Cinema

Pólvora e melancolia

Junto ao peso taciturno dessa história contada por um velho decrépito que sofre com o desamor da filha, 'O Irlandês' tem também um humor de tintas patéticas

18/11/2019 09:57

 

 
Em substância, não há nada de muito original em O Irlandês (The Irishman). Se Martin Scorsese não estivesse tão jovial e cheio de vida, podia-se dizer que fez um filme-testamento, reunindo temas e atores caros a sua filmografia (e à de Francis Coppola também). Mais um filme de máfia, carregado de tempero ítalo-americano, mais melancólico que violento, quase tão divertido quanto melancólico. Ainda assim, um belíssimo filme.

Ao longo de 60 anos, Frank Sheeran (Robert De Niro) passa de soldado criminoso na II Guerra a matador a soldo da máfia, sindicalista e guarda-costas de Jimmy Hoffa, o célebre líder sindical dos caminhoneiros americanos. O personagem é real, tal como descrito no livro que serviu de base para o filme: I Heard You Paint Houses: Frank "The Irishman" Sheeran and Closing the Case on Jimmy Hoffa, do ex-investigador e advogado Charles Brandt. Os fatos que ligam Sheeran a Hoffa, porém, têm sido seguidamente desmentidos desde que o livro foi lançado em 2004.



Mas o que importa é menos a relação com a verdade factual do que a verdade cinematográfica criada magistralmente por Scorsese e seu elenco de craques. Frank Sheeran é o tipo do personagem movido por um senso de lealdade e proteção tão extremados que o leva a espancar brutalmente um patrão que deu um empurrão em sua filha. Por esse mesmo entendimento ele mata a sangue frio e à queima-roupa quem lhe mandem matar. Assim vai subindo na hierarquia da máfia sem nunca deixar de ser um middleman, isto é, um intermediário e cumpridor de ordens.

Daí o ar de tristeza com que ele comenta seu passado num asilo de velhos, instância narrativa principal do filme. Os tempos se alternam entre as décadas de 1940 e 2000, com novos personagens entrando em cena paulatinamente e colocando Frank em situações cada vez mais complicadas. Até que sua lealdade a Jimmy Hoffa é finalmente posta à prova na meia-hora mais eletrizante – e silenciosa – do filme.

A morte é um espectro permanente em cena. Scorsese chega a congelar a imagem para anunciar a época e a forma como certos personagens morrerão no futuro. Que Frank seja o único a permanecer vivo na cena final (um belo plano de porta entreaberta que destila solidão e vulnerabilidade) é algo que soa mais irônico que piedoso ou redentor.



Junto ao peso taciturno dessa história contada por um velho decrépito que sofre com o desamor da filha há também um humor de tintas patéticas. São esses mafiosos às voltas com envelopes de dinheiro, armas descartadas no mesmo ponto de um rio, rixas pessoais distendidas em longas discussões e figurinos à beira do exótico.

O equilíbrio dessas diferentes tonalidades deixa patente a completa maturidade do diretor, que já cometeu excessos em filmes como Bons Companheiros e foi um tanto banal em outros como Cassino e O Aviador. Aqui Scorsese expõe o suprassumo de sua arte, seja no ritmo quase sempre impecável (senti uma leve "barriga" a meio caminho das 3h29 de projeção), seja na requintadamente clássica concepção visual, na profusão de diálogos que saem como tiros ou como sussurros, e sobretudo na extraordinária direção de atores.

Nesse setor é que O Irlandês tem sido mais discutido, uma vez que De Niro, Al Pacino (Hoffa) e Joe Pesci (o mafioso Russell Bufalino) aparecem rejuvenescidos em diferentes idades mediante maquiagem digital. O processo combina finíssimas camadas de tecido sobre a pele com demorados (e caríssimos) retoques e recauchutagens corporais em computação gráfica sobre as imagens filmadas. Mas a coisa não para por aí. Os três atores, já na faixa dos setenta anos, tiveram que se esmerar em movimentos mais ágeis, posturas mais eretas e vozes menos carcomidas pela idade.



Pacino joga tudo na expansividade de Hoffa e se sai com a performance mais marcante. De Niro mantém admirável unidade de ponta a ponta, como alguém que muda de contexto sem alterar a personalidade. Pesci faz o chefe sensato e comedido, mesmo na hora de mandar acabar com a vida de alguém. Uma pena que Harvey Keitel tenha um papel tão diminuto, que mais parece ter sido reduzido na montagem.

Mesmo que nem sempre se consiga acompanhar o fluxo de personagens e relações ao longo do filme, isso não nos impede de usufruir a plenitude de um cineasta e de um modelo de "cinemão" moderno que Scorsese ajudou a construir. E agora, com seus efeitos de ponta, continua a fazer avançar.





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