Cinema

Pureza no país dos escravizados

Baseado na realidade da escravidão que perdura no Brasil, e num personagem verídico, o filme de Renato Barbieri é meio doc meio ficção e estréia em Belém em dezembro

14/11/2020 11:44

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Pureza é o nome da mãe do jovem que saiu de casa para ganhar a vida num garimpo da Amazônia e assim tentar tirar a família da miséria no interior do Brasil. Pureza é também o título desse brilhante filme brasileiro produzido no ano passado, ficção ancorada em raízes reais e inspirado em fatos concretos, dirigido pelo documentarista Renato Barbieri, de 37 anos, de Brasília, diretor também de Cora Coralina- todas as vidas. Ele chega no momento certo.

Na próxima semana o filme começará a disputa para ocupar um lugar na lista de indicados para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do próximo ano. Torcemos por ele. É um filme de qualidade e o seu tema precisa ser conhecido em grande escala. No Brasil, o trabalho escravizado ainda é consentido e naturalizado, fruto da secular tradição escravagista do país dos maricas que a praticam até hoje sob diversas formas - no campo e nas cidades. A escravização perdura.

A década dos anos 90 é o cenário de Pureza. E existiu esse personagem da mãe, dona Pureza Lopes Loyola, que saiu à procura do filho Abel, desaparecido, e se depara com uma fazenda sustentada e explorada com o trabalho escravagista em garimpo ilegal do interior da Amazônia. Na sua busca, ela acaba encontrando um sistema de aliciamento e de cárcere de trabalhadores rurais, mas escapa e denuncia os fatos às autoridades federais. Sem ter credibilidade na sua denúncia, por ser alguém modesta e pobre, e lutando contra um sistema forte e adverso, dona Pureza, no filme e na realidade, volta à floresta para registrar e apresentar provas.

(Reprodução/Breno Pompeu)

O drama também mescla o gênero documental - ao trabalhar com atores profissionais e com uma das melhores atrizes do nosso cinema atual, Dira Paes - e com trabalhadores rurais hoje ex-escravizados, todos preparados juntos para alcançar a interpretação forte da narrativa que se alia à beleza plástica criada pelo diretor de fotografia Felipe Reinheimer na companhia do mestre fotógrafo Affonso Beato.

Além disso, o roteiro de Marcus Ligocki Júnior é enxuto e a trilha musical do compositor americano Kevin Riepl, convincente.

Pureza vai estrear em cinemas de Belém no dia 3 de dezembro próximo, e ficará em cartaz durante uma semana; em 2021 certamente entrará em plataformas digitais. Até aqui a sua trajetória vem sendo relevante. Ganhou prêmios em diversos festivais onde foi apresentado (Florianópolis, Vitória, Jaraguá do Sul) e no estrangeiro, em Xangai, Marselha, Washington, La Paz, Seattle, no festival italiano de Salento, e em Newport entre outros.

O que causa impressão e dá energia ao filme de Barbieri é a austeridade das suas imagens e a limpeza da linguagem com que procede, em primeiro lugar, durante o prólogo, quase sem diálogos, e sem adjetivos. Em seguida, durante todo o desenvolvimento do roteiro, que é iluminado no limite de um lusco-fusco crepuscular e nos faz descer às profundezas de um inferno construído por criminosos proprietários de terras.

Um roteiro e uma história sobre a qual, aliás, o atual presidente da República diz saber '' pouco disso'', como afirmou há dois dias em uma das suas falas oficiais.

Ou seja: ele sabe pouco sobre ''a luta de uma trabalhadora rural maranhense que foi atrás de seu filho e durante três anos percorreu fazendas que escravizavam trabalhadores,'' como lembrou Dira Paes numa entrevista sobre Pureza. O filme deve levá-lo a saber o que ainda hoje ocorre no Brasil. No campo e nas cidades.




Léa Maria Aarão Reis é autora de Maturidade (Ed. Campus), Manual Prático de Assessoria de Imprensa (Ed.Campus), Porto Seguro, Arraial d'Ajuda e Trancoso: Sul da Bahia (Ed. Index), Nova Idade (Ed. Rocco), Cada um envelhece como quer (Ed. Elsevier), 40/50 anos: Além da idade do Lobo ( Ed. Campus) e Nada Muito coautoria com João Curvo (Ed. Rocco)

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