Cinema

Petra Costa e seus concorrentes

A concorrência é dura, mas 'Democracia em Vertigem' não está fora do páreo do Oscar de longa documentário.

29/01/2020 16:26

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
Navegue pela lista:
*Democracia em Vertigem – Como um país muda de pele
*Indústria Americana – Choque de fábrica
*Honeyland – A mulher dos olhos de mel
*For Sama ­­– Diário de uma mãe síria
*The Cave – Hospital do desespero

A polarização política está se refletindo em cheio na reação dos brasileiros à indicação de Democracia em Vertigem para o Oscar de longa documentário. Quem se coloca no front progressista ou é menos afeito às paixões políticas torce para que o filme de Petra Costa conquiste a estatueta dourada. Já os bolsominions e a malta conservadora em geral, somados ao gado ignorante que os segue, esperam que dê com os burros n'água. A forma mais comum de expressão do despeito e da insatisfação dessa gente foi vocalizada pelo então Secretário da Cultura, o nazistófilo Roberto Alvim, e prontamente ecoada pelo Twitter oficial do PSDB: dizer que se trata de um "filme de ficção" ou "de fantasia".

No próximo dia 9, os prêmios serão entregues em Hollywood e Democracia em Vertigem não está fora do páreo. A ressonância do filme tem sido grande nos EUA, onde o governo Trump lidera os ataques aos valores democráticos. De alguma maneira, o documentário de Petra diz muito sobre o avanço da extrema-direita em diversas partes do mundo nos últimos anos. Embora ancorado na realidade brasileira, é praticamente um filme global.

É preciso reconhecer, porém, que a disputa é dura. Há dois filmes com relativo favoritismo entre os cinco indicados. Indústria Americana é outro documentário de grande apelo na atualidade, já que expõe dilemas entre os sistemas econômico estadunidense e chinês. E leva a vantagem de ser produzido pelo casal Obama, que tanta saudade desperta na população. Honeyland, por sua vez, é um queridinho da crítica e dos festivais, podendo ganhar pelo aspecto afetivo. Não se pode desprezar tampouco a força dramática dos dois concorrentes sírios, For Sama e The Cave.

A seguir, trago de volta minhas resenhas dos cinco indicados ao Oscar de longa documentário.  (Voltar para a lista)

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Democracia em Vertigem –
Como um país muda de pele


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Num dado momento de DEMOCRACIA EM VERTIGEM, disponível na Netflix, Petra Costa diz que não sabe como contar o que vai começar a contar. É uma passagem sobre o envolvimento da família dela com o poder. A construtora Andrade Gutiérrez é uma das maiores empreiteiras do país e tem seu nome em placas instaladas no Palácio do Alvorada durante os governos Collor e Lula por "ações voluntárias" de restauração. Os governos entram e saem, mas o poder econômico estava sempre por lá.

Aos olhos de Petra, alguma coisa parecia mudar com a Operação Lava Jato. Grandes empresas, ou seja, parte da elite estava sendo destruída num projeto de aniquilação da esquerda. Em troca de quê? É o que o filme e todos nós nos perguntamos nos dias de hoje. A análise que esse esplêndido documentário faz da situação desde 2013 vai muito além do processo de derrubada do PT e ascensão da extrema direita. O que vemos é o destampar de uma caixa de Pandora. É o achincalhamento da democracia através do golpe institucionalizado e da reiteração de uma vocação nacional para a escravidão, o golpismo e a selvageria.

"Não sei como contar isso", diz Petra. Talvez houvesse pensado assim inúmeras vezes nos últimos anos. O desafio, de fato, era gigantesco. Como não se limitar a um resumão de fatos já conhecidos? Por muito tempo nos perguntávamos até onde ia seu filme, que nunca ficava pronto? Petra parecia não parar nunca de filmar. Como iria resolver essa narrativa sem fim?

Ao que tudo indica, ficou claro para ela – como para qualquer pessoa inteligente – que o fim de todo aquele processo seria mesmo a prisão do Lula, objetivo maior da Lava Jato, cada vez mais claro agora com os vazamentos do Intercept. Assim, o ato de entrega de Lula à PF em São Bernardo do Campo virou o ponto nevrálgico do filme, onde ele começa e acaba. O resto foram os meios para se chegar a esse fim.



