Cinema

Pobres moços

Em épocas e contextos muito distintos, o mexicano 'Chicuarotes' e o austríaco 'A Tabacaria' mostram jovens em conflito com seu meio social

05/09/2019 15:50

Chicuarotes (Divulgação)

Créditos da foto: Chicuarotes (Divulgação)

 
México sem saída

Nos momentos mais líricos, Chicuarotes pode lembrar os dramas periféricos de Pasolini, como Accattone e La Ricotta. Nas passagens mais dramáticas, se aproxima das exacerbações de Iñarritu. Entre esses dois pólos, o segundo longa dirigido por Gael García Bernal traça um perfil áspero do subúrbio de San Gregorio Atlapulco, na Cidade do México, cujos habitantes são apelidados de "chicuarotes", alusão a uma pimenta muito forte e dura plantada naquela área.

A pobreza e a brutalidade, combinadas, criam um beco sem saída para os adolescentes Cagalera (Benny Emanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal). A primeira sequência é exemplar da situação: vestidos de palhaços, eles pedem dinheiro num ônibus. Diante da indiferença geral, partem para uma exigência bem mais agressiva. O hiperativo e imprudente Cagalera e o tímido e compassivo Moloteco formam uma dupla memorável enquanto escalam degraus da criminalidade e, munidos de uma ingênua e falsa esperteza, tentam driblar adultos abusivos e violentos .



Bernal dirige com mão firme um roteiro escrito há 13 anos por Augusto Mendoza. O humor incômodo dos dois primeiros atos não deixa de anunciar o fatalismo trágico que advirá para os personagens. Cagalera se lança num golpe decisivo para tentar fugir daquele lugar, sonho encapsulado numa caixa de fósforos com a marca de Las Vegas. A câmera na mão e o ritmo acelerado dão um sentido de urgência à narrativa, mas cedem também a interlúdios onde a humanidade dos jovens vem à tona com alguma poesia. O uso das locações, a boa sugestão de ambientes e o colorido da linguagem popular são outros pontos de destaque.

O roteiro é engenhoso na criação de variantes originais para temas clássicos como a corrupção policial, o sequestro e o roubo de loja. Pequenas incongruências, como a repentina submissão do hediondo pai de Cagalera à mulher, e uma impressão de exagero na reação da turba ao comando do açougueiro não prejudicam muito a eficácia de um filme capaz de persistir por um bom tempo na memória.


Entre charutos e suásticas

As sinopses oficiais de A Tabacaria destacam a amizade entre o jovem Franz e Sigmund Freud. Mas essa é apenas uma – e não a mais importante – das três linhas narrativas do filme de Nikolaus Leytner. Franz emigra de um local idílico no interior da Áustria para Viena à época da ascensão do nazismo e vai conhecer de perto a violência contra socialistas, judeus e os que os toleram. O rapaz chega com a libido à flor da pele e terá uma iniciação amorosa traumática.

Costurar esses três vetores de maneira orgânica, a partir do desejo, dos sonhos e da tomada de consciência de Franz, é uma qualidade do roteiro, baseado no best-seller Der Trafikant, de Robert Seethaler (trafikant, na Áustria, é dono ou vendedor de tabacaria). O texto publicitário na caixa de charutos cubanos (forma fálica) sintetiza a equação: "Feitos por homens corajosos e enrolados nas coxas de belas mulheres".



Freud não explica no filme, mas o cândido (a princípio) Franz está em busca de um pai cuja companhia não teve e de uma mulher que se parecesse com sua fogosa mãe. O primeiro, ele encontra no próprio Freud e no patrão, o dono da tabacaria, um mutilado da I Guerra que se opõe à extrema-direita. A segunda toma a forma de uma moça atraente que lhe desperta imediata paixão. A descoberta do horror nazista – a realidade anunciada já na chegada à estação de trem – completa sua formação e sela seu destino.

Os cuidados com a reconstituição de época em estúdio e com a boa atuação do elenco são outras virtudes do filme, mas que não disfarçam os seus pontos fracos. Um recurso recorrente e irritante são as reações imaginárias de Franz, que a todo momento interrompem a narrativa realista com uma "pegadinha" para o público. Como representação da vontade reprimida, são primárias e repetitivas. Da mesma forma, os muitos sonhos com água e vertigens, e a presença surreal de insetos parecem gratuitos, uma vez que não ecoam, como era de se prever, na relação do garoto com as teorias de Freud.



O pai da psicanálise é interpretado com discrição por Bruno Ganz, que lamentavelmente ficou marcado pelo Hitler de A Queda e todos os seus memes. Quando a perseguição antissemita enfim o atinge, é como se víssemos um personagem de Ganz se voltar contra o outro.

A Tabacaria é bem intencionado e obediente às convenções do romance de formação. Se não alcança um patamar superior é por tratar seus temas com superficialidade e não oferecer um traço de distinção especial.





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