Cinema

Poema de amor a um lugar e sua gente

Vencedor dos festivais de Brasília e Turim (Itália), 'Temporada' encanta pelo carinho com que trata seus personagens e pela extraordinária atuação de Grace Passô

18/01/2019 12:27

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 

Com uma filmografia que não para de crescer em qualidade e maturidade, André Novais Oliveira e sua produtora Filmes de Plástico chegam ao nível de absoluta excelência em Temporada. O filme ganhou cinco prêmios no Festival de Brasília, inclusive os de melhor filme e melhor atriz, as mesmas categorias em que também foi premiado no festival italiano de Turim. Trata-se de uma espécie de comédia neorrealista ambientada na periferia de Contagem, cenário de vida e de todos os filmes do diretor. 

Perdoem o chavão, mas o bairro é realmente um personagem atravessado pelos demais. Condição essa evidenciada numa das mais belas sequências do filme, quando os comentários de um morador são cobertos por imagens das ruas e do casario.

Por ali circulam cinco inspetores de saúde pública em rondas de combate à  dengue. Visitam as casas, revistam quintais e lajes. Ao fim e ao cabo, estão na missão de salvar vidas. Temporada, no fundo, lida com isso. Os pequenos gestos cotidianos com que as pessoas se salvam umas às outras.

O fio condutor é Juliana (Grace Passô), recém-chegada do interior de Minas para integrar o grupo. Juliana é ajudada por uma prima enquanto não consegue fazer contato com o marido, que sumiu do emprego. O título do filme alude a esse período de transição na vida de Juliana, quando ela tem a chance de descobrir a diferença entre solidão e liberdade.



Temporada é um filme encantador em muitos aspectos. A maneira como André Novais - também autor do roteiro original - constrói o arco dramatúrgico é de uma delicadeza e eficácia perfeitas. Não há qualquer curva ou pontuação que não pareça provir espontaneamente das experiências vividas ou mencionadas pelos personagens. Tudo está nas deliciosas interações de Juliana com os colegas e com os moradores, com destaque para a comovente visita a Dona Zezé, mãe e estrela de filmes anteriores de André (Quintal, Ela Volta na Quinta) em sua última aparição antes de falecer.

Sem cair em estereótipos de mineirice, o filme exala um humor irresistível nas conversas, que parecem não sair de um roteiro escrito, mas brotar do simples contato entre os atores. O elenco, aliás, é a força motriz de Temporada, formando um conjunto tão coeso e "autêntico" quanto vemos nos filmes de Robert Guédiguian. Mesmo assim, é impossível não ressaltar a extrema sabedoria de Grace Passô na condução da personagem de Juliana em todas as minúcias de sua situação. Estou cada vez mais convencido de que Grace é a sucessora de Fernanda Montenegro no panteão das grandes atrizes brasileiras.



Quem também ganha espaço considerável para se destacar é Russo Apr no papel do colega Russão, responsável pelas mineirices mais impagáveis que se ouve no filme.

Acima de cada atributo individual (fotografia, trilha musical, edição, cenografia) paira a sensibilidade de André Novais Oliveira na construção desse poema de amor a seu lugar e sua gente. A combinação de fluência dentro das cenas e controle estético do quadro, a justeza de tom e de ritmo, e a convivência harmoniosa do drama e da comédia fazem de Temporada um doce deleite, como se dizia antigamente.



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