DEMOCRACIA EM VERTIGEM joga com dois trunfos inestimáveis. Um deles é a autoinserção da diretora no discurso narrativo, plenamente motivado pelo fato de seus avós maternos pertencerem à elite conservadora do país e seus pais terem lutado contra a ditadura e serem de esquerda. Petra se identifica com os pais e não dissimula isso para chegar ao que seria uma visão pretensamente distanciada das paixões em jogo. É do seu ponto de vista de ruptura com os antepassados mais distantes que ela constrói esse olhar de perplexidade e mesmo horror diante da democracia agonizante. Para quem nasceu na primeira metade dos anos 1980, praticamente junto com a redemocratização do país, e deve seu prenome a Pedro Pomar, fundador do PCdoB assassinado pela repressão, ver a chegada de Bolsonaro ao poder é como morrer um pouco.

Petra conduz a história da ascensão de Lula e do PT em paralelo ao seu próprio crescimento e a suas alegrias, procurando entender os caminhos dos governos petistas sem deixar de criticar as alianças e práticas políticas condenáveis adotadas. Mais uma vez, é Gilberto Carvalho o autor de reflexões lúcidas e serenas sobre os erros do partido enquanto estava no poder. A cineasta envolve ainda sua mãe, Lian Andrade, numa conversa com Dilma, uma vez que ambas estiveram encarceradas no presídio Tiradentes, o tal Torre das Donzelas.

A cumplicidade desse encontro exemplifica o outro grande trunfo do filme, que são as cenas exclusivas de momentos íntimos dos protagonistas. No encontro com Lian, Dilma admite que não queria ser presidente para não perder "a imensa liberdade de ser anônima". Aceitou porque Lula não lhe deixou opção. "Ele faz política de fato consumado", diz ela.

Petra contou com o cinegrafista adicional dos sonhos de qualquer um que estivesse documentando esses fatos: Ricardo Stuckert, o fotógrafo oficial de Lula. Por conta disso, e do acesso que ela mesma conquistou, vemos flagrantes preciosos de Lula cumprimentando Dilma no instante em que foi anunciada sua primeira eleição (e ela dizendo "o senhor inventou essa"); o último dia de Lula e Marisa no Planalto em 1.1.2011; Lula falando ao telefone que ia ser nomeado ministro da Casa Civil (depois vetado pelo STF); e sobretudo os derradeiros momentos de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo antes de se entregar à PF, medindo a pressão ao lado do colchão onde dormiu sua última noite de relativa liberdade.



Na extraordinária montagem do filme (feita a 12 mãos mais 18 adicionais!), dois momentos se destacam pelo teor dramático e de revelação. No primeiro, Petra chama atenção para a tensão e a coreografia de Michel Temer na cerimônia de posse da Dilma, evidenciando já ali seu alheamento em relação ao que se passava. No outro, a edição destaca o olhar misto de indignação e desafio de Dilma diante de um Congresso faminto para metralhá-la na audiência do impeachment.

Quando permite a Bolsonaro exibir sua fanfarronice autoritária no seu gabinete decorado por fotos de presidentes generais, Petra conclui a sequência com uma consideração lancinante: "Grande parte da minha família votou nele. Na cosmologia de Bolsonaro, militantes como os meus pais deveriam ter sido assassinados".

Essa implicação pessoal e familiar traz o filme do campo jornalístico para a esfera do sentimento político, que não é matéria de pouca nobreza. Na sua voz mansa e doce – voz de quem, como em Elena, fala de alguém ou alguma coisa que amava e que perdeu –, Petra faz a história de um desencanto. O país muda de pele a olhos vistos em 1 hora e 53 minutos de filme. Da esperança democrática passamos a uma forma constrangedora de autoritarismo popular que poucos de nós julgávamos existir adormecido.

Em termos de linguagem documental, DEMOCRACIA EM VERTIGEM difere bastante de O Processo, de Maria Augusta Ramos, que trabalhava com a observação não textualmente opinativa, embora claramente comprometida com o lado ultrajado no golpe. É interessante que, numa conversa com José Eduardo Cardozo em pleno processo, Dilma se compare com Joseph K., o personagem de Kafka, com a vantagem de ter um advogado.

São dois filmes absolutamente complementares, como se o de Maria Augusta fosse uma costela retirada do de Petra e ampliada em suas minúcias. Numa hora em que a parcialidade da Lava Jato fica escancarada pela Vaza Jato e o herói Moro descobre seus pés de barro, vai se completando a paisagem cinematográfica sobre esses anos de farsa e ódio. Petra Costa nos traz – e para dezenas de países ao mesmo tempo pela Netflix – uma percepção pessoal e à altura da dramaticidade do que temos vivido.   (Voltar para a lista)



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Indústria Americana –
Choque de fábrica


Em cartaz na Netflix: CLIQUE AQUI

Antes do crack de 2008 seria difícil imaginar o que vemos no documentário INDÚSTRIA AMERICANA (American Factory).Operários americanos se humilhando perante patrões chineses, abrindo mão do poder sindical e sujeitando-se a salários pífios em troca de garantia no emprego. O cenário é a fábrica de vidro para automóveis Fuyao Glass America, aberta em 2015 no lugar de um fábrica GM fechada em 2008 em Dayton, Ohio. Grandes magnatas chineses têm investido pesado na indústria americana desde 2010.



