Cinema

Por que Hollywood não pode deixar de fazer novas versões de filmes estrangeiros?

Um genérico americanizado não necessariamente sugere um certificado de óbito para a sutileza ou a qualidade, mas as produções originais têm qualidades intangíveis que as tornam singulares como representações de seus países de origem

07/02/2019 12:52

 

 
Para um espectador já familiarizado com o cinema francês e com o filme “Intocáveis” (Intocable, 2011), vê-lo em sua nova versão norte-americana (The Upside), recentemente estreada, pode dar a impressão de estar em um desses jogos que te desafiam a reconhecer as diferenças entre duas fotos aparentemente idênticas.

O essencial da história de uma improvável amizade entre um homem branco e rico e um ex-presidiário negro se mantém intacto, e a maioria dos elementos que foram alterados estão em elementos superficiais. O personagem Driss, interpretado por Omar Sy, rouba um ovo de jade do seu patrão, Philippe, um endinheirado tetraplégico, que logo se tornará seu melhor amigo. Na nova versão, o personagem Del, interpretado por Kevin Hart, surrupia de Philip um exemplar antigo de Huckleberry Finn. A paixão da versão francesa pelos estilos musicais de Earth, Wind and Fire foi trocado pelo amor a Aretha Franklin. O fato de Philippe se dar muito melhor em seu primeiro encontro com uma amiga por correspondência em comparação com seu equivalente norte-americano também conta, mas a mudança mais significativa tem a ver com a diferença de cenário, entre Paris e Nova York.

Um passeio às altas horas da noite até os vários andares do Gray’s Papaya, em Manhattan, para terminar em um carrinho de cachorros quentes, pelar simples vontade de comer algo, é a única pitadinha de detalhe em um filme que apagou seu tempo e lugar. Poderia ter copiado qualquer coisa a respeito das críticas à disparidade socioeconômica na Francia, mas isso também se perdeu, por obra de uma indústria que valoriza o genérico, como a garantia de segurança. O original foi objeto de amplas críticas na França, acusado de mercantilizar os estereótipos sociais, mas ao menos mostrava uma distância real entre a banlieue e as ruas de bom tom de Paris. Em The Upside há um capricho do capricho, sem sentido algum sobre o que significam as palavras “rico” e “pobre” nos Estados Unidos de hoje em dia.

A necessidade cada vez maior de Hollywood de dispor de material novo faz do seu passado um cemitério de propriedade intelectual desgastada, e The Upside chega ao extremo máximo das versões novas (os chamados “remakes”) de filmes estrangeiros mais intensamente aplaudidos que logo passam por esse processo. Mas o modelo de importações escolhidas para que tenham a duvidosa honra de uma segunda vida na indústria norte-americana do entretenimento sugere que há motivos de preocupação no sentido maleável e familiar. É uma estranha aposta na potencial semelhança com filmes que antes destacaram por sua originalidade.

Os públicos que digerem a fantasia original de Neil Burger, de educada harmonia racial, se verão submetidos pelo trailer da adaptação de Catherine Hardwicke, diretora de Twilight, versão do thriller mexicano “Miss Bala”, de 2011. A história, mais ou menos verdadeira, de Laura Guerrero, rainha da beleza recrutada à força para colaborar com uma quadrilha narco era notável, por sua forma de se concentrar no medo e no desemparo, duas qualidades pouco comuns e imprevisíveis na protagonista de uma película de ação. No trailer da nova versão, cuja estreia se dará em breve, a personagem Gloria, interpretada por Gina Rodriguez, aprende a usar um rifle, faz o que quer com a DEA atuando como agente dupla, e é capaz de gerar um caos por onde passa com somente dar alguns tiros, que não cairiam mal em muitas imitações de Michael Mann observadas em fitas genéricas com desconto.

Os filmes mais claramente enfrascados em seu gênero e que se jactam de uma isca facilmente orientada são os que mais tendem a cruzar o Atlântico. As comédias familiares parecem ser os de mais fácil adaptação de roteiro, embora venham de países com um senso de humor ofensivo demais para o públicos norte-americanos. Force Majeure (“Força Maior”, de Ruben Östlund, 2014) mostra a covardia, insegurança e fragilidade masculinas, assim que quem melhor para fazê-lo aceitável para os paladares norte-americanos que Will Ferrell, que atua junto com Julia-Louis Dreyfus? (Downhill, que estreará em 2020). Talvez selecionar Tom Hanks para o papel protagonista da versão estadunidense A Man Called Ove (do original Em man son heter Ove, “Um Homem Chamado Ove”, de 2015) amenizará o horrível da tragédia e as tentativas de suicídio que precedem o reconfortante companheirismo de sua metade final. Com respeito a Toni Erdmann (de Maren Ade, 2016), programada para ser reelaborada com Kristen Wiig no papel principal, já a cataloguei como um clone de That’s My Boy, de Adam Sandler, filmado com mais arte e má intenção que quando a vi pela primeira vez, em Cannes.

Há décadas estamos reciclando constantemente o gênero do terror estrangeiro, e não esqueçamos do período de auge do J-horror, quando cine de terror japonês do começo do século fez com que Hollywood mergulhasse de cabeça no conceito da casa encantada e as crianças-fantasmas com cara desfigurada, ao mesmo tempo em que descartava as características mais assustadoras dessas películas. Para poder dizer alguma coisa favorável, é preciso reconhecer que Nicolas Pesce deixou claro que sua versão remodelada da nova versão (um re-remake) de The Grudge será uma criatura totalmente sua, como se já se adiantasse a fenômeno de se tornar insosso, como o que já discutimos aqui. Só o tempo nos dirá se as novas interpretações da norueguesa Thelma (impulsos lésbicos reprimidos levam violentos ataques telepáticos e pássaros mortos) e da austríaca Goodnight Mommy (gêmeos com síndrome de Capgras tentam matar sua mãe vendada, achando que se trata de uma impostora) conservam o tom e o argumento de suas versões originais, além das estruturas que as destacaram. O mesmo vale para fitas de suspense como The Guilty (do original Den skyldige, de 2018), produção dinamarquesa sobre um policial que atende chamadas de emergência e resolve um delito através do telefone, e que será reinterpretada com Jake Gyllenhaal no papel principal.

Um genérico americanizado não necessariamente sugere um certificado de óbito para a sutileza ou a qualidade, mas as produções originais têm qualidades intangíveis – distanciamento, uma veia sádica, maior comodidade com os finais infelizes –  que as tornam singulares como representações de sus países de origem. Como alienígenas que se debatem por respirar na atmosfera da nossa Terra, algumas destas películas não poderiam sobreviver no mercado convencional majoritário do cinema sem uma revisão significativa. Quando estamos no exterior, embora seja só nas salas de cinema, viajamos aos rincões que nos recordam o que é próprio da nossa casa.

Charles Bramesco é crítico de cinema e televisão radicado no Brooklyn, colabora com meios como Rolling Stone, Vanity Fair, Forbes e Newsweek, entre outros

*Publicado originalmente em sinpermiso.info | Tradução de Victor Farinelli




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