Cinema

Polanski confinado

Vale a pena assistir ou ver de novo, em casa, ''O oficial e o espião'', de Roman Polanski, com suas alusões às farsas do Brasil de hoje

20/05/2020 19:08

 

 
No dia 12 de março passado, uma quinta-feira, estreou em grande circuito de cinemas brasileiros o filme O oficial e o espião. Logo depois, no fim daquela semana, Carta Maior e praticamente toda a mídia publicavam, com destaque, resenhas sobre o mais recente filme de Roman Polanski. Ele acabara de receber três prêmios Cesar, o maior troféu do cinema francês: Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Figurino. E tinha sido também Grande Premio do Júri do Festival de Veneza de 2019.

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Na semana seguinte começava a quarentena no eixo Rio - São Paulo disseminada em seguida por todo o país. Os cinemas foram fechados e o filme desapareceu das telonas.

A celeuma em torno do novo filme de Polanski se justificava por várias razões: a excelência do trabalho do diretor ao longo da sua trajetória com a produção de clássicos memoráveis; os prêmios recém conquistados, e os ruidosos protestos de grupos de feministas inconformadas com a liberdade e o sucesso profissional permanente do diretor na França, onde ele vive em liberdade não respondendo às acusações de estupro de 50 anos atrás da justiça americana.

 J'Accuse discute um aspecto complicado: o antissemitismo dentro das forças armadas francesas ( até hoje, diz-se) e exposto no histórico processo conduzido de forma indecorosa - uma farsa - que culminou com a expulsão do exército do capitão Alfred Dreyfus, um dos raros judeus militares e acusado de espionagem e alta traição, sentenciado a prisão perpétua, incluída nela torturas, na Ilha do Diabo.

As gerações jovens na primeira metade do século XX devem lembrar do caso Dreyfus quando ainda era comentado com paixão, no Brasil, nas rodas progressistas de classes médias, em discussões sobre racismo, preconceitos, discriminação das minorias e a ligeireza, caso se pode dizer assim, da Justiça militar.



Logo se veria que a Justiça civil, no Brasil, seria cooptada (com exceções honrosas) num processo injurioso que começaria no início dos anos 60 com a preparação para o golpe político que foi dado e deixando a Justiça militar inteiramente à vontade para cometer despropósitos em processos inconsistentes e sentenças injustas e criminosas.

O filme de Polanski faz rememorar esses idos entre nós, da Justiça Injusta, nos fazendo também retornar ao processo do ex-presidente Lula da Silva, às mirabolantes acrobacias da Lava Jato que usaram, no caso, a lei como arma a seu favor e recursos jurídicos indevidos (lawfare) para atender a interesses particulares. E aos lances da Vaza Jato, sobre a qual quase não se fala mais.

A pandemia e o descalabro de Brasília assumiram um protagonismo urgente e escandaloso no lugar da novela da Justiça Injusta e do processo contra Lula.

Só agora tivermos ocasião de assistir a esse Polanski brilhante que alude para nós aspectos do autoritarismo desgovernado e da rigidez hierárquica dos corpos militares (trabalhando quando necessário, junto com forças policiais) os quais vêm sendo, infelizmente, observados, aqui, mais uma vez.



Os porões da inteligência dessas forças, a rudeza e ignorância dos meganhas, o corporativismo, e do outro lado, o das altas patentes, os privilégios, a vaidade, o deslumbramento social, o prestígio conferido pelo poder indiscriminado e a discriminação de classes dentro desse universo uniformizado. Está tudo lá, no filme que evidentemente foi realizado pelo cineasta meditando sobre seu próprio processo judicial. Ele é responsável também, junto com Robert Harris, o autor do livro An Officer and a Spy, pelo roteiro adaptado ao cinema.

Em J'Accuse assistimos às ações e reações violentas dos que gritam, nas ruas: ''morte a Zola'' e ''morte aos judeus.'' O cinismo de juízes e a leviandade de técnicos grafologistas contratados para examinar autenticidade de caligrafia em documentos; as ''provas'' que são negadas aos advogados de defesa. ''Se esses documentos não foram escritos por Dreyfus são de algum outro judeu que aprendeu a copiar com ele,'' dizem os generais.

E a observação: '' Quando uma sociedade chega a este ponto", escreve Zola no seu J'Accuse, ''é sinal de que ela está desintegrada.''

Há também referências à ''degradação de valores morais e artísticos por parte dos judeus,'' os ''inimigos'' da hora. Eles poderiam ser comunistas, homossexuais, os velhos, os negros, indígenas, ecologistas, os ''vagabundos'', os chineses dependendo da conjuntura.

O filme é concentrado no personagem do coronel Georges Picquart, ator Jean Dujardin, excelente na finura da sua interpretação, e que vai se firmando como um dos melhores intérpretes do cinema francês. Picquart descobriu, por acaso, a farsa do processo do capitão (Louis Garrel) e pediu sua reabertura. Professor da Escola de Guerra e de quem Dreyfus era aluno, é um ''homem do mundo'', cosmopolita, culto, militar da elite, confessadamente avesso aos judeus, mas inexorável na aplicação justa das leis. É o detonador da revisão do caso.



Há igualmente uma menção, mas que não se aprofunda, ao papel decisivo da mídia no caso, com o editorial de primeira página do jornal L'Aurore (tiragem de incríveis 300 mil exemplares na época), o J'Accuse ( Eu acuso ) escrito por Émile Zola; naqueles tempos era um escritor na moda, de grande prestígio e evidência. O texto da sua carta aberta ao presidente da república de então passou à história e convulsionou a população.

Alguns momentos são exponenciais para sublinhar a elegância e o rigor do cinema de Polanski: a sequência de abertura do filme, imbatível; os dois diálogos incisivos, curtos e frios entre o capitão e o coronel; o encontro do oficial de elite com o policial ignorante na galeria da escultura de Apolo, no museu do Louvre. Compensam a bonita Emmanuelle Seigner, mulher do diretor, que se mostra perdida no seu personagem e a montagem às vezes confusa no desenvolvimento da narrativa.

É oportuno relembrar O oficial e o espião, um filme que ficou submerso, mal foi lançado no circuito cinematográfico, por uma avalanche (bem vinda) de cartazes novos, reprises, clássicos reapresentados, documentários e sucessos do cinema nacional, todos para assistir no streaming.

É um Polanski disponível no NOW e deve ser visto - ou revisto. Devido a sua qualidade e pela alusão ao quadro político e social vivido por nós neste momento assustador de intolerância e abuso de poder e com um futuro mais do que nunca incerto.







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