país de José "Pepe" Mujica ser chamado de "Suíça das Américas".

Garantia de direitos trabalhistas, lei de cotas, equidade de gêneros, reconhecimento político da diversidade sexual, matrimônio igualitário, interrupção voluntária da gravidez, regulamentação do uso da maconha – todas essas conquistas do povo uruguaio nos últimos 30 anos estão na pauta do documentário Uruguai na Vanguarda. A coprodução Brasil-Uruguai da Urbano Filmes é dirigida e produzida por Marco Antonio Pereira.

Com a participação de cientistas políticos e sociais, historiadores, ativistas, educadores, políticos e artistas, o filme vai atrás das raízes desses movimentos que colocaram o pequeno país da América do Sul na linha de frente da justiça social no século XXI.

Nenhum processo histórico surge de repente. Os depoimentos colhidos por Marco Antonio Pereira remontam às reformas do battlismo, na primeira metade do século XX, quando se firmou o estado laico no Uruguai e criaram-se as bases de uma sociedade reformista e progressista. A ditadura civil-militar instalada em 1973, que durou 12 anos, interrompeu esse processo, mas criou um lastro de resistência que iria florescer nos movimentos sociais a partir de meados da década de 1980.

Foi quando os diversos agrupamentos reivindicatórios começaram a se articular e se fortalecer mutuamente, estimulados pela vitória da Frente Ampla esquerdista em 1990. Estava aberto o caminho para os futuros governos de Tabaré Vasquez (2005-2010 / 2015-2020) e José Mujica (2010-2015). Os movimentos sociais levavam, enfim, suas causas das ruas para as agendas do poder político.

Uruguai na Vanguarda aborda cada aspecto importante dessa bela história de triunfos sociais. Destaca a participação das mulheres na saída da ditadura e na descriminalização do aborto. Ressalta o papel dos jovens na liberação do uso controlado da maconha. Enfatiza o lugar do candombe, o tradicional ritmo de tambores africanos, na resistência contra o autoritarismo e na luta contra o racismo dissimulado num país que recalca sua parcela afrodescendente.

Através dos múltiplos pontos de vista enfocados, o filme traz, ainda, uma discussão sobre a identidade nacional uruguaia. Fala-se de um país que se pretende "europeu", domesticamente tranquilo e internacionalmente avançado, mas por outro lado contraditório e com bolsões de hipocrisia. Ou seja, nem o inferno, nem o paraíso.

As vozes também se levantam para criticar a inutilidade prática de algumas leis, que só beneficiam pequenas parcelas da sociedade ou sobrecarregam os cidadãos de exigências a ponto de desestimularem o seu uso. A vanguarda tem um preço, e no caso do Uruguai esse preço é seguir lutando pela ampliação dos direitos e por formas mais participativas de democracia.

Uruguai na Vanguarda tempera sua análise histórica com um olhar poético sobre Montevidéu, suas praças e ruas ora sossegadas no cotidiano, ora tomadas pela pulsação dos frequentes atos políticos. Um ponto da cidade que merece atenção especial é o antigo cortiço "Medio Mundo", no Barrio Sur, tido como o berço do candombe. Seus moradores foram desalojados pela ditadura em 1978, e o local é hoje uma réplica sem alma. Mas os tambores jamais se calaram.

A trilha sonora do documentário reúne sucessos de Ana Prada e outros compositores uruguaios, incluindo milongas e candombe.





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