Cinema

Preto e branco

'Se a Rua Beale Falasse' e 'Guerra Fria' trazem histórias de amor fustigadas pela política na Polônia stalinista e nos EUA racista do século passado

07/02/2019 10:49

(Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte Carta Maior)

 

Amor à cor da pele

"Todo preto nascido na América nasceu em Beale Street", afirma James Baldwin num trecho de Se a Rua Beale Falasse, destacado como epígrafe do filme homônimo de Barry Jenkins, o diretor do oscarizado Moonlight. Essa belíssima adaptação do livro de 1974 carrega a mesma intenção de falar alegoricamente da situação dos afrodescendentes nos EUA. Isso transparece na inserção de fotos documentais de opressão policial em dois momentos do filme. A Rua Beale, portanto, é só um indicativo de abrangência.

De resto, é através de dois núcleos familiares que Baldwin e Jenkins descrevem a diversidade de visões dentro de uma mesma comunidade. Tish (Kiki Layne, estreando no cinema com talento e graça supremos) e Fonny (Stephan James), amigos desde a tenra infância, descobriram o amor e criaram uma redoma de ternura para resistir ao mundo exterior. A maneira como Jenkins encena esse relacionamento, com a ajuda da música de Nicholas Britell, é das coisas mais pungentes que vi ultimamente no cinema. Douglas Sirk e o Wong Kar-Wai de Amor à Flor da Pele inspiraram o cineasta.



Desde o início, porém, esse idílio ao som de cordas elegíacas e slow jazz é cortado por uma realidade que o sucedeu. Antes mesmo de se casarem, por obra de um policial racista, Fonny foi preso sob a falsa acusação de ter estuprado uma mulher portorriquenha. Logo em seguida, Tish descobriu-se grávida e, com o apoio de seus pais e irmãs, lançou-se à luta para libertar o amado.

Levanto alguns pontos curiosos nessa história. James Baldwin foi pregador evangélico na adolescência. Depois renegou a igreja, acusando-a de ser mero teatro. Essa decepção parece tardiamente expressa no retrato da mãe de Fonny, representante de negros de maior soberba e fanática religiosa que prefere ver o neto morto a ver o filho preso. Baldwin não disfarçou um certo maniqueísmo no contraste entre as duas mães, assim como na caracterização do policial white trash.

Particularmente desconcertante é ver como o romance insinua a hipótese do furto como sendo uma solução sempre presente no horizonte dos pretos e pobres para superar suas privações. Ou ainda a fala de Tish, narradora do filme, a respeito de um amigo de Fonny: "O tempo não ajudou Daniel. Ele continuava grande, preto e barulhento". A percepção de racismo introjetado pode ser uma leve mácula no perfil angelical da moça.



Quando se emprega numa loja de perfumes ("eles achavam progressista empregar algum negro"), Tish experimenta na pele, literalmente, diversas acepções de racismo, vindo tanto de brancos como de negros. Em contrapartida, nos dias que precederam a prisão, o casal encontrava sinais de uma rede de solidariedade que ligava os "diferentes" (pretos, latinos, judeus), talvez tão idealizada quanto a sua própria história de amor.

Sim, porque antes de mais nada Se a Rua Beale Falasse é uma história de amor contada com um misto de tristeza e glamour, brandura e sensualidade. Chegando às vezes próximo do preciosismo formal, Barry Jenkins nos enleva com sua câmera abraçando Tish e Fonny, colocando o espectador no coração fresco de um romance em pleno viço, mas fadado à frustração. O filme concorre aos Oscars de roteiro adaptado, trilha sonora e atriz coadjuvante (Regina King, que faz a mãe de Tish). A meu ver, é melhor do que Moonlight.



Depois que o filme acaba, o romance de Baldwin continua. Se você não quiser saber, não leia o próximo parágrafo antes de ir ao cinema.

No livro, Fonny é libertado sob fiança quando o filho já é um menino crescido. Antes disso, seu pai cometeu suicídio após ser flagrado roubando os produtos com que juntava dinheiro para a defesa do filho. Nos dois casos, são pais negros impedidos de cuidar de seus filhos depois de uma intervenção da polícia. James Baldwin fincava aí sua bandeira da consciência negra numa América injusta.



Uma fria guerra fria

Como aconteceu com Ida (leiam aqui minha resenha), o filme anterior de Pawel Pawlikowski, a forma chamou minha atenção para além da conta em Guerra Fria. O diretor polonês volta a filmar em preto e branco, com tela quadrada e colocando muitas vezes o objeto central das cenas no terço inferior do quadro. As imagens, extremamente bem compostas e iluminadas, sugerem a aparência de "filme de fotógrafo" – aqueles em que o cineasta parece mais interessado na beleza dos planos do que na precisão da narrativa.

Mas, ao contrário de Ida, não existe a mesma coesão entre forma e conteúdo em Guerra Fria. Afora uma certa relação com o cinema noir (um homem, uma mulher e algum perigo), o virtuosismo estético de Pawlikowski parece bastante postiço e artificial. A narrativa é conduzida por elipses desconcertantes e cortes secos para a tela negra, o que frequentemente nos arranca para fora da história em lugar de nos convocar progressivamente.



A música tem papel importante, desde a cena de abertura, em que o maestro Wiktor (Tomasz Kot) aparece gravando performances populares e entrevistando cantoras para um espetáculo folclórico na Polônia do pós-II Guerra. A ajudante de Wiktor, figura aparentemente importante nas sequência iniciais, vai desaparecer do filme de maneira abrupta. Em seu lugar entra a bela Zula (Joanna Kulig, novo símbolo sexual do cinema polonês), promessa de cantora por quem Wiktor cai de amores.

O realismo socialista e o culto a Stálin começam a se impor na Polônia, fazendo com que o destino dos dois tome rumos diferentes. Mas o romance vai atravessar o período de 1949 a 1964 com muitas reviravoltas e dependência mútua, até um final despropositado.

A guerra fria reverbera na vida de Wiktor e Zula, estando eles juntos ou separados. Há projeto de fuga, envolvimento em espionagem, amores paralelos e um casamento simbólico numa igreja arruinada pela guerra. Tudo pontuado pelas canções da moça e o piano do moço. Do repertório folclórico polonês passa-se ao jazz e a canções sofisticadas numa Paris convenientemente idealizada. O clima noir às vezes cede lugar ao melodrama conjugal clássico, com risco de transformar o filme em uma versão europeia de Nasce uma Estrela.



Guerra Fria
me pareceu bonito de ver e gostoso de ouvir, mas frio de sentir. Wiktor e Zula são personagens unidimensionais, cujo estofo emocional nos é frequentemente negado. Talvez por isso, a química entre os amantes não chegue ao espectador. Junte-se a isso o aspecto fragmentado da narrativa e a encenação desdramatizada, embora elegante, e temos uma experiência de distanciamento em grande medida frustrante.

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