Cinema

Por uma geleia de marmelo

Um pouco comédia, um pouco drama, singelo filme búlgaro faz sorrir, mas também provoca e faz pensar

13/10/2020 16:33

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Um pequeno conto bem relatado, uma história inteligente, um filme sem pretensões: esse é O pai (Father/Bashtata), de Kristina Grozeva e Petar Valchanov, uma co-produção Bulgária-Grécia que estreou no streaming semana passada.* O filme de autoria desse casal vem de Sófia e é baseado numa história real que aconteceu na família, depois do funeral da mãe de um parente. A chave da narrativa é a de comédia, mas brincando como quem não quer nada, esse drama familiar expõe a dificuldade cada vez maior de comunicação real entre pessoas próximas, e até entre as que participam com mais intimidade das nossas vidas. Na outra extremidade, a obsessão para não perdermos a conexão com os outros - quaisquer que sejam esses ''outros''; conhecidos ou desconhecidos, virtuais ou de carne e osso -, usando dispositivos móveis que nos escravizaram. E que só agora, aliás, começamos a nos dar conta de que somos escravos de plataformas, senhas, algoritmos e aplicativos.

O argumento de O pai é simples.

Pavel, que vive na capital, volta para sua pequena cidade no campo para estar presente nas cerimônias do funeral da mãe. A distância que separa esse filho do pai viúvo no entanto, é muito grande. Vasil, um idoso irascível e, evidentemente em estado de choque pela morte da mulher, provoca e briga com o rapaz por nada. Entre os dois não há possibilidade de comunicação. Farto do patriarca, mas respeitoso em relação a ele, o rapaz procura satisfazer os seus desejos mais bizarros, durante o enterro e o almoço do luto que se segue com amigos da família.

Mas Pavel também tem os seus problemas. No trabalho ele é um cinegrafista que trabalha em filmes de publicidade, a mesma profissão, por sinal, dos diretores do filme. Sua mulher está grávida e em situação de risco e ficou em Sófia. Não foi informada sobre a morte da sogra para não se emocionar. Ela se comunica insistentemente pelo celular com o marido, dando notícias, e encomenda um vidro de geleia caseira de marmelo, feita no campo, porque sente desejos de comê-la.

Uma parente, porém, durante o almoço do luto, anuncia que a defunta ligou para ela do Além. Que sua voz está lá, no celular. Outra amiga fala de Ruvi, um líder sensitivo especialista em ''transcomunicação em campos informáticos''. Segundo ela, Ruvi recebe mensagens de vários outros ''campos de torção, mais rápidos que o da luz''.

Vasil logo tem certeza que sua mulher veio do Além para dizer alguma coisa a ele depois de morta. E decide procurar a ajuda do ''dr.'' Ruvi, que também vive no campo, a vários quilômetros da sua casa.

Em busca de respostas, esse pai, cada vez mais desequilibrado, e o filho, cada vez mais contrafeito, mas temendo pela integridade de Vasil, partem numa viagem onde tudo vai acontecer. O filme é a trajetória dos dois rumo a uma consulta com Ruvi, com direito de ida e de volta.



O registro escolhido pelo casal de cineastas para contar essa história é o humor, um humor típico das populações dos Bálcãs, forte, rústico, direto e muito cômico.

"Fizemos uma comédia porque a base da história era triste. Algo que poderia acontecer com qualquer um. Por isso, decidimos contá-la a partir de um ponto de vista engraçado. Também queríamos explorar essa mistura de gêneros, comédia e drama, e esperamos repetir isso no futuro'', explicou Valchanov. Junto com Kristina ele já fez dois outros longas, A Lição (2014) e Glory (2016).

''Agora procuramos fazer algum tipo de registro da nossa realidade búlgara e foi crucial colocar algumas reflexões sobre ela no filme. Mas fomos cuidadosos para não priorizar este tópico. A relação entre pai e filho, no nível pessoal, era mais importante''.

O pai foi premiado no famoso e tradicional Festival de Cinema de Karlovy Vary, ano passado, quando o filme foi premiado. Dali foi catapultado para ser exibido em diversos países. Se às vezes ele perde seu ritmo e se cansa, readquire o entusiasmo no terço final. É muito bem acabado, conta com alta qualidade fotográfica e com a competência e charme dos protagonistas. O elenco todo é composto por atores profissionais, companheiros de trabalho de Kristina e Pavel.

As estruturas do país hoje pós-comunista, são provocadas no filme. Quando apresenta a burocracia ainda hiper estatal, uma polícia viciada e sonolenta, na atual Bulgária, e durante o almoço do luto, quando se discute à mesa se o ''dr.'' Ruvi é comunista ou não. Mesmo sendo um agente espiritual, ele, segundo os presentes, costuma receber muitos ''comunistas'' em suas sessões.

Mas é a falta de comunicação terrena o tema central que não se perde na narrativa. Diz Grozeva: '' A relação entre pai e filho é um assunto importante a ser falado. É fundamental tentarmos nos conectar mais e resolver os nossos problemas da melhor forma possível. Acreditamos que essas coisas, os celulares, nos conectam, mas, muitas vezes, podem, por paradoxo, representar obstáculos na comunicação.''

Obstáculos, com certeza. Ainda mais e maiores quando uma geleia de marmelo se infiltra nessa história búlgara.

*Disponível no Now, VivoPlay, OiPlay, Looke e SkyPlay.







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