Cinema

Quando a ''pátria distraída'' viu o país começar a ruir

Excelente documentário sobre o ex-deputado Jean Wyllys, ironicamente intitulado 'Entre os homens de bem', mostra o prólogo da derrocada do país em sessão no Canal Brasil

03/02/2019 10:29

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 

É admirável o documentário de uma hora e quarenta minutos sobre a corajosa trajetória do deputado federal do PSOL, Jean Wyllys, de 45 anos, até 2016, das suas batalhas na Câmara e nas redes sociais como representante da causa LGBT e da sua luta pelos direitos das minorias. Chama-se ironicamente Entre os homens de bem (os da bancada boi-bala-bíblia) e narra o que foi a luta de Wyllys, um baiano de Alagoinhas, professor e jornalista, na sua rotina diária enfrentando a truculência, a ignorância, a grosseria e o atraso dos neo pentecostalistas liderados por três figuras especialmente agressivas: o então deputado Jair Bolsonaro e seus colegas, Marco Feliciano e Silas Malafaia.

Além de traçar o perfil de um personagem singular, de brilhante inteligência, o documentário funciona como um prólogo ao atual cenário de crise de governo e da lamentável polarização cada vez mais violenta da política brasileira.

O filme foi financiado por 480 pessoas com nomes registrados nos créditos finais e foi reprisado ontem, 03/02, no Canal Brasil.

Durante três anos, os diretores Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, acompanhados de uma competente equipe – roteiro, montagem, fotografia, trilha musical - seguiram os passos do deputado que, vê-se hoje, nada mais foram do que um dos mais evidentes sinais de um país que começava a se esfacelar.

São mostrados e relembrados os sistemáticos e insistentes discursos dos fundamentalistas religiosos evangélicos exortando o combate à ''destruição da família'', na Câmara dos Deputados de 2013, os epítetos cotidianos de ''boçal'' e de ''covarde'' contra Wyllys, as falsas denúncias de ''conspiração'' contra o núcleo familiar e os cultos evangélicos praticados nas dependências do Congresso brasileiro.

Vê-se o deputado Jair Bolsonaro, em seu gabinete decorado com fotos dos generais Médici e Figueiredo vituperando contra o falso ''kit gay'' em discursos recheados de palavrões, propondo a ''cura gay'' e protestando contra a educação sexual nas escolas. ''A lei existe para proteger a maioria'', ele professa.

Os sorrisos, o deboche permanente, nesse ambiente de luta para o reconhecimento das uniões civis dos homossexuais, e a batalha para que, como diz Jean Wyllys, ''saíssemos da invisibilidade''.

Sempre que estava com a palavra, e discursava, por detrás dele se ouvia baixinho o colega deputado Bolsonaro xingando: ''‘viado'', ''escroto'.'

''Enquanto a pátria estava distraída*'', comenta Wyllys, no filme, ''as igrejas se organizavam em instituições políticas, num processo inteligentíssimo. Tentava justificar a repressão sexual baseada em dogmas religiosos''.

Wyllys, no carro, se dirigindo para uma atividade política, sentado ao lado do motorista e cantando O que será, de Chico Buarque, é um dos momentos mais bonitos do filme.

As ameaças se avolumavam e eram cada vez mais pesadas. Na mesma proporção das vitórias conquistadas (legalização da união civil: na Argentina, em 2010; na França, em 2012 e na Irlanda em 2015, registra o filme) e dos ataques. A ministra Damares aparece numa cena xingando ''esse tipo de gente''.

''Ás vezes eu me sinto cansado'', diz Wyllys. ''Desejo às vezes deixar de ser alvo''. E revela sua preocupação com o fortalecimento do fundamentalismo religioso no Brasil.

Entre os homens de bem revive a histórica cena da cusparada que deu em Bolsonaro, em plenário, no dia da votação para o impedimento da Presidente Dilma Rousseff (revidada por outra, no seu rosto, de um dos filhos do colega) e o comentário de Wyllys a guisa de desculpas: ''Foi mais forte do que eu''.

Do ponto de vista estritamente cinematográfico, o doc de Caio e de Carlos Juliano é impecável. Cinema direto, ele não conta nem não narra. Ele mostra o tempo todo.

Mostra um país que começava a se esfacelar.

*Canção de Chico Buarque, Vai passar. ''... Dormia, a nossa pátria-mãe tão distraída/Sem perceber que era subtraída/Em tenebrosas transações".



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