Desfrutando de acesso privilegiado ao chão de fábricas, reuniões internas e celebrações corporativas, nos EUA e na China, os diretores Steven Bognar e Julia Reichert perfazem uma radiografia excepcional do choque de culturas e de modos de vida entre americanos e chineses, designados a trabalharem juntos na planta de Ohio. O filme acompanha também uma visita de operários americanos à Fuyao chinesa, onde testemunharam (alguns supostamente encantados) a retórica da moderna escravidão corporativa made in China. A empresa é decantada como família e virtualmente religião, em moldes que muito se assemelham ao culto político da Coreia do Norte. Enquanto isso, os operários trabalham em turnos de 12 horas, sem medidas de segurança, nem folgas semanais.

Perante o modelo chinês, os trabalhadores americanos são vistos como preguiçosos, falastrões e excessivamente folgados. A ideia de sindicalização é demonizada sem meias palavras. Em torno disso se desenrola boa parte do doc, na medida em que o sindicato tenta se estabelecer na Fuyao America. Uma revelação importante é a existência nos EUA de "consultorias antissindicais", contratadas pelos patrões para desestimular o engajamento dos empregados.

Julia Reichert é tida como a madrinha do cinema independente americano, tendo já sido indicada três vezes ao Oscar de documentários. Ela e Steven Bognar colheram diversos ângulos dessa relação com grande senso de oportunidade e muita perícia na aproximação dos personagens. INDÚSTRIA AMERICANA revela uma nova face da famigerada globalização e anuncia seu recrudescimento com o avanço da automação e do consequente desemprego.

A importância do tema e, certamente, a reputação de Julia atraíram o interesse do casal Obama, que estreou com esse filme sua produtora Higher Ground. A Netflix exibe como bônus uma pequena conversa dos diretores com Michelle e Barack sobre o assunto.   (Voltar para a lista)



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Honeyland –
A mulher dos olhos de mel


Um dos fortes candidatos à indicação para o Oscar de documentário, HONEYLAND tem despertado indagações sobre seu estatuto de “filme do real”. Na verdade, trata-se de um híbrido. De um lado, é um documentário bastante planejado e filmado com cuidados mais comuns em filmes de ficção: construção de cenas em campo e contracampo, iluminação pictórica de interiores, sequências visivelmente encenadas. De outro, alimenta-se no favo de um cotidiano captado com legitimidade evidente.

Afinal, questões como essas tornaram-se irrelevantes desde que Flaherty filmou Nanook, o primeiro grande híbrido. Dali em diante, acumularam-se experiências nessa fronteira, bastando lembrar A Alma do Osso, de Cao Guimarães, ou os documentários de “realidade inventada” do dinamarquês Jon Bang Carlsen.

HONEYLAND, de Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov, enfoca a rotina rústica de Hatidze Muratova, uma apicultora das montanhas da Macedônia do Norte que vive da venda do seu apreciado mel no mercado de Skopje, a capital. Um belo dia ela vê seu santuário natural ser invadido por uma família de apicultores gananciosos.



A dinâmica do filme se instala no contraste entre, de um lado, a solidão de Hatidze e sua velha mãe enferma, seu trato carinhoso e harmônico com a natureza das colmeias; e, de outro, a algaravia grosseira da família nômade, sua imprudência e comportamento predatório. A princípio, a boa mulher estabelece um vínculo de solidariedade e simpatia, especialmente com as crianças. Mas a interferência danosa dos novos vizinhos vai ameaçar a convivência.

HONEYLAND é uma parábola cativante sobre os vínculos profundos e sustentáveis do homem com a Natureza, em oposição à mentalidade puramente extrativista. Ao mesmo tempo, é o retrato de uma mulher isolada do mundo, mas cuja vida rudimentar não lhe retirou a doçura e o afeto. O último plano do filme nos revela que também os olhos de Hatidze têm a cor do mel.   (Voltar para a lista)




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For Sama ­­
– Diário de uma mãe síria


As imagens mais antigas que vemos em FOR SAMA são de 2012, quando estourou a revolta contra o ditador Bashar Al-Assad em Aleppo, norte da Síria. A jovem jornalista Waad Al-Kateab filmava a revolução na esperança de vê-la vitoriosa. Seguiu filmando quando as forças do regime reagiram e iniciaram uma série de bombardeios sobre Aleppo, culminando com o cerco que destruiu rapidamente a cidade. Nesse período, em plena guerra, Waad casou-se com o médico amigo Hamza e tiveram uma menina, Sama, a quem o filme é dedicado como carta de uma mãe que busca a compreensão da filha no futuro.

