Cinema

Putin: democracias são mais resilientes e efetivas

Com próxima sessão em São Paulo, dia 11, 'As testemunhas de Putin' é um dos filmes mais provocantes do festival 'É Tudo Verdade'

07/04/2019 13:10

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Créditos da foto: (Reprodução)

Os eventos deste singular e fascinante documentário – As testemunhas de Putin (Putin’s witnesses) - têm início na virada de ano do dia 31 de dezembro de 1999 quando o mundo começava os festejos do início do novo século. Na Rússia, as celebrações vinham acompanhadas de uma carga emocional extra e de um significado político que fazia estremecer não apenas aquele imenso país - queira ou não, protagonista daquele instante e do futuro -; mas todo planeta.

Boris Yeltsin, o então mandatário russo, com o rosto inchado, com dificuldade de articulação, a saúde precária, anunciava na TV, de forma dramática e quase de repente – se vê no filme -, sua renúncia à presidência do país. Incumbia Vladimir Vladimirovitch Putin (escolhido entre 20 outros nomes), ex-agente da KGB em Berlim Oriental e então Diretor do Serviço Federal de Segurança russo, para anunciar a vacância da presidência e as eleições que deveriam ser efetivadas dali a meses, quando foi eleito o seu sucessor pelas décadas seguintes.



Sete anos depois da eleição de Putin, Boris Yeltsin morreu.

Mais adiante, numa outra noite histórica – sete de maio de 2000 –, o documentário As testemunhas de Putin mostra Yeltsin rodeado pela família, em sua casa, na capital russa, depois de tomar a taça de champanha de comemoração da vitória do seu candidato (44% de votos em Moscou), aguardando um telefonema durante uma hora e meia com a resposta de Putin à ligação que dera momentos antes para cumprimentá-lo. E o constrangimento de todos na sala com o silêncio da criatura ao seu criador. Putin nunca ligou de volta para Yeltsin.

Fantasmas do passado.

Agora, quase duas décadas depois de o cineasta Vitaly Mansky, na época diretor do Departamento de Documentários da Televisão russa, acompanhar, filmando de perto, as entranhas da transição de poder de Yeltsin para Putin, ele próprio lança um novo olhar sobre seu material de quase vinte anos atrás onde os protagonistas são, além da dupla, também Gorbachev. Ele passa de raspão pelo documentário, quase se esgueirando, no instante em que coloca seu voto na urna e, em seguida, reunido com amigos. Não revela em quem votou.

Mansky questiona a imagem que seu filme de 2001 construiu sobre o ex-agente da KGB alçado a presidente da República pelo voto na chamada Operação Sucessor, faz uma revisão no seu trabalho e reinterpreta as consequências históricas dos eventos dos quais foi uma testemunha privilegiada. ''E de alguma maneira, cúmplice, porque é isso que são as testemunhas'', diz Mansky no filme.

As testemunhas de Putin é um documentário que deve ser visto em perspectiva. Mesmo não aprovando nem concordando com o desempenho do presidente russo nas últimas décadas, ele é mais uma ferramenta para compreender que – e isso transparece em diversos instantes do filme – a firmeza das posições muitas vezes autoritárias do presidente russo é a sólida base de confronto corajoso e duro face as provocações que, sem ele (e sem os chineses de Xi Jinping) , teriam nos levado, provavelmente, a um mundo unipolar atual sob a perigosa e única tutela imperial dos EUA.

Dois eixos das idéias de Putin são expostos por Manski em seu filme: a veemência com que ele defende a questão dos interesses russos, de estado, acima dos interesses individuais, e a sua justificativa de respeitar, com alguns símbolos e programas, a memória do período comunista. ''É um período que faz parte da vida de tantos russos que não pode ser apagada'', ele diz, com veemência, em uma de suas conversas com Mansky.

No filme há uma bonita sequência do ensaio de um coral se preparando para cantar o hino nacional russo na sua versão atual originada no hino soviético – a mesma melodia, a letra mudada.

Ao responder a essas críticas por trazer de volta o simbolismo soviético, Putin disse, em 2000: "Se estamos de acordo que nós não devemos usar os símbolos da era soviética, também devemos concordar que uma geração inteira de nossos cidadãos, os nossos pais e mães, que viviam na URSS, viveram uma vida sem sentido. E eu não posso concordar com isso''.

Mansky mostra, na campanha para a presidência, a transformação da imagem de Putin, do ''homem de mão de ferro'' – desejada pela população, aliás, naquele momento dos atentados terroristas de chechenos cujas explosões pipocavam por todo o país - para o moderninho, simpático e sempre afável e receptivo homem público, mediante os mesmos truques baratos de marketing empregados nas democracias ocidentais.

Outra curiosidade: o dístico da campanha de Putin para essa sua primeira presidência, ''é tempo de vencer'', foi inspirado numa observação de passagem do marido da sua antiga professora, em São Petesburgo – ex-Leningrado – e que aparece de relance, na demagógica visita de Putin á casa dela com um buquê de rosas vermelhas na mão. Coisas de marqueting.

No final de As testemunhas de Putin, uma produção Letônia/Suiça/República Checa, as sequências mais importantes. Uma delas, quando Mansky (fora de campo sempre, voz off) provoca o presidente russo. ''Todos os seus apoiadores da época da primeira eleição, exceto Dimitri Medvedev, passaram à oposição''.

E arranca de Putin a afirmação veemente: ''A democracia e as democracias são resilientes e mais efetivas''.



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