Cinema

Quando os 'irmãos' se devoram

A sucessão na ex-URSS em A Morte de Stalin e a guerra civil de Moçambique em Comboio de Sal e Açúcar colocam em cena disputas internas em tempos de transição

08/06/2018 15:49

Cena do filme A Morte de Stalin, de Armando Ianucci

Créditos da foto: Cena do filme A Morte de Stalin, de Armando Ianucci

 
Por Carlos Alberto Mattos
 
A Morte de Stalin é parte de um revisionismo cultural que fez do comunismo ultra-ortodoxo uma piada histórica. É o que se vê, por exemplo, nos "museus do comunismo" em países do Leste europeu, cuja museografia não disfarça um comentário satírico sobre o passado. Aqui, o último dia de Stalin e os primeiros dias da URSS sem ele ganham um olhar herdeiro do grupo humorístico inglês Monty Python (Michael Palin, por sinal, é um dos protagonistas). Com a morte vexatória do supremo "Homem de Aço", depois de desmaiar numa poça de urina, seus ministros se digladiam em torno da sucessão e das mudanças que devem ou não impor ao país.
 
O diretor inglês Armando Ianucci, prolífico satirista político conhecido aqui pelo longa Conversa Truncada, não se afastou muito dos fatos verídicos, mas os mergulhou num coquetel de humor ácido, tipicamente britânico, para realçar a pusilanimidade da alta nomenklatura soviética de então. Enquanto Stalin agoniza, por exemplo, o alto escalão tem dificuldade em achar bons médicos porque todos estavam nos gulags ou haviam sido mortos. Além do mais, será que o comitê central teria mesmo interesse em salvar o líder máximo?
 
Michel Temer seria um ótimo personagem dessa comédia de traidores, puxa-sacos e inescrupulosos. A disputa pelo espólio político do morto se passa num covil de serpentes, enquanto lá fora os pogroms ainda torturavam, fuzilavam ou mandavam para a Sibéria os inimigos do regime. Nikita Khruschev (Steve Buscemi) fica encarregado de organizar os funerais e usa isso como trampolim para enfrentar o carniceiro Beria, executor do expurgo stalinista, e finalmente se consagrar Secretário Geral do PC.
 

Cena do filme A Morte de Stalin, de Armando Ianucci

Começava, então, a desestalinização da URSS. Mas não sem antes terem que lidar com os dois filhos de Stalin e a tentativa de golpe de estado do comandante do Exército Vermelho. Tudo isso chega à cena na forma de uma sátira mordaz, sagaz e veloz. Não há tempo para respirar entre as gags verbais e visuais. Os traços físicos dos ministros são caricaturados, a burocracia do "centralismo democrático" e a pompa stalinista são alvos de uma metralhadora cômica irresistível. A encenação é ágil e quase sempre brilhante. O elenco de craques se move numa cenografia grandiosa que, paradoxalmente, expõe o vazio da suntuosidade autoritária.
 
Western fratricida em Moçambique
 
Dois anos depois de se tornar independente, Moçambique passou por uma longa guerra civil (1977-1992) que ceifou 1 milhão de vidas e o deslocamento de 5 milhões de civis. Os militares, a serviço da Frelimo, defendiam o novo regime contra a guerrilha anticomunista. Vários filmes já foram feitos sobre esse assunto, mas Comboio de Sal e Açúcar o enfoca por um recorte diferenciado.
O brasileiro Licínio Azevedo, radicado em Maputo desde a década de 1970, baseou-se no seu livro homônimo para descrever um conflito vivido no mesmo lado, entre elementos das forças governamentais. Um trem parte carregando sal para trocar por açúcar com o Malawi, numa ferrovia pontuada por emboscadas dos rebeldes. Além do carregamento, viajam também mulheres, crianças e civis, de diferentes crenças e religiões.

 Cena do filme Comboio de Sal e Açúcar, de Licínio Azevedo

Como sempre faz em seus filmes (na maioria, documentários mesclados à ficção), Licínio trata da interação entre a vida bruta dos moçambicanos e suas ligações com o sobrenatural. Mais que o inimigo, o medo é o grande vilão a combater. Amuletos e referências a feiticeiros e bruxarias convivem com questões mais concretas, como as estratégias de sobrevivência aos tiros da guerrilha e à falta de água e alimentos durante a viagem.
 
O que se vê das janelas do trem é um país devastado não só pela miséria e a guerra, mas também pela violência machista e as disputas de poder, mesmo numa esfera modesta como um trem. Nesse contexto é que eclode a conflagração central: uma bela enfermeira é alvo do interesse de um tenente de boa índole e de um alferes inescrupuloso e estuprador. Esse plot vai aos poucos tomando a forma de um western fratricida, que mostra como as tensões da guerra atingiam não apenas os inimigos formais.


Cena do filme Comboio de Sal e Açúcar, de Licínio Azevedo

 Já são bem conhecidos os "milagres" que Licínio Azevedo consegue operar com a produção e o elenco num país que nunca conseguiu profissionalizar seu cinema. Mas o que ele obtém em COMBOIO é uma verdadeira façanha na dimensão do épico. Atores e figurantes atuam com excelência, a fotografia do francês Fréderic Serve e a montagem do brasileiro Willem Dias dão grandeza e ritmo a um filme que, apesar da narrativa confusa em alguns poucos trechos, não é menos que admirável. É também admirável a iniciativa de Cavi Borges e sua Livre Filmes ao distribuir esse longa no Brasil.  
 



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