O filme, finalizado em conjunto com Edward Watts, é extraordinário por diversas razões. Antes de mais nada, pelo sangue frio de Waad em persistir no registro de sucessivos massacres. Ela e Hamza criaram um hospital de emergência, que seria bombardeado e reconstruído em outro local até ficar sendo o único de pé na cidade. A câmera não nos poupa da visão dantesca de feridos e moribundos chegando às centenas por dia no auge de um cerco que mirava também escolas e hospitais.



Em dado momento, Waad se dirige à filha, ainda bebê, para perguntar se ela vai perdoá-la por tê-la exposto a tantos perigos, enquanto muitos trocavam Aleppo pelo exílio. É o que nos perguntamos também diante de uma persistência que chega à fronteira da irresponsabilidade. Mas Waad e Hamza tinham uma missão: denunciar o horror ao mundo e tentar salvar o máximo possível de vidas, mesmo pondo em risco as suas próprias e da filha.

Entre o hospital, a casa e as ruas devastadas, FOR SAMA expõe ainda a intimidade da vida sob ataque. O pânico dos mísseis, as carências básicas de alimentação, água e eletricidade, as crianças brincando com os destroços e os momentos de relaxamento, quando os adultos se permitiam rir e fazer piada com a desgraça. Waad e Hamza, assim como a família dos seus melhores amigos, são pessoas do bem e de alto astral, o que torna ainda mais selvagem o contraste com a guerra.

A pequena Sama, testemunha muda e inocente, faz com que o olhar da mãe-cineasta se interesse especialmente pelo destino das crianças na guerra. Este é o foco mais dramático e incisivo: crianças morrem diante de sua câmera, outras choram os irmãos mortos, outras são salvas milagrosamente ou simplesmente expõem no rosto o supremo pavor que se segue a um massacre. No limite do dramaticamente suportável, este documentário se junta a outros que entram para a história do cinema com a marca trágica de Aleppo.   (Voltar para a lista)



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The Cave –
Hospital do desespero


Como For Sama, também semifinalista ao Oscar de documentário, THE CAVE se passa num hospital de emergência na guerra da Síria. Al-Ghouta, subúrbio de Damasco, era alvo constante de bombardeios de aviões russos durante os cinco anos em que esteve cercado pelas tropas de Bashar al-Assad. The Cave era o apelido de um hospital subterrâneo ligado a uma cadeia de túneis onde a população buscava refúgio. Com recursos mínimos, sem medicamentos e com alimentação racionada, um grupo de médicos e enfermeiros conseguiu salvar milhares de vidas, colocando as suas em risco permanente.



O filme é dirigido por Feras Fayyad, o mesmo do também impactante Últimos Homens em Aleppo (2017), que retratava o trabalho de um grupo de voluntários no resgate de vítimas da guerra naquela cidade. Agora Fayyad se aferra à Dra. Amani, a jovem frágil fisicamente, mas forte de espírito, que gerencia o hospital e três membros de sua equipe: o devotado Dr. Salim, que se desdobra em cirurgias ao som de música clássica no celular quando lhe falta anestesia; a cozinheira Samehr, expansiva quase sempre mas tomada de crises de pânico durante os bombardeios; e a doce enfermeira Alaa. Todos irmanados pelo senso de dever perante a tragédia de sua cidade.

Enquanto For Sama tinha sua narrativa organizada em primeira pessoa pela diretora e cinegrafista Waad al-Kateab, THE CAVE é menos pessoal e mais observacional. A direção força um pouco a construção do protagonismo em torno da Dra. Amani em cenas introspectivas que não soam lá muito legítimas e chega a imprimir um close dos olhos da moça à espera de uma lágrima. Apesar desses senões, o testemunho que Fayyad nos oferece do estresse e dos horrores da situação é inestimável. O desespero dos médicos quando veem que nada mais podem fazer pelos seus pacientes em estado terminal, incluindo tantas crianças, é coisa que toca profundamente a medula da nossa humanidade.

É preciso dizer também que nem todo mundo tem nervos fortes para suportar tal exposição de feridos e de casos extremos. Ao apegar-se à pura rotina do hospital, o doc concentra os momentos dolorosos e se torna repetitivo como a própria guerra. O uso de música espetaculosa na sequência do atendimento a vítimas de um ataque com armas químicas é como um projétil que deveria ter sido extirpado da carne do filme.   (Voltar para a lista